De pataco a meio tostão

A Brasileira em 1911, por Joshua Benoliel - Arq. Municipal de Lisboa
A 8 de Maio de 1915, o diário lisboeta O Jornal trazia na primeira
página uma notícia de sensação: o preço da chávena de café na
Brasileira - nome de dois cafés do mesmo dono, um no Chiado, outro
no Rossio - aumentara dez réis, passando de pataco (40 réis)
para meio tostão (50 réis). O aumento de 25% no preço da chávena
era denunciado em título, a brincar, como “O grande crime!”
Comparando, a bica servida à mesa da Brasileira custa hoje 1 euro,
ou seja, 200.000 réis, mas na esplanada vai para os 300.000 réis…
Diga-se que, em consequência da Guerra de 1914-1918, o preço do
café no mercado internacional tinha entrado em queda e o governo
brasileiro, dominado pelos grandes fazendeiros de café, ordenou a
queima de três milhões de sacas para defender o preço. Assim, a
subida da chávena de café na Brasileira, em Maio de 1915, não
reflectia o encarecimento da matéria prima, mas apenas o início da
alta geral dos preços devida à guerra.
A notícia a duas colunas de O Jornal era ilustrada por um desenho de
António Soares, então na sua fase paúlica (modernista), e por uma
invulgar fotografia, tirada do interior da Brasileira para a porta da rua,
com as silhuetas dos clientes em contra-luz. A Brasileira do Chiado,
fundada em 1905 por Adriano Teles (que aparece na notícia como
o “Teles”), tinha ainda a sua fachada original, anterior à remodelação de
1925, com uma vitrine de cada lado da porta, como na foto acima.
Numa das montras podia ver-se um grande moinho de café - que foi
pena ter desaparecido dali, pois seria agora uma bela peça decorativa.
Quando o café abriu ao público, Adriano Teles ofereceu a bebida
gratuitamente durante algum tempo, para atrair a clientela - facto a que
o jornal se refere também.
O artigo, que abaixo transcrevo integralmente, está escrito em tom
de chalaça, mas é uma rara fonte de informação sobre o Café
da Brasileira naquele período, especialmente sobre o microcosmos
social composto pela variada clientela. Faz um inventário das famílias
políticas dos habitués, dos talassas (monárquicos) aos avançados,
passando pelo errático Machado Santos - chefe do 5 de Outubro e
de várias outras revoluções, até que morreu numa feita por outros,
em 1921. Nos grupos profissionais enumera os médicos, os actores,
os artistas, os jornalistas, os intelectuais, o pessoal da legação do
Brasil, etc. Nas escolas artísticas salienta os paúlicos (designação
dos modernistas, a partir do título de um famoso poema de Fernando
Pessoa, “Paúis”, publicado em 1914) e os futuristas. Inclui uma
série de ditos e de instantâneos de celebridades da época, algumas
das quais não resistiram ao tempo.
Nada entre as notícias de O Jornal daquele dia permite prever que
dali a menos de uma semana, a 14 de Maio de 1915, rebentaria uma
sangrenta revolução que derrubaria o governo de Pimenta de Castro.
Transcrevo o artigo com ortografia actualizada, com algumas precisões
[entre parênteses] e recolocando os parágrafos finais no lugar em que
logicamente deveriam estar. Algumas frases dúbias deixei-as tal qual.
O grande Crime!
UM PATACO DE CAFÉ NA “BRASILEIRA”
PASSA A CUSTAR MEIO TOSTÃO!
Indignações, frases célebres, silêncios, protestos
Abriu a meio da tarde, quando ontem o lisboeta vinha à rua tomar,
na piscina do Chiado, o seu banho diário de sol, uma notícia se ergueu,
de repente, que alvoroçou os corações, e irritou, no ânimo do
transeunte, uma dolorosa picada de emoção:
- O café da Brasileira aumentou 10 réis em chávena!
A primeira impressão foi de espanto - e o espanto prende, gela,
imobiliza. Por um momento, o Chiado fica boquiaberto, não fala, é
mudo; não vê, é cego.
Depois, subitamente, veio a revolta, veio a cólera, veio a indignação
- e aparecem os grandes gestos, as grandes dores, as grandes frases,
os grandes silêncios!
Açodadamente, de todos os lados, os habitués da Brasileira
chegam, estacam, de cara ao balcão! Vêm de tropel, os olhos
coléricos, os lábios trémulos; alguns trazem ainda a gravata desatada;
o cabelo em desalinho…
- Dize-me: é verdade?
E os recém-chegados abanam pelos ombros os empregados que, lá
ao fundo, de dentro do balcão, com o caixeiro Viana, vêem com terror
a onda de revolta avançar, em torvelinho, num refluxo de maré cheia…
A notícia chegara-lhes a casa de manhã e, posta a correr mundo,
passou a todas as ruas, chegou a todos os lares, entrou pelas
redacções, pelos cafés, pelas secretarias…
Há frases que ferem lume, mãos que se enclavinham. É o tumulto, é
a desordem.
- Não pode ser! Não pode ser!
A assembleia, de resto, é imponente. Está lá tudo quanto de bom,
na arte, no teatro, no jornalismo, tem o hábito de tomar café… Estão
António Costa, Feio Terenas, dr. Alfredo [da] Costa, Álvaro de
Almeida, Boavida Portugal, Stuart Torrie, Augusto Gil. Estão
Almeida e Sousa, Alfredo Soares, D. José Barahona, Jorge
Saavedra, Eduardo Segurado.
Na mesa da porta, entestando à rua, o dr. António Aurélio [da
Costa Ferreira] discursa, debate, agita - preside! A sua voz soa,
formidável, como grito de reivindicação.
Entretanto, sala fora, formam-se grupos célebres: o visconde de
Almeida Vasconcelos, Jorge Colaço, o padre Araújo, Manuel Santos.
É o grupo dos talassas. E Emílio Costa, António Albuquerque, etc.
É o grupo dos avançados.
Há ainda os grupos por profissões: os médicos, os actores, os
artistas - Eduardo de Sousa, João Gonçalves, Moura Pinto; Chaby,
Mendonça de Carvalho, João Lopes, Araújo Pereira; Alberto de
Sousa, Jorge Barradas.
E estes, ainda, por escolas: os paúlicos, como António Soares, e
os futuristas, como Santa Rita.
Depois, pelas mesas fora, abancando sem distinção, Eduardo Graça,
Anahory, Mário Duarte, Alberto Bessa, Amélio de Barros, Juca de
Carvalho, o pessoal da legação do Brasil, José Pacheco, Machado
Santos - a fina flor do tom e da arte, do pensamento e do jornalismo
que todos os dias, desde o meio-dia à meia noite, ali abancam para a
libação e para a má língua, Para a palestra, para o vício, para o sonho…
*
- Meio tostão, por isto? - clama [alguém].
E aponta, entre indignado e desdenhoso, a sua chávena.
- Pois dize lá ao patrão, ouviste, que daqui em diante, com o meio
tostão do café, deixarei também - a camisa!
A frase é de efeito: emociona, revolta, sacode. Lá do fundo, Pedro
Muralha, de braços no ar, clama:
- Abaixo o capital!
O tumulto cresce, ameaça degenerar em revolução…
Há juras de ódio; o Chico Redondo chega, com os seus discípulos
dilectos, o António Caldeira e o Vitoriano Braga, dirige-se
impetuosamente ao balcão.
Há um momento de ansiedade. Que irá fazer o ilustre cantor?
Cantar dois compassos de música - ou dar dois murros no caixeiro?
Mas já a sua voz esplêndida, a sua voz de oiro soa pela sala:
- Diga lá ao Teles, ó seu coiso, que a mim não prega ele partida
nenhuma: eu só bebo água!
Aí pelas 3 horas, a Brasileira está à cunha. Aquela hora é para os
apreciadores de café - a hora da iniciação.
Eduardo Peres, Estefanina, tenente Moniz Ribeiro, Pires Avelanoso,
Eduardo Graça chegam, abancam, batem palmas…
- Olhem que o café aumentou de preço - gritam-lhes.
- Hein?!
E a vozearia aumenta, e há novos punhos no ar.
Os criados vão e vêm, dão explicações.
- De quem eu tenho pena - diz um deles, lamuriento - é do sr.
Arnaldo Pereira. Imaginem: toma vinte cafés por dia!
O João Correia de Oliveira, quando lhe dão a má nova, meneia a
cabeça, diz, para o lado:
- Começo a acreditar que há a guerra europeia…
O Torres de Abreu é dos mais bulhentos.
Em pé, clama, para a porta, para a rua, para a publicidade:
- Aumentar o preço do pão, concebe-se, aumentar o preço do
veneno, nunca!
Há palmas, apoiados.
- É claro! Precisamos do envenenamento a preços baratos!
Esculápio [Eduardo Fernandes] pede o seu café do costume, entra
já remexendo no bolso do colete o meio tostão da praxe.
- Sr. Eduardo Fernandes, são mais dez reizinhos…
- Como?! Então não quero o café!
E, guardando o dinheiro, sai, alto, imponente, assombroso na sua
revolta!
Vagamente começa a correr que o [deputado] Camilo Rodrigues
vai desafiar o Teles…
O sr. [Mário] Sá Carneiro, em cabelo, as mãos à altura dos peitos,
anda pela sala, exclamando:
- Eu zebro-me, eu upo-me, eu engenho-me! Isto é rodopiante de
roubo, zigzagueante de escândalo!
O actor Chaby manda telegrama - e não aparece por estar fora
de Lisboa.
- O caso é que isto não pode ser!
Há os que se indignam, os que entristecem, os que ficam na
expectativa.
Albertino da Silva, sorumbático, encolhe os ombros - e manda
manda vir segundo café.
O sr. Brito Camacho, recebe serenamente a notícia e põe em cima
da mesa, como na forma do costume, três vinténs [60 réis].
- Nunca dei menos - diz - mas também não dou mais.
Grita-se, aqui e ali:
- Não se dá gorjeta! Não se dá gorjeta!
A ideia parece excelente. E alguns vão pelas mesas, patentear a
abstenção de gorjeta - enquanto, às escondidas, metem na mão dos
criados o vintém habitual.
Há, entanto, quem bote cálculos ao lucro que, no fim do ano,
representa para o proprietário aquele pequeno aumento de 10 réis
em cada chávena.
- Cousa aí pra 9 contos, nas duas Brasileiras!
Há ohs! de assombro, dúvidas, quando o sr. Ramiro Leão, risonho,
informa com autoridade:
- Cada chávena de café, já com o respectivo açúcar, fica ao dono
da casa por 6 réis!
- Imagine-se, hein?!
*
A tarde passou assim, sem lances. À noite, passámos pelo Chiado
e metemos o nariz na Brasileira. Esperávamos ver mesas partidas,
copos quebrados - e encontrámos, na acalmia do costume, os habitués
de sempre.
- Mas então, a coisa ficou assim?!
E dirijo-me ao criado, que, num sorriso de tranquilidade, senhor de
si, me diz:
- Qual! Tudo como dantes! Vendeu-se o mesmo café e… nunca tive
tantas gorjetas!
E num gesto que abrange toda a sala, repõe:
- É que esta sociedade é da boa! É da fina! É… da liró!
… E aí está como o sr. Teles, já contando com a passividade dos
homens de letras, dos artistas, dos poetas, dos actores que lhe
frequentam a casa, arranjou meio de lhes apanhar mais dez réis em
cada meio decilitro de um café, que principiou por nos dar de graça
e acaba a custar-nos os olhos da cara…
Sr. Teles - bolas!
© José Barreto