Thursday, December 24, 2009

LXIII - Natal solitário

Natal solitário, 1951

Louis Stettner é um fotógrafo americano nascido em 1922 que viveu em Paris nos anos 40-50.

Pupil and lifelong friend of the photographer Brassai,  Stettner seeks to capture in his glimpses of daily life a profound connection to reality while casting light on the human experience in all its facets. Starting at the age of thirteen, encouraged by Alfred Steiglitz and Paul Strand, his photographs are now in such permanent collections as the Metropolitan Museum of Art, Museum of Modern Art and the Victoria and Albert Museum.

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Louis Stettner - Noite de Natal, Île Saint-Louis, Paris, 1951

Among Stettner’s most powerful pictures are his photographs of Paris taken 1946-51. Describing his early  experiences photographing Paris Stettner says, “I came to Paris in July 1946, intending to stay only three weeks and remained for five years. I do not know how it happened that way. When you love someone or something, it is hard to explain why. Eventually, I realized the compelling attraction of Europe. In the States the past is completely obliterated by the present. What is new, happening now, has significance. What is old is irrelevant. Whereas in Europe, the past dominates the present. A huge conglomeration of old stones gives reassurance, a secure feeling that although life is a very difficult business, we humans have managed t survive.”

“…Most important was the outdoor studio that was Paris. I would take long daily walks with my camera, leaving myself open to whatever happened around me. Sometimes I am asked why I did it. There was no economic basis and the possibility of recognition was slight. I suppose I was driven by a great need and love to get close to the world around me. Each photograph was a way of reaching out, an act of discovery… The photographs that remain strong and alive seem to be when your vision and reality are so inexorably wedded together, it is impossible to separate them. Paris was that very special place where I defined myself as a photographer.”

Source: Parisvoice

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Sunday, July 19, 2009

lxii - Café Slavia

 

Café Slavia (Kavárna Slavia), Praga

 

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Mais um café da Europa Central rico em tradição cultural. Situa-se no centro histórico de Praga, em frente do rio Vltava, na esquina da avenida Narodni com a avenida marginal Smetanovo. Aberto nos anos 80 do séc. XIX, tal como o vizinho Teatro Nacional, logo se tornou um locais favoritos de reunião de actores, músicos, artistas, intelectuais e estudantes. Por lá passaram Rainer Maria Rilke, Apollinaire, Franz Kafka e o seu amigo Max Brod, os músicos Smetana, Dvořak e outros. O absinto era uma das bebidas mais populares nos anos em torno da viragem de século e o seu consumo ficou imortalizado num quadro, “O Bebedor de Absinto”, de Viktor Oliva, que ainda hoje adorna uma parede do café (ver imagem acima ou aqui).

 

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No pós-segunda guerra, o poeta nobelizado Jaroslav Seifert (que escreveu um poema intitulado “Café Slavia”), os cineastas Miloš Forman, Ivan Passer e Jiří Menzel (“Combóios Rigorosamente Vigiados”) e o romancista Milan Kundera, que fazia do café o seu poiso obrigatório antes de se exilar em Paris. Sob o comunismo, o Slavia foi local de reunião de numerosos intelectuais dissidentes, como o filósofo Jan Patočka, os poetas Josef Hiršal, Jiří Kolář e o dramaturgo e futuro presidente Václav Havel, todos subscritores da célebre Charta 77.

 

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Em 1989, o Slavia foi um dos centros conspirativos da Revolução de Veludo que depôs o comunismo e instaurou a democracia na então Checoslováquia. Com a privatização, o café foi comprado por especuladores americanos de Boston e, pouco depois, fechado. O encerramento provocou grandes protestos, incluindo um sit-in em que participou o próprio presidente Havel. A venda aos americanos foi anulada e o café remodelado em 1996-1997, sendo-lhe devolvida a decoração art deco que teve a partir dos anos 30 (que não era a decoração Jugendstil de origem), com os seus renovados candeeiros, assentos de couro, cadeiras de cerejeira e mesas de pedra. Havel considerou em 1997 o renascimento do Slavia “uma pequena vitória sobre a estupidez”.

 

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Fotos: prague-stay.com

 

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Sunday, May 31, 2009

lxi - Drug cafés

Drogaria Café


O Bulldog Coffeeshop, o mais antigo ‘cannabis coffeeshop’
de Amesterdão, à beira do canal.  

A Holanda tem a legislação mais liberal da Europa relativamente
ao consumo de marijuana. Isso torna o país, situado no coração
da Europa mais desenvolvida, num destino privilegiado do
chamado
‘turismo da droga’. Os turistas em causa vêm de todo
lado, inclusive da América, mas a Bélgica, a Alemanha e a
França fornecem o grosso dos visitantes.
A droga vende-se em
cafés, ou lojas parecidas com cafés, chamadas “coffeeshops”.
O Bulldog Coffeeshop foi o primeiro a abrir, em 1975


Entrada e micro-esplanada do Bulldog Coffeeshop,
fundado em 1975.


Outra vista do mesmo

Em toda a Holanda contam-se cerca de 700 “coffeeshops”,
onde se pode consumir ou comprar até cinco gramas de
canabis. Amesterdão é a cidade mais famosa por estes
cafés ou pseudo-cafés, mas Maastricht, no Sul da
Holanda, tem a particularidade de ficar numa ponta do
território holandês encravada entre a Bélgica e a Alemanha,
a minutos das respectivas fronteiras. É como se Badajoz
ficasse no concelho de Loures e os lisboetas fossem
danadinhos por caramelos…


Os ’coffeeshops’ City Hall e Green House, em Amesterdão.

Segundo um funcionário municipal de Maastricht, cerca de quatro
milhões de estrangeiros visitam por ano a província holandesa de
Limburg com o fim de comprarem erva ou haxe nos coffeeshops.
Se é permitida a comparação, trata-se de um número idêntico
ao de peregrinos nacionais ou estrangeiros que anualmente
demandam o Santuário de Fátima. O objecto da devoção é que é 
um pouco diferente.


Os americanos não adoram ser fotografados nos coffeeshops de
Amesterdão.


O Coffeeshop flutuante Mississippi, em Maastrischt, também
conhecido por ‘Smoky Boat’


A coisa atingiu tais proporções, que o presidente do município
de Maastricht quer limitar a partir de 1 de Janeiro de 2010
o consumo a 3 gramas por pessoa/dia e transformar os 30
‘cafés canabis’ da cidade em clubes abertos só a membros,
para manter os estrangeiros à distância. Só com cartão do
clube é que os clientes vão poder comprar passa e será
obrigatório o pagamento com cartão bancário.

A legalidade da coisa foi logo posta em causa, sob pretexto
que se trata de uma medida discriminatória dos estrangeiros,
mas o Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias, a que
o governo holandês dirigiu uma consulta, só se deve pronunciar
lá para o fim de 2010. Não é só a justiça portuguesa que é lenta…


Em Roosendaal, o município quer fechar estes três cafés

Outros municípios holandeses estão a projectar o encerramento
de parte dos ‘cannabis coffeeshops’ que proliferaram nas últimas
décadas, como modo de combater o crime e evitar o turismo
indesejável. O problema é se os outros comerciantes vão gostar
de tais medidas. Estamos a falar de milhões de pessoas e de
muitas centenas de milhões de euros deixados na Holanda!

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Saturday, May 9, 2009

lx - A Brasileira em 1915


De pataco a meio tostão


A Brasileira em 1911, por Joshua Benoliel - Arq. Municipal de Lisboa

A 8 de Maio de 1915, o diário lisboeta O Jornal trazia na primeira
página uma notícia de sensação: o preço da chávena de café na
Brasileira - nome de dois cafés do mesmo dono, um no Chiado, outro
no Rossio - aumentara dez réis, passando de pataco (40 réis)
para meio tostão (50 réis). O aumento de 25% no preço da chávena
era denunciado em título, a brincar, como “O grande crime!”
Comparando, a bica servida à mesa da Brasileira custa hoje 1 euro,
ou seja, 200.000 réis, mas na esplanada vai para os 300.000 réis…

Diga-se que, em consequência da Guerra de 1914-1918, o preço do
café no mercado internacional tinha entrado em queda e o governo
brasileiro, dominado pelos grandes fazendeiros de café, ordenou a
queima de três milhões de sacas para defender o preço. Assim, a
subida da chávena de café na Brasileira, em Maio de 1915, não
reflectia o encarecimento da matéria prima, mas apenas o início da
alta geral dos preços devida à guerra.

A notícia a duas colunas de O Jornal era ilustrada por um desenho de
António Soares, então na sua fase paúlica (modernista), e por uma
invulgar fotografia, tirada do interior da Brasileira para a porta da rua,
com as silhuetas dos clientes em contra-luz. A Brasileira do Chiado,
fundada em 1905 por Adriano Teles (que aparece na notícia como
o “Teles”), tinha ainda a sua fachada original, anterior à remodelação de
1925, com uma vitrine de cada lado da porta, como na foto acima.
Numa das montras podia ver-se um grande moinho de café - que foi
pena ter desaparecido dali, pois seria agora uma bela peça decorativa.
Quando o café abriu ao público, Adriano Teles ofereceu a bebida
gratuitamente durante algum tempo, para atrair a clientela - facto a que
o jornal se refere também.

O artigo, que abaixo transcrevo integralmente, está escrito em tom
de chalaça, mas é uma rara fonte de informação sobre o Café
da Brasileira naquele período, especialmente sobre o microcosmos
social composto pela variada clientela. Faz um inventário das famílias
políticas dos habitués, dos talassas (monárquicos) aos avançados,
passando pelo errático Machado Santos - chefe do 5 de Outubro e
de várias outras revoluções, até que morreu numa feita por outros,
em 1921. Nos grupos profissionais enumera os médicos, os actores, 
os artistas, os jornalistas, os intelectuais, o pessoal da legação do
Brasil, etc. Nas escolas artísticas salienta os paúlicos (designação
dos modernistas, a partir do título de um famoso poema de Fernando
Pessoa, “Paúis”, publicado em 1914) e os futuristas. Inclui uma
série de ditos e de instantâneos de celebridades da época, algumas
das quais não resistiram ao tempo.

Nada entre as notícias de O Jornal daquele dia permite prever que
dali a menos de uma semana, a 14 de Maio de 1915, rebentaria uma
sangrenta revolução que derrubaria o governo de Pimenta de Castro.

Transcrevo o artigo com ortografia actualizada, com algumas precisões
[entre parênteses] e recolocando os parágrafos finais no lugar em que
logicamente deveriam estar. Algumas frases dúbias deixei-as tal qual.  

    O grande Crime!

    UM PATACO DE CAFÉ NA “BRASILEIRA”
    PASSA A CUSTAR MEIO TOSTÃO!

    Indignações, frases célebres, silêncios, protestos

    Abriu a meio da tarde, quando ontem o lisboeta vinha à rua tomar,
na piscina do Chiado, o seu banho diário de sol, uma notícia se ergueu,
de repente, que alvoroçou os corações, e irritou, no ânimo do
transeunte, uma dolorosa picada de emoção:
    - O café da Brasileira aumentou 10 réis em chávena! 
    A primeira impressão foi de espanto - e o espanto prende, gela,
imobiliza. Por um momento, o Chiado fica boquiaberto, não fala, é
mudo; não vê, é cego.
    Depois, subitamente, veio a revolta, veio a cólera, veio a indignação
- e aparecem os grandes gestos, as grandes dores, as grandes frases,
os grandes silêncios!
    Açodadamente, de todos os lados, os habitués da Brasileira
chegam, estacam, de cara ao balcão! Vêm de tropel, os olhos
coléricos, os lábios trémulos; alguns trazem ainda a gravata desatada;
o cabelo em desalinho…
    - Dize-me: é verdade?
    E os recém-chegados abanam pelos ombros os empregados que, lá
ao fundo, de dentro do balcão, com o caixeiro Viana, vêem com terror
a onda de revolta avançar, em torvelinho, num refluxo de maré cheia…
A notícia chegara-lhes a casa de manhã e, posta a correr mundo,
passou a todas as ruas, chegou a todos os lares, entrou pelas
redacções, pelos cafés, pelas secretarias…
    Há frases que ferem lume, mãos que se enclavinham. É o tumulto, é
a desordem.
    - Não pode ser! Não pode ser!
    A assembleia, de resto, é imponente. Está lá tudo quanto de bom,
na arte, no teatro, no jornalismo, tem o hábito de tomar café… Estão
António Costa, Feio Terenas, dr. Alfredo [da] Costa, Álvaro de
Almeida, Boavida Portugal, Stuart Torrie, Augusto Gil. Estão
Almeida e Sousa, Alfredo Soares, D. José Barahona, Jorge
Saavedra, Eduardo Segurado.
    Na mesa da porta, entestando à rua, o dr. António Aurélio [da
Costa Ferreira] discursa, debate, agita - preside! A sua voz soa,
formidável, como grito de reivindicação.
    Entretanto, sala fora, formam-se grupos célebres: o visconde de
Almeida Vasconcelos, Jorge Colaço, o padre Araújo, Manuel Santos.
É o grupo dos talassas. E Emílio Costa, António Albuquerque, etc.
É o grupo dos avançados.
    Há ainda os grupos por profissões: os médicos, os actores, os
artistas - Eduardo de Sousa, João Gonçalves, Moura Pinto; Chaby,
Mendonça de Carvalho, João Lopes, Araújo Pereira; Alberto de
Sousa, Jorge Barradas.
    E estes, ainda, por escolas: os paúlicos, como António Soares, e
os futuristas, como Santa Rita.
    Depois, pelas mesas fora, abancando sem distinção, Eduardo Graça,
Anahory, Mário Duarte, Alberto Bessa, Amélio de Barros, Juca de
Carvalho, o pessoal da legação do Brasil, José Pacheco, Machado
Santos - a fina flor do tom e da arte, do pensamento e do jornalismo
que todos os dias, desde o meio-dia à meia noite, ali abancam para a
libação e para a má língua, Para a palestra, para o vício, para o sonho…

                                            *
    
    - Meio tostão, por isto? - clama [alguém].
    E aponta, entre indignado e desdenhoso, a sua chávena.
    - Pois dize lá ao patrão, ouviste, que daqui em diante, com o meio
tostão do café, deixarei também - a camisa!
    A frase é de efeito: emociona, revolta, sacode. Lá do fundo, Pedro
Muralha, de braços no ar, clama:
    - Abaixo o capital!
    O tumulto cresce, ameaça degenerar em revolução…
    Há juras de ódio; o Chico Redondo chega, com os seus discípulos
dilectos, o António Caldeira e o Vitoriano Braga, dirige-se
impetuosamente ao balcão.
    Há um momento de ansiedade. Que irá fazer o ilustre cantor?
Cantar dois compassos de música - ou dar dois murros no caixeiro?
    Mas já a sua voz esplêndida, a sua voz de oiro soa pela sala:
    - Diga lá ao Teles, ó seu coiso, que a mim não prega ele partida
nenhuma: eu só bebo água!
    Aí pelas 3 horas, a Brasileira está à cunha. Aquela hora é para os
apreciadores de café - a hora da iniciação.
    Eduardo Peres, Estefanina, tenente Moniz Ribeiro, Pires Avelanoso,
Eduardo Graça chegam, abancam, batem palmas…
    - Olhem que o café aumentou de preço - gritam-lhes.
    - Hein?!
    E a vozearia aumenta, e há novos punhos no ar.
    Os criados vão e vêm, dão explicações.
    - De quem eu tenho pena - diz um deles, lamuriento - é do sr.
Arnaldo Pereira. Imaginem: toma vinte cafés por dia!
    O João Correia de Oliveira, quando lhe dão a má nova, meneia a
cabeça, diz, para o lado:
    - Começo a acreditar que há a guerra europeia…
    O Torres de Abreu é dos mais bulhentos.
    Em pé, clama, para a porta, para a rua, para a publicidade:
    - Aumentar o preço do pão, concebe-se, aumentar o preço do
veneno, nunca!
    Há palmas, apoiados.
    - É claro! Precisamos do envenenamento a preços baratos!
    Esculápio [Eduardo Fernandes] pede o seu café do costume, entra
já remexendo no bolso do colete o meio tostão da praxe.
    - Sr. Eduardo Fernandes, são mais dez reizinhos…
    - Como?! Então não quero o café!
    E, guardando o dinheiro, sai, alto, imponente, assombroso na sua
revolta!
    Vagamente começa a correr que o [deputado] Camilo Rodrigues
vai desafiar o Teles…
    O sr. [Mário] Sá Carneiro, em cabelo, as mãos à altura dos peitos,
anda pela sala, exclamando:
    - Eu zebro-me, eu upo-me, eu engenho-me! Isto é rodopiante de
roubo, zigzagueante de escândalo!
    O actor Chaby manda telegrama - e não aparece por estar fora
de Lisboa.
    - O caso é que isto não pode ser!
    Há os que se indignam, os que entristecem, os que ficam na
expectativa.
    Albertino da Silva, sorumbático, encolhe os ombros - e manda
manda vir segundo café.
    O sr. Brito Camacho, recebe serenamente a notícia e põe em cima
da mesa, como na forma do costume, três vinténs [60 réis].
    - Nunca dei menos - diz - mas também não dou mais. 
    Grita-se, aqui e ali:
    - Não se dá gorjeta! Não se dá gorjeta!
    A ideia parece excelente. E alguns vão pelas mesas, patentear a
abstenção de gorjeta - enquanto, às escondidas, metem na mão dos
criados o vintém habitual.
    Há, entanto, quem bote cálculos ao lucro que, no fim do ano,
representa para o proprietário aquele pequeno aumento de 10 réis
em cada chávena.
    - Cousa aí pra 9 contos, nas duas Brasileiras!
    Há ohs! de assombro, dúvidas, quando o sr. Ramiro Leão, risonho,
informa com autoridade:
    - Cada chávena de café, já com o respectivo açúcar, fica ao dono
da casa por 6 réis!
    - Imagine-se, hein?!

                                              *

    A tarde passou assim, sem lances. À noite, passámos pelo Chiado
e metemos o nariz na Brasileira. Esperávamos ver mesas partidas,
copos quebrados - e encontrámos, na acalmia do costume, os habitués
de sempre.
    - Mas então, a coisa ficou assim?!
    E dirijo-me ao criado, que, num sorriso de tranquilidade, senhor de
si, me diz:
    - Qual! Tudo como dantes! Vendeu-se o mesmo café e… nunca tive
tantas gorjetas!
    E num gesto que abrange toda a sala, repõe:
    - É que esta sociedade é da boa! É da fina! É… da liró!
    … E aí está como o sr. Teles, já contando com a passividade dos
homens de letras, dos artistas, dos poetas, dos actores que lhe
frequentam a casa, arranjou meio de lhes apanhar mais dez réis em
cada meio decilitro de um café, que principiou por nos dar de graça
e acaba a custar-nos os olhos da cara…
    Sr. Teles - bolas!

© José Barreto

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Saturday, May 2, 2009

lix - António Ferro e o Café Martinho

 
 
Café de perdição

 

Já aqui referi, a propósito de Fialho de Almeida,
do Café Martinho ou de Fernando Pessoa, como os
cafés eram alvo de opiniões depreciativas por parte
de quem não prezava a liberdade de expressão e de
reunião e de quem via neles antros de ociosidade,
decadência e intriga, quando não de conspiração
contra o poder. Também havia disso, é certo, entre
muitas outras coisas. A mais célebre conspiração
envolvendo um café foi o regicídio de 1908. Manuel
Buiça e Alfredo Costa partiram do Café Gelo para
matar o rei e o príncipe herdeiro. 


Café Martinho 1909-1910. Foto: Joshua Benoliel - Arq. Municipal de Lisboa

Os três polícias à porta do Martinho, na foto acima, não 
devem estar lá por acaso. Em 1907, o café fora apedrejado.
Nesse ano, durante a greve estudantil que fez tremer o
governo de João Franco, os cafés lisboetas e portuenses
foram centros de reunião e agitação. O jornalista Pinto
Quartin contou como o governo respondeu com medidas
proibitivas ridículas a essa efervescência de café:
 
E porque, suspenso o direito de reunião, os estudantes se
juntassem no Gelo e no Martinho, em Lisboa, e no Central
no Porto, foram dadas ordens aos proprietários dos cafés
para não consentirem que nos seus estabelecimentos se
falasse de política, nos assuntos académicos ou «em tudo
o que saísse do simples e usual exercício da sua indústria».

Pinto Quartin, “A Greve Académica de Coimbra em 1907“,
Ver e Crer, Lisboa, nº 45, 1949, p. 3-9.

O Martinho, a Brasileira e o Gelo eram temidos por todos
os governos. Havia quem os colocasse acima do
Parlamento em influência política. Já durante a República,
sob a ditadura de Pimenta de Castro (1915), um jornal
amigo do ditador chamou ao Café Martinho “foco de
infecção política”. 


Outra vista do Café Martinho por Benoliel - Arq. Municipal de Lisboa 

 

Interior do Café Martinho, por Benoliel, 1909-1910 - Arq. Municipal de Lisboa

Quero aqui evocar alguém que, tendo começado a sua
carreira de escritor à mesa dos cafés, acabou a
figurá-los como locais de perdição. Um jornalista que
escreveu as suas três primeiras crónicas à mesa do
Café Martinho, tendo como tema o próprio Café Martinho,
e acabou a dizer mal dele. Um escritor que começou por
protestar contra a censura e acabou a defendê-la e a
justificá-la. Alguém para quem, aos 60 anos de idade, os
cafés e a vida de café simbolizavam, nessa evolução
pessoal, o passado repudiado. O Café Martinho muito
especialmente. 

Trata-se deste rotundo senhor aqui  em baixo, António
Ferro de seu nome.


Ferro foi precursor das ideias autoritárias em Portugal,
admirador declarado do fascismo e de Mussolini e
responsável pela propaganda salazarista desde 1933

Antes de trair a sua missão de jornalista, defendendo
a censura, e de se tornar numa espécie de ministro
da Propaganda de Salazar, o “poeta” António Ferro
coçou muitos fundilhos de calças pelas cadeiras
dos cafés de Lisboa - mais do que pelos bancos da
universidade, pois nunca completou o curso de
Direito. O pseudo-modernista António Ferro, que
apenas tinha em comum com os verdadeiros
modernistas (Pessoa, Almada, Sá Carneiro e outros)
uma dose generosa de narcisismo e megalomania,
deixou-nos um naco de prosa autobiográfica
a estigmatizar a vida de café da sua juventude.

Os trechos abaixo transcritos da última obra que
Ferro publicou, D. Manuel II, o Desventurado (1954),
datam da fase final da sua vida (morreu em 1956),
quando por Berna e Roma cobrava os dividendos de
dezassete anos de bom e efectivo serviço à cultura
e a propaganda do salazarismo. Os trechos provêm 
do prefácio de 79 páginas que Ferro escreveu para
esse livro em que reune entrevistas de 1930-1932
com o rei exilado em Londres e com sua mãe,
D. Amélia de Orleães. O longo prefácio assume um 
tom memorialístico que o recomenda para quem se
interessa pela biografia de Ferro. Como sempre, o
autor aproveita a ocasião e o pretexto para falar
sobretudo de si próprio. O livro de poemas que
preparava quando morreu intitula-se, narcisicamente,
Saudades de mim (Bertrand, 1957), título copiado,
aliás, de um verso de Mário de Sá Carneiro de 1913.
 

Note-se o berrante “modernismo” da capa

O Café Martinho - que ficava no largo fronteiro à
estação do Rossio e por onde passaram, até ao seu
encerramento nos anos 60, gerações de intelectuais
e artistas, incluindo o grupo de poetas e artistas que
fizeram o Orpheu - ocupa um curioso lugar central,
física e simbolicamente, nesta evocação em que
António Ferro relata o seu percurso pessoal e na
qual justifica, pouco antes de morrer prematuramente, 
o repúdio dos ideais de liberdade e modernidade da
sua geração, se não os da sua própria juventude. 
O homem que Salazar supostamente “exilou” como
embaixador na República Italiana pós-fascismo fala
aqui do seu passado de jovem intelectual republicano e 
de poeta habitué do Café Martinho com um desdém que
causa arrepios. Eis: 

Se bem que já desperto, nessa altura [1930-1932], pela voz da
consciência nacional, republicano, sim, mas republicano português,
nacionalista, antidemagógico desde os meus vinte e dois anos [1917],
eu pertencia, no entanto, àquela geração de rapazes que fora educada
na atmosfera poeirenta dos comícios dos subúrbios, no culto dos
atrevidos propagandistas da sonhada república, que teve o seu
encanto, principalmente, nos “quatro mosqueteiros” que faziam de
S. Bento o campo das suas aventuras e das suas audácias, geração
que foi, sem dúvida, arrastada pelas acrobacias verbais dos nossos
Girondinos, arrastada, sobretudo, pela voz empolgante, musical,
desse bom mas excessivo António José de Almeida, verdadeiro
“canto de sereia” das multidões do tempo.

Alguns anos passaram em que pouco mais fiz do que arrastar a
minha indolência, o meu vistoso mas oco baudelairianismo pelas
mesas do Martinho, onde perorava, todas as tardes, rodeado pelos
meus companheiros de tertúlia, à volta de uma ritual chávena de café
com leite. Foi aquela época mole, dissolvente, mas talvez necessária,
dos estetas (1912-1918), da Arte pela Arte, a época do wildismo
desdenhoso, em que os trocadilhos apareciam mascarados de
paradoxos, consequência, sem dúvida, da nossa decadência política,
seu reflexo literário, mas também reacção contra certos excessos do
materialismo desenfreado dos partidos e clientelas, contra os abusos
da vida pela vida, ou antes da vida pela vidinha, se bem que não
tenha dúvidas sobre o idealismo e a honestidade pessoal da grande
maioria dos chefes políticos de então.

 Foi Sidónio Pais, a figura esbelta de Sidónio, o nosso primeiro
republicano sem barrete frígio, que me arrancou a este
adormecimento, a esta modorra. A primeira vez que o vi -
lembro-me bem! - encontrava-me precisamente no Martinho,
no quartel general da minha indolência. Sidónio regressava da
sua viagem triunfal ao Porto. Grande multidão o aguardava
diante da estação do Rossio e suas imediações. Como sempre,
diante do meu deslavado café com leite, insípida água benta dos
meus paradoxos e trocadilhos, falsamente irónico, indiferente,
julgava-me bastante céptico para me defender daquela onda de
entusiasmo que já transpusera as portas do Martinho, que
pretendia molhar-me. Vencido, primeiro, pela simples curiosidade,
acabei por subir ao primeiro andar e instalar-me na varanda do
Café apenas para ver, gozar o espectáculo. Mas quando Sidónio
Pais assomou à porta da estação, com o seu perfil já lendário,
com aquela máscara de traços finos mas nítidos onde se espelhava
a nossa própria vontade, rodeado pelos seus ajudantes, impecáveis
e juvenis nas suas fardas novas, algo de magnético se passou,
algo de misterioso aconteceu - asa de anjo que me sacudiu, de anjo
viril… - que me obrigou a subir para uma cadeira e a dar palmas, a
dar vivas, freneticamente, como todos os outros.

 [...] E foi então que senti, pela primeira vez, a beleza, o sentido
poético da palavra chefe, quando este não é um tirano; foi então
que percebi o erro, a doença da minha poesia ao compreender
definitivamente que as nações só se prestigiam através da
grandeza das suas figuras e nunca, nunca, através da pequenez dos
seus figurantes. A imagem de Sidónio Pais, “viva estátua equestre”, como alguém lhe chamou, ainda me deslumbrou, me fascinou em diversas paradas e desfiles onde o seu perfil magnetizava sempre as multidões. E a ele devo esta certeza que nunca mais me abandonou: a poesia das nações, a sua poesia heróica, não está nas alfurjas, nas associações secretas, ou até nos parlamentos, mas nos seus chefes ou nos seus reis, naqueles que podem ser derrubados, mortos, mas deixam as suas pátrias bem erguidas, mais altas, nos próprios pedestais donde foram apeados, violentamente, pelas paixões dos homens.
Sidónio, no entanto, podia ter sido a enganadora miragem, a vistosa alegoria, a apoteose sem fundo, a simples visão lírica do chefe. A minha partida para Angola, alguns meses depois da aparição de Sidónio, o meu encontro com Filomeno da Câmara, outro republicano português sem barrete frígio, que fora nomeado governador da nossa maior colónia, foi a prova dos nove, a realidade depois do possível sonho, a lição prática depois da teoria…

 

Filomeno da Câmara, comandante da Armada e
colaborador próximo de Sidónio Pais em 1917-1918,
foi um admirador de Mussolini e do fascismo. Seria um
dos chefes da intentona de 18 de Abril de 1925, 
sendo por isso considerado como um dos principais
precursores do 28 de Maio de 1926 e da ditadura que
se lhe seguiu.
 

 
Em 1927 foi um dos protagonistas do ridículo golpe
dos Fifis (dos nomes de Filomeno da Câmara
e Fidelino de Figueiredo), que pretendia empurrar a
Ditadura Militar ainda mais para a direita. António
Ferro chegou então a ser detido, por via da sua
ligação a Filomeno. Essa relação começara em 1918,
quando Filomeno foi enviado para Angola como
governador-geral. António Ferro, oficial às ordens
de Filomeno, seria a breve trecho escolhido pelo
governador para o cargo de secretário-geral interino
do governo da colónia. Foi, durante alguns meses, a
iniciação de Ferro como mordomo de um autocrata.

Respigo do livro citado mais estas passagens sobre
a experiência angolana de 1918, nas quais volta a
aparecer o Café Martinho
:
“Poucos meses durou a aventura” - escrevia, alguns anos depois, o
próprio Filomeno, no prefácio da minha Viagem à Volta das
Ditaduras
- “os bastantes, ainda assim, para cimentarem a nossa
amizade e para exercerem uma influência na carreira literária do moço
poeta que, até ali, não encontrara saída do labirinto das mesas do Café
Martinho, onde bebia, com um café detestável,  uma inspiração ainda
mais detestável. Um belo dia, em Luanda, surprendi-o com a nomeação
de secretário-geral interino do governo, cargo que o levou à intimidade
e colaboração diária do trabalho de orientar, organizar e fazer progredir
uma grande colónia muito desarrumada e anormalmente agitada por
interesses e paixões individuais que a situação política, ao tempo,
exarcebara. Início da carreira de um funcionário colonial? Nada disso:
início, apenas, do contacto com a vida, com a energia, com o
movimento. Secretário-geral de uma província ultramarina veio a
significar, neste caso, o aparecimento de um jornalista. A administração
é um dos grandes dramas, uma das grandes comédias da vida. Ao
perscrutá-la, António Ferro encontrou um vasto campo onde exercer
o seu entusiasmo e a sua ironia, a sua curiosidade de impressiondor de
filmes. Descoberto o caminho da sua vocação literária, António
Ferro começou a prodigalizar a sua verve em vários jornais. Dirigiu,
algum tempo, o [diário lisboeta] O Jornal, combateu pelo sidonismo,
sendo um dos precursores na defesa do princípio da autoridade.”

Cumpri, portanto, a ordem de Filomeno da Câmara e, durante sete
ou oito meses, exerci, não sei bem como, mas creio que sofrivelmente,
sujeito a todas as intrigas e rasteiras das curibecas de Angola, o
cargo dificílimo de secretário-geral da província. [...] E foi também aí,
durante a minha escola de África, que a palavra chefe começou a
perder a sua expressão individual, policial, tirânica, para ganhar,
pouco a pouco, a consistência de uma ideia.

 Grande e saudoso Amigo!… Foi ele quem me sacudiu, me rasgou os
olhos, me arrancou a mim próprio. Se o não tivesse conhecido, eu
continuaria, talvez - ai de mim! - sem encontrar saída no labirinto das
mesas do Café Martinho, “a beber, com um café detestável, uma
inspiração ainda mais detestável”. E quantos, quantos não se perdem,
quantos não ficaram lá, por não terem encontrado o seu Filomeno da
Câmara, o seu comandante…

 Excertos de António Ferro, D. Manuel II, o Desventurado, Livraria
Bertrand, 1954, p. 23-33.

 

De facto, quantos não ficaram por lá, pelo Café
Martinho ou pela Brasileira do Chiado! Quantos
não falharam o encontro com um Chefe, um
comandante, um tirano fardado de salvador.
Quantos não se “perderam”… Por exemplo, 
Fernando Pessoa. Dez vezes mais qualificado do
que António Ferro, mas sem um comandante para
lhe “rasgar os olhos”, lá continuou, até morrer, a
ganhar o seu pão traduzindo correspondência
comercial, não conseguindo abichar sequer um
modesto emprego na biblioteca municipal de
Cascais, a que concorreu em 1932, porque os
Antónios Ferros lho negaram.
 

 

Ao classificar as suas próprias obras de juventude
como “ingenuamente cépticas ou orgulhosamente
frívolas”, fruto de um “decadentismo vistoso,
aparatoso, para Martinho ver” (pp. 34-35 do mesmo
livro de 1954), Ferro visava também, forçosamente,
os seus antigos “colegas” do Orpheu. Não escrevera
ele já em 1918, visando claramente a Ode Triunfal de
Álvaro de Campos:

“E os que posam de futuristas, que cantam a força,
as máquinas, o Progresso, e andam para aí a
apodrecer pelas esquinas?!” (“População”, na coluna
“Cartas do Martinho”, O Século, 3 de Março de 1918).

Bem tentou o António Ferro director da Propaganda,
numa aplicação prática da sua ‘Política do Espírito’, 
recrutar para o Estado Novo esses “sonhadores
nostálgicos do abatimento e da decadência” (como
lhes chamou Salazar). Por isso premiou a Mensagem
de Pessoa, de quem quis fazer profeta e bardo do
Estado Novo. Mas a política da cenoura não
funcionou, nesse caso, e a “inspiração detestável”
do Café Martinho continuou, felizmente, a iluminar a
obra de Pessoa até ao fim.

E assim ficou Pessoa para a Arte e a História, 
palácios onde Ferro habita uma cave sombria,
rumo ao justo esquecimento.

© Texto de José Barreto

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 

 

 

 

 

 


Ilustração de Afonso Cruz para O Dia em que Mataram o Rei, Texto Editora.

Em Lisboa, a Brasileira do Chiado e os desaparecidos
cafés Gelo, Martinho, Brasileira do Rossio, Martinho da
Arcada (hoje restaurante), Chiado e Portugal foram alguns
desses antros de “crítica irresponsável” ao longo do
século XX, em particular sob o Estado Novo. Mas havia
muito quem visse neles redutos de convivialidade, tertúlia
cultural e debate livre - verdadeiras ilhas na tacanhez 
opressiva do panorama nacional. Grandes páginas de
literatura saíram das mesas de mármore desses cafés.
Muita boataria também. Até revoluções.

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Monday, April 6, 2009

lviii - Cristiano Cruz


Café modernista


Cristiano Cruz - Senhoras à mesa do café, 1919. Pintura a óleo sobre
cartão, Centro de Arte Moderna, FCG.


Cristiano Cruz (1892-1951) foi um artista autodidata,
iniciado na caricatura, de onde passou para uma pintura
de traço expressionista, que comparam hoje à dos seus
contemporâneos Egon Schiele e Kokoschka. Enquanto
se formava em Veterinária, publicou dezenas de
desenhos e participou nos Salões dos Humoristas,
ao lado de Almada Negreiros, Stuart e Jorge Barradas.
Declarou guerra à “bota-de-elástico” (expressão
cunhada por ele, referindo-se ao academismo), antes
de partir para França para a guerra verdadeira. São
conhecidos os seus desenhos de cenas da guerra,
publicados em 1989 pela Quetzal.

O meio socio-cultural português desgostava-o e não
o motivava a continuar a carreira artística. Depois da
Grande Guerra acabou por desistir de pintar, para se
dedicar à sua profissão de veterinário em Moçambique.
Na obra acima, uma das últimas que pintou, há quem
queira ver uma pistola na mão de senhora mundana da
direita, “tornando-a cúmplice de crimes premeditados,
que se festejam com sorrisos maliciosos”. Mas não
estará a dama simplesmente a chamar o criado?


Posted by J.B. in 18:18:33 | Permalink | No Comments »

lvii - Tehran


Os cafés de Teerão


Bairro rico de Teerão
 
A capital do Irão, uma das grandes metrópoles da Ásia,
tinha em 1900 uma população inferior à de Lis
boa. Cem
anos depois, o petróleo fez de Teerão uma cidade quinze
vezes mais populosa do que a capital portuguesa.

Depois da Revolução Islâmica de 1979, que colocou as
barbas brancas dos ayatollahs no poder, os antigos cafés
de tipo europeu de Teerão quase que desapareceram
da paisagem social urbana. A convivialidade refugiou-se
nas casas das pessoas, onde, ao abrigo das ditas barbas
brancas, se pode falar livremente, usar qualquer roupa,
mostrar os cabelos e até beber álcool de contrabando.
Como todos os outros regimes totalitários, religiosos ou
não, a teocracia iraniana também não tolerava os cafés
frequentados por intelectuais e artistas que gostam de
discutir política ou falar livremente. Apenas os cafés
populares se foram mantendo, espécies de tascas sem
álcool (à vista) onde se fuma narguilé e se bebe chá ou
café turco.


Café popular de Teerão.


Café popular de Teerão. Fotos: quixotic, flickr.


Na última década e meia, porém, recomeçaram a aparecer os
cafés ocidentais, sobretudo nos centros comerciais da
parte Norte de Teerão, a zona mais “afluente” e liberal da
cidade, semeada de torres de luxo. Nos últimos andares
destas torres há belos cafés ocidentalizados onde as famílias
“afluentes” vão beber o seu chocolate e os jovens iranianos
ricos podem ir namorar, fingindo fazer braço de ferro.


Café no topo da Torre Branca. Foto Fredrik Härenstam


Namoro em café de Teerão


Os cybercafés também fizeram a sua aparição, mas a net é
estritamente vigiada pelas barbas brancas dos mullahs.

Os novos cafés apareceram sobretudo em centros
comerciais. O Café Shouka (abaixo), situado num centro
comercial, é frequentado por artistas, intelectuais e
mulheres da classe média e alta.


Café Shouka. Foto: Bobby Model, National Geographic. 


Um café chic frequentado por mulheres. O hajib é obrigatório,
fumar é livre.


Os iranianos são fanáticos de literatura. Teerão tem
inúmeras livrarias e, geralmente, não estão às moscas.
A recente moda dos cafés-livrarias (ver foto abaixo)
estava a pegar muito bem entre a malta nova, que é a
maioria dos 12 milhões de habitantes de Teerão,
quando
os ayatollahs se lembraram que a coisa era perigosa
para os bons
costumes islâmicos. Em 2007 fizeram-se leis
para impedir que as livrarias pudessem
explorar cafetarias,
tratando-se, como é óbvio, de actividades total
mente
inconciliáveis. Misturar chá ou café com Tolstoi ou Orhan
Pamuk é
mesmo
explosivo, parece. Sobretudo se os jovens
aproveitarem a mesa do
café para falar de algo mais do que
de literatura. Por exemplo, para troçarem daqueles barbudos
que se acham com o direito de meter o nariz na vida de
cada um. As jovens em baixo parecem preferir os cabelos
compridos dos actores americanos às barbas dos
ayatollahs.


Brasas num café-livraria de Teerão (2007), fechado desde então..
Foto: Guardian Books Blog.

Na foto seguinte, temos uma ampla vista de um café
tradicional do Sul de Teerão. Nos estrados laterais, sobre
tapetes e almofadas, toma-se chá, café turco e fuma-se
narguilé. As mesas ao centro são mais destinadas a comer.
Repare-se na lareira de mármore, à esquerda. Os invernos
de Teerão, situada a mais de 1200 metros de altitude, são
muito rigorosos, e a cidade fica coberta de neve. 


Grupo no café tradicional Sangladj, em Fisherabad, Teerão.
Foto: Hamed Saber, flickr.


Café histórico

Um café de estilo europeu, o mais antigo de Teerão, é o
Café Naderi, aberto em 1927. Fica bem no centro da
cidade, por baixo do hotel do mesmo nome. Toma o
seu nome do Xá Nader, imperador contemporâneo de
Luís XV e de D. João V, grande chefe militar e imperador
da Pérsia, país que reunificou depois de expulsar os
invasores afegãos e russos.


Café Naderi. Na parede ao fundo, retratos dos ayatollahs Khomeiny
e Ali Khamenei sobre uma máquina de café La Cimbali.


O velho Café Nader é frequentado por variada clientela:
estudantes, artistas, intelectuais, velhos professores
universitários
com reumatismo e gente talvez saudosa do
regime do Xá Reza Pahlevi, deposto em 1979. É local
histórico, sala de leitura de jornais, atelier de literatura
e laboratório de opinião e conspiratas, como todos os
cafés importantes do mundo. Frequentaram-no, por
exemplo,
os partidários do partido Tudeh (comunistas),
antes de serem presos ou mortos. Os criados são velhos,
tratam muitos dos clientes pelo nome e as mulheres por
“minha filha”. 
Na parede, a assinalar quem hoje manda no
país, retratos dos mais famosos ayatollahs, alvos da
indiferença da clientela.
A mobília é antiquada e a decoração
é rascosa. Parece que o Café Naderi tem os dias contados:
há planos para deitar tudo abaixo e fazer mais um daqueles
hotéis modernos e incaracterísticos de vinte andares. Não

parece haver em Teerão quem defenda esta relíquia.



À esquerda vêem-se as portas que dão sobre o antigo jardim do café,
hoje meio abandonado. Foto: basheem, flickr.

A fachada numa foto dos anos 40:

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Wednesday, February 11, 2009

lvi - Caffè Greco


Antico Caffè Greco, Roma


Antico Caffè Greco, Via Condotti, 86, Roma, a dois passos da
Escadaria Espanhola e da Fontana della Barcaccia.

«Dentro Roma c’è un caffè…

Un caffè tutto speciale.

Non lo fo per dirne male;

dico solo… quel che è.

Qui ci trovi americani,

gran milordi, signoroni,

grandi artisti, artisti cani.» *


Mesa do Caffè Greco


Sala Omnibus do Caffè Greco, Roma. DK images

Segundo uma inscrição que se lê na sua entrada, o
Antico Caffè Greco teria sido fundado em 1760, o que
faz dele o segundo café mais antigo de Itália, a seguir ao
Florian de Veneza. Mas alguns historiadores pagos
pela casa insinuam que o Greco (Grego) é mais antigo.
Por lá teria andado Giacomo Casanova já em 1744, 
quando estava ao serviço do cardeal Acquaviva (e da
sobrinha dele, dizem). O português Abade Gama,
diplomata que trabalhava em Roma para o embaixador
espanhol, foi quem levou Casanova, então com dezoito
anos, ao café da Via Condotti e aí o apresentou a uma
súcia de padres maledicentes e debochados. É o
próprio Casanova quem o conta nas suas Memórias,
embora não dê nome ao café e o nome da rua seja só
parecido - Strada Condotta.
Casanova 

O tal Abade Gama era um exímio traficante de
influências, alcoviteiro e libertino. Fazendo-se amigo
do verde Casanovinho, ensinou-lhe várias malandrices.
O mais famoso libertino do século XVIII aprendeu
bastante com esses padres de Roma no Caffè Greco!
Como é sabido, Casanova desistiu cedo da vida
eclesiástica a favor da ‘carreira’ de aventureiro. Mais
tarde, no final dos anos 1760, o Abade Gama, já a
trabalhar para o embaixador português em Roma,
Francisco de Almada e Mendonça, chegou a
prometer a Casanova emprego e fortuna em Lisboa 
se aceitasse trabalhar para o Marquês de Pombal.
Casanova ficou interessado, mas a sua vida acidentada
(foi por essa altura expulso de Florença) não lho
permitiu.

Em baixo, o interior do Café Grego numa bela
aguarela de 1856, obra de um pintor austríaco de
nome meio alemão, meio italiano, Ludwig Passini.


Ludwig Pasini, Das Caffè Greco in Rom, 1856, Hamburger Kunsthalle

Hector Berlioz tinha passado pelo Caffè Greco em
1832, vinte e poucos anos antes da aguarela acima. Era
ali que o músico francês se encontrava com os artistas
italianos e estrangeiros que visitavam ou residiam em
Roma. Deixou nas suas memórias uma descrição
arrasadora do café: «
C’est bien la plus détestable
taverne qu’on puisse trouver : sale, obscure et
humide, rien ne peut justifier la préférence que lui
accordent les artistes de toutes les nations fixés à
Rome. (…) On y tue le temps à fumer d’exécrables
cigares, en buvant du café qui n’est guère meilleur,
qu’on vous sert, non point sur des tables de marbre
comme partout ailleurs, mais sur de petits guéridons
de bois, larges comme la calotte d’un chapeau, et
noirs et gluants comme les murs de cet aimable lieu.
Le Café Greco, cependant, est tellement fréquenté
par les artistes étrangers, que la plupart s’y font
adresser leurs lettres, et que les nouveaux débarqués
n’ont rien de mieux à faire que de s’y rendre pour
trouver des compatriotes. »


“Sujo, escuro e húmido”, assim desdenhava do Greco
o janota parisiense. Mas talvez nenhum outro café do
mundo tenha tido tantos visitantes ilustres como esse
ao longo dos séculos.


Berlioz                                 Liszt  

Não vos vou maçar com a lista interminável dos artistas
e celebridades mundiais que frequentaram o café. Digo
só alguns nomes: Goethe, Byron, Shelley, Keats,
Stendhal, Baudelaire, Berlioz, Wagner, Schopenhauer,
Hans Christian Andersen (que viveu no andar superior
do prédio), Franz Liszt, Bizet, Gounod, Chateaubriand,
Ingres, Gioacchino Pecci (o futuro papa
Leão XIII,
que ali conheceu Liszt), Nicolau Gogol (que ali
escreveu Almas Mortas), Mendelssohn, Charles
Dickens, Mark Twain, H. G. Wells, Rossini (que ali
compunha a sua música), Mickiewicz, Giorgio De
Chirico, Leopardi, D’Annunzio, Benedetto Croce e
os mais que direi abaixo.


Gogol                                      Schopenhauer       
         
A Sala Omnibus, que já mostrei acima, é a menor das
quatro salas do Greco. Chamam-lhe assim pela sua
configuração a lembrar um autocarro, dois metros
de largo por oito de comprido.

Na foto abaixo, com o espelho do fundo tapado por
um pano, estão na Sala Omnibus uma dúzia ou mais
de artistas e ecritores. Entre eles, Orson Welles
(quarto a contar da direita) e Carlo Levi (quarto a
contar da esquerda, sentado). O jeitoso de bigode
sentado ao meio é um artista muito livre chamado,
por isso, Libero de Libero.


Caffè Greco, 1948. Sala Omnibus. 

Na Sala Roma há pinturas sobre a cidade. Uma foi
roubada há tempos, numa passagem de ano. O chão
de todo o café é muito bonito.


Caffè Greco. Sala Roma. Foto flickr.

Ângulo levemente diferente, a cores.


Foto scalleja, flickr.

Outra saleta. Quando o criado vinha com o café,
parou, posou, foto! 

Esta é a Sala Rossa, a mais espaçosa e luxuosa.

Em baixo, uma pintura do café da autoria de Renato
Guttuso, pintor nascido na Sicília, partigiano nos
anos da guerra e senador comunista a partir de 1976.
O quadro representa alguns dos clientes mais
célebres do Greco, incluindo Giorgio De Chirico, ao
qual este quadro presta especial homenagem, e Buffalo
Bill (sim, leram bem, o próprio William Cody também
passou por lá, em 1890, quando levou a Roma o seu
inacreditável Wild West Show). De Chirico é aquele
velhote sentado à esquerda. Lá estão também André
Gide (o careca sentado na mesa do meio), o escritor
Appolinaire e, na parede, uma estatueta de Picasso.
A figura de óculos escuros é Appolinaire, uma
“citação” de um quadro de De Chirico, “A Nostalgia
do Poeta”, de 1914, do mesmo ano de outro
parecido, o “Retrato Premonitório de Guillaume
Appolinaire”. Quem reconhecem mais na pintura?
Aquela mulher à esquerda, ao pé da janela, não é a
Anna Magnani?


Renato Guttuso, Caffè Greco, 1976. Acrílico sobre cartão,
186×243 cm. Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid.

Em baixo, temos a obra final, óleo sobre tela, cujo
estudo tinha sido o acrílico acima. Vamos achar as
diferenças? Buffalo Bill está agora no canto inferior
direito, as lésbicas já se beijam descaradamente, a
estatueta de Picasso está diferente, por baixo dela
aparece Sophia Loren a fumar, o turista japonês
está sozinho, há quem leia jornal, não há Coca-Cola
na mesa e a Magnani (?) apanhou o cabelo ou foi
trocada por outra. No canto superior esquerdo
aparece um torso masculino, parece o Torso di
Belvedere, mas pintado de memória. Aquele homem
meio tapado atrás de De Chirico é o próprio autor
do quadro, Renato Guttuso, creio eu. As pinturas de
monumentos de Roma desapareceram das paredes,
trocadas por paisagens. Mais detalhes? Procurem.


Renato Guttuso, Caffè Greco, 1976. Óleo sobre tela.
282×333 cm. Colónia, Museu Ludwig.


De Chirico, Portrait prémonitoire de Guillaume Apollinaire,
1914.Centre Pompidou, Paris.


De Chirico, A Nostalgia do Poeta, 1914.
Peggy Guggenheim Collection, Veneza.


Um recanto bonito do Caffè Greco. Esta era uma das
mesas de De Chirico.


Caffè Greco. Foto Lluis de Zamora, flickr.

E uma cara portuguesa, com certeza:


José Saramago no Caffè Greco. Foto: cultphoto, flickr.

* Tradução livre:

Há em Roma um café…
Um café bem especial.
Dele não vou dizer mal;
descrevo-o… tal qual é.
Visitam-no americanas,
milordes, grandes senhores,
artistas grandes e sacanas.

Posted by J.B. in 01:43:04 | Permalink | Comments (7)

Wednesday, January 28, 2009

lv - Cairo


Café El Fishawy, Cairo

É o café mais famoso da metrópolis que se gaba de ter
mais de 30.000 cafés. Fica no bazar Khan al-Khalili,
na zona mais antiga do Cairo. Reconhecível pelo seu
interior e esplanada cheios de espelhos, é  também
recomendável pelo horário de abertura de 24/24 horas,
sem férias, há mais de 200 anos, diz-se.


Photo by madgrin, flickr


El café de los espejos, by fotografoloco, flickr

Há 240 anos, um homem chamado el-Fishawy (nothing
to do with fish) terá começado a servir café aos seus
amigos e convidados todas as noites, depois das orações
(sobre as implicações religiosas do consumo do café no
Egipto e Médio Oriente antigos, ver o post sobre
Antoine Galland). Assim nasceu Qahwah el-Fishawy, o
café do Fishawy, como já adivinharam. Depois foi
acrescentado ao menu da casa o infalível chá de menta,
bem como o inevitável narguilé, ou cachimbo de água, 
localmente conhecido por shisha.

Como todos os cafés famosos do mundo, também
este conta entre os seus clientes passados ou
presentes escritores, artistas e outras celebridades.
O freguês mais conhecido do El Fishawy é, de longe,
o escritor Naguib Mahfouz (1911-2006), o primeiro
e até agora único prémio Nobel da literatura (1988)
de língua árabe, que tinha neste café o seu poiso
favorito.

 Mahfouz

Um dos seus romances passa-se nas ruelas deste
bazar. Escritor “blasfemo” da estirpe de Salman
Rushdie, mas visado pelos fundamentalistas muito
antes dele, Naguib Mahfouz foi esfaqueado na rua,
aos 83 anos, por um fanático que cumpria uma
fatwa, ordem de um chefe religioso para o assassinar. 
O tal “religioso” terá sido Omar Abdel-Rahman, o
egípcio cego amigo de Bin Laden e inspirador de
várias carnificinas, que foi preso nos Estados
Unidos a seguir ao primeiro atentado contra
as Torres Gémeas (1993) e que, merecidamente, lá
continua atrás das grades. Claro que nega todas as
acusações de que é alvo.

Apesar do corte no pescoço, que o deixou às portas
da morte, Mahfouz viveu até aos 94 anos. Nunca
mais pôde escrever, porque o braço direito ficou
paralizado. Os seus últimos livros tiveram que
ser ditados. Metade da obra de Mahfouz está proibida
nos países de religião islâmica. O romance Awlâd
hâratinâ
(
Os filhos do nosso bairro), de 1959,
não traduzido para português, foi o que lhe valeu a
condenação por parte dos ulemas, porque punha
em jogo personagens egípcios reais, gente comum,
mas representando alegoricamente Deus, Maomé, 
Moisés, Jesus, Caim e Abel. Claro que não foi só
isso que esteve na origem da fatwa: Mahfouz tinha
entretanto chamado ‘terrorista’ ao Ayatollah
Khomeiny e defendido Salman Rushdie contra os
fanáticos que, segundo ele, desprestigiavam o
Islão. Daí que a ordem para matar tenha servido
várias entidades e múltiplos propósitos.

Que ele era muito corajoso, até demasiado, disso
não restam dúvidas. Aqui o vemos em baixo, no seu
passeio diário a pé, sozinho, tal como quando foi
atacado, seis anos depois, por um jagunço religioso.


Mahfouz nobelizado, Cairo, 1988,
Foto Aladin - Reuters


Clientes do café, by dwightfriesen, flickr. 


El Fishawy, foto panorâmica by Mark (LP), flickr

Uma das características dos cafés do Cairo, é que
geralmente não têm portas nem janelas ou, se têm, não
são precisas para nada. O café continua na rua e esta,
com o seu bulício, entra pelo café dentro. Não há
fronteira precisa entre a rua e o café. Se estiverem
calmamente sentados numa mesa de fora e levarem um
encontrão dum transeunte, não se espantem, é normal.
Se levarem uma facada é que já não é muito normal.


El Fishawy. Photo by Zbigniew Kosc (vejam o site dele!) 

Um café modesto do Cairo apenas precisa de algumas
cadeiras, narguilés e um sítio para pousar o copo de…
chá. Veja-se abaixo este ‘café de rua’ cairense, em foto
do mesmo Zbigniew Kosc, fotógrafo polaco-holandês
com atracção pelo Egipto e Médio Oriente. Tem um
bom site com centenas de fotos.   


A street coffeeshop, Cairo, by Zbigniew Kosc

Em baixo, outro café popular do Cairo, Midan
Tahrir, pelo mesmo fotógrafo.


Café Midan Tahrir, by Zbigniew  Kosc

O café El Fishawy tornou-se visita obrigatória dos
turistas, com prioridade até sobre uma ida às
pirâmides, já demasiado vistas. Apesar disso, mantém
um ambiente tradicional e uma freguesia local
que lhe dá todo o carácter. Também se vêem por lá
mulheres, inclusive egípcias, como na imagem abaixo,
a falar no telemóvel.


El-Fishawy Cafe by iDip, flickr 

Ou estas aqui em baixo, a fumar shisha de sabor a
maçã ou alperce.


Photo: ToyBaroness, flickr

Belas mulheres, sempre bem guardadas por mânfios
de barba rija.


Photo: ToyBaroness, flickr

Misteriosas.

Como devem ter reparado, as mesinhas dos cafés
do Cairo em geral são mínimas, apenas permitem
pousar nelas a bandeja com as bebidas. Não se
escreve nos cafés, em geral. Os cafés são para
conversar ou fumar.


Café turco e chá de menta

Curiosamente, as cadeiras do café (ver baixo) são de
tipo vienense, certamente de fabrico local. Todos os
cafés do Cairo as têm, mesmo os mais modestos. Na
foto seguinte, repare-se nos majestosos espelhos
emoldurados em talha de madeira, bem como nas
portas de gelosia e nos candeeiros e candelabros de
latão. Ventoínhas asseguram a saída do fumo do café
para a rua. É o ar condicionado do bazar.


Café El Fishawy. Photo by anktonio, flickr

E para fechar o El Fishawy, que nunca fecha, uma foto
piramidal, já que estamos perto das ditas.


Turkish coffee and mint tea, El Fishawy. Photo: **Elle**, flickr

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Friday, January 23, 2009

liv - Edward Hopper


Cafés do Realismo Americano


Detalhe de uma pintura que se tornou ícone de uma
época. Foi pintada nas semanas que se seguiram
a Pearl Harbor. Quem diria?


Outro detalhe
.

É a mais célebre obra de Edward Hopper, Nighthawks. 
O pintor tinha então exactamente 60 anos e ainda mais
25 para viver. O tema seria a solidão dos predadores da
noite nova-iorquina, dizem os interpretadores. A tradução
portuguesa correcta é “Noctívagos”. Em inglês poderia
ser também night birds ou night owls. Mas Hopper quis
chamar-lhes assim: nem pássaros nem corujas, mas
águias. É diferente.
 



Edward Hopper, Nighthawks, 1942. Art Institute of Chicago. 

É uma das imagens mais conhecidas da arte americana
do século XX. Muito se escreveu já sobre ela, bem ou
mal. Há uma data de aspectos sobre que se pode falar,
de facto. Os mais terra a terra destacam, por exemplo, a 
iluminção fluorescente, que começou a ser utilizada
precisamente naqueles primeiros anos da década de 40. 
O quadro marcaria a chegada do fluorescente à pintura
de cenas nocturnas. Tudo bem, mas é pouco. Nem
sequer há a certeza de que fosse luz fluorescente…
 


Ficar a Pé até Muito Tarde, de Gordon Theisen
 

Um tipo chamado Gordon Theisen produziu em 2006 a
obra acima, um livro de 256 págs. a propósito desta
pintura, Staying Up Much Too Late: Edward Hopper’s
Nighthawks and the Dark Side of the American Psyche.

É um trampolim para o autor falar de mil outras coisas,
por vezes interessantes e inteligentes, por vezes idiotas,
como a presidência de George W. Bush, o qual ainda
não tinha nascido quando o quadro foi pintado. Theisen
chega a imaginar uma cena de group sex entre os quatro
personagens da cena de café. Cabotinice! Mas o livro
tem êxito, por isso deve ter algum mérito.

É costume apontar no quadro a ausência de porta no
café ou diner (portuguesmente diríamos snack-bar),
pormenor que aumentaria a sugestão de redoma
produzida pela imensa vitrine e reforçaria a sensação de
incomunicabilidade. Há quem sustente que o barman
está fechado no balcão triangular e que isso teria um
significado qualquer. O pintor negou que tivesse tido 
essa ou outras intenções similares. Há sempre quem
queira ver mais do que aquilo que o artista realmente
põe numa obra de arte. Isso é legítimo, defendem
alguns. As obras de arte tornam-se um património
colectivo. E o que muitos vêem nelas, é porque está lá.
O pior é que muitos outros vêem outra coisa ou o
contrário… Ajudaria talvez saber o que o artista quis
dizer ou provocar com esta imagem. Mas Hopper
era muito lacónico. E quereria ele “dizer” alguma coisa
para além do que lá está?

Muitos discorrem, a propósito de Nighthawks como
do resto da obra de Hopper, sobre a solidão. A solidão
solitária e a solidão acompanhada. É uma leitura facial
e algo rasteira. Onde está uma pessoa só, haveria solidão,
concluem. Vista do remanso do lar, a noite é para os
solitários. Será mesmo assim? E não há solidão em casa?

Responde a isso o mesmo Hopper, com uma pintura de
dez anos antes, que me parece um bom contraponto a
Nighthawks. O detalhe essencial neste quadro, para
mim, é a posição da mulher em relação ao piano, em que
experimenta tirar umas notas só com um dedo. Não há
em Nighthawks uma tão forte sugestão de solidão como
aqui. Lar, doce lar…


Edward Hopper, Room in New York, 1932

A recusa de narrativa é uma marca distintiva de
Hopper, que prefere criar ambientes e suscitar enredos
possíveis na cabeça de quem contempla. A ausência
de narrativa explícita cria um ambiente de mistério
que fascina o observador e pode deliciar o artista,
encantado com o poder que a obra conquista por si
só. Hopper cria ambientes, mas rejeita o drama. Nada
acontece em Nighthawks ou em qualquer outro quadro
dele, nem se prevê que venha a acontecer. “What could
be happening? Nothing. Isn’t that enough?” - perguntou
alguém a propósito das pinturas de Hopper. Bom, de 
facto, não chega. O mistério é que é suficiente, mas
para haver mistério, é preciso criá-lo. Hopper criava-o
com sugestões minimalistas.
 
A famosa Irmã Wendy, narradora de várias séries
televisivas e autora de uma dúzia de excelentes livros
sobre arte, preferiu chamar a atenção, em Nighthawks
para o facto de o modelo de ambos os clientes
masculinos do café ter sido o próprio Hopper e de
o modelo da cliente feminina ter sido a sua mulher, Jo,
com quem o pintor teria uma relação difícil. Jo (de
Josephine) gostaria muito mais de Hopper do que ele
dela, assegura Sister Wendy, a qual, para meu espanto,
leu o diário de Jo, no qual se baseia. Não sei como é
que uma freira reclusa e contemplativa, mesmo
chamando-se Wendy Beckett, sabe tanto (e quis saber
tanto!) sobre artistas, ligações difíceis e noctívagos.
Há curiosidades e afinidades surpreendentes, good
Lord!

A última vez que lá passei, o café estava fechado…

Estou a brincar. Aquilo já foi demolido, claro. O
metro quadrado em Greenwich Avenue está caro.
Os pastiches, citações, paródias e homenagens a
Nighthawks contam-se por centenas.

Passemos adiante. Mais cafés, mais solidão. Repare-se
no título do quadro abaixo: Automat. Não se refere a
nenhum autómato, mas ao local, ao café, certamente
da cadeia Horn & Hardart, equipado com máquinas
distribuidoras de comidas e bebidas que funcionavam
com moedas. A primeira cadeia de cafés “automáticos”
chegou a Nova Iorque em 1912. Foram um sucesso,
porque serviam comida pronta, fresca e apetitosa. Café
com mais de 20 minutos era deitado fora e feito novo.
O moderno fast food (McDonald’s, Burger King, etc)
ganhou a corrida e os Automats desapareceram. São hoje
apenas máquinas de parede em pequenos espaços sem
cadeiras, onde se bebe qualquer coisa de pé e à pressa e
se foge.  


Edward Hopper, Automat, 1927.

O título do quadro serve a Hopper de muleta,
pois aqui só o reflexo da luzes do tecto pode sugerir que
se trata de um Automat. O carácter impessoal do
Automat reforçaria a sensação de solidão. Mas quem nos
diz a nós que a garota não está à espera do namorado?
“Meet me at the Automat”… Lá se vai a teoria da solidão!

Outra visão de um Automat:


Diane Arbus, Two Ladies at the Automat, 1965

Da pintura seguinte Hopper gostava em especial. O
tema seria a incomunicabilidade. Terá mesmo sido?
O título limita-se a destacar um aspecto da imagem,
ignorando o possível drama: “Sol num café”. Hopper
disse uma vez que, como artista, a sua única
aspiração era a de pintar o lado ensolarado de uma
casa. Acredite quem quiser.



Edward Hopper, Sunlight in a cafeteria, 1958.


Uma casa de chá chinesa. Hopper baniu aqui a solidão,
mas não o mistério. Que dirão os interpretadores?


Edward Hopper, Chop Suey, 1929.


©
 Texto de José Barreto

Posted by J.B. in 23:13:01 | Permalink | No Comments »