Tuesday, June 13, 2006

iii - Fernando Pessoa

Pessoa, os cafés e as tabernas de Lisboa

Várias fotografias, pinturas e esculturas imortalizam o Fernando Pessoa frequentador de cafés, seu poiso diário, onde meditava, escrevia e convivia. Os cafés aonde ia eram os mais conhecidos de Lisboa: as duas Brasileiras, a do Chiado e a do Rossio; o Martinho da Arcada, no Terreiro do Paço; o Café Chave d’Ouro e a Leitaria Luso, no Rossio; o Café Martinho, ao lado do Teatro D. Maria; o Café Montanha, na Rua da Assunção; provavelmente, também o Café Chiado, o Nicola, o Gelo e outros. Todos situados, naturalmente, na Baixa e Chiado, o pequeno mundo onde Pessoa se movia e trabalhava.

Pessoa no seu pequeno mundo da Baixa e Chiado

De todos estes lugares, desocupados entretanto, na sua maioria, pelos ff da finança, da fancaria e do fast food , apenas a Brasileira do Chiado mantém ainda um arzinho ténue, quase inexistente, de café literário ou café de tertúlias. Num dia normal, em qualquer época do ano, pelo menos metade dos clientes da Brasileira são estrangeiros armados de guias em todas as línguas, embora o serviço seja rasca, o asseio escasseie e o barulho da louça e dos moinhos de café dê cabo da cabeça.

É hoje evidente que, das muitas maneiras de non fare niente, a vida de café era (ainda é) uma das mais produtivas. Mais profícua do que muitas formas oficiais de laborare, embora sempre olhada como ociosidade potencialmente subversiva. Desde que os cafés chegaram à Europa no século XVII, pela porta da Turquia, que as autoridades opressoras os têm debaixo de olho. O puritanismo, religioso ou laico, também sempre estigmatizou os cafés como locais de indolência, maledicência e perdição, em oposição ao trabalho, à família e à igreja. “Intriga de café”, “conversa de café”, “literatos de café”, “políticos de café”, etc., são expressões curiosamente depreciativas acerca de um lugar onde, há séculos, se constrói laboriosamente a literatura, se afina a crítica e se debate a política nacional.

A mesa do café foi durante séculos um lugar de liberdade malquisto dos defensores da ordem estabelecida. A crítica “fácil” e “irresponsável” da governação era (e ainda é) tradicionalmente conotada pelos governantes com os cafés e outros antros de ociosidade. A ditadura que vigorou em Portugal durante 48 anos do século XX tomou a mesa do café como símbolo da oposição. Em 1928, o ministro da Agricultura da Ditadura Militar, Nunes Mexia, mostrava deste modo desagrado pelas opiniões que lhe eram desfavoráveis: “É muito fácil ser ministro da Agricultura sentado à mesa do Café Martinho“. Anos depois, em Outubro de 1933, Salazar anunciava ao Diário de Notícias não ir mais tolerar os “grupos e grupinhos” de má língua e “conspirata” que viveriam de costas voltadas para “as realidades nacionais”. Ouçamos o ditador, então com 44 anos: “Não compreendo nem posso tolerar que meia dúzia de inúteis passem a vida a deitar cartas, às mesas dos cafés, sobre os meus destinos e o destino dos meus colaboradores, enquanto os homens que estão no Poder se debatem com altos problemas nacionais e os vão resolvendo!” No cabeçalho da entrevista, anunciava-se a dicotomia: “Política de café” versus “Política nacional”. A algumas semanas do 25 de Abril de 1974, na sua última “Conversa em Família” da RTP, Marcelo Caetano exortava os Portugueses a não ligarem a “intrigas de mesa de café“, porque o Estado Novo estava de pedra e cal (viu-se). A mesa do café aparece nestas três citações, clara e simplesmente, como o lugar simbólico da liberdade de expressão e da oposição ao poder.

Não se pense que os comunistas difundiam melhor opinião acerca dos cafés. Desde sempre que o jornal clandestino do PCP usou a retórica depreciativa dos cafés, equiparando-os a “centros de conspirata” do chamado reviralho, que era a oposição “burguesa” - isto é, não comunista - ao regime de Salazar (veja-se o Avante! de Junho de 1935, p. 2). O café era conotado pelo jornaleco do PCP - do mesmo modo que por Salazar! - com o republicanismo, o socialismo e o anarquismo. Para os comunistas, o café era sinónimo de opinião desenquadrada partidariamente, logo perigosamente inclinada a acreditar que o Estado Novo poderia ser derrubado por uma “conspirata” armada. Exactamente como veio a acontecer uns anitos mais tarde, com a conspirata do 25 de Abril.

* * *

É óbvio que um solitário empedernido e um desassossegado doublé de indisciplinador mental como Fernando Pessoa só podia fazer do café a sua segunda casa. Não há paradoxo quanto a ser solitário. Disse Alfred Polgar que os frequentadores de café são “pessoas cuja repulsa pelos seres humanos seus semelhantes é tão viva quanto a necessidade de estar com gente que queira estar só, mas que precise de companhia para isso“. A tertúlia de café funciona, para o solitário, como “material isolante” que protege o seu mundo interior do exterior, Polgar dixit. E quem somos nós para duvidar do filósofo de café por excelência?

Pessoa com Augusto Ferreira Gomes (de pé), António Botto e Raúl Leal no Martinho da Arcada. À esquerda, de fato claro, um desconhecido.

Na Lisboa do final da Monarquia e princípio da República, cada tertúlia literária e política tinha o seu antro, a sua sede, de modo que Fernando Pessoa, que fugia a “capelas” e círculos apertados, podia visitar três cafés num só dia, especialmente se procurasse alguém para discutir um projecto empresarial sem futuro, para ler um poema seu ou para pedir dinheiro emprestado. A utilidade que Pessoa buscava nas conversas de café era, o mais das vezes, a do conteúdo da própria conversa, sobre cuja qualidade e elevação era extremamente exigente. Se alguém apenas quisesse falar de si ou dos seus pequenos problemas existenciais, Pessoa virava-lhe as costas. Da mesma forma que abominava quem mantivesse um nível plebeu ou agressivo de conversação. Isto, apesar de Pessoa, consabidamente, preferir as companhias masculinas às femininas, que o intimidavam ou aborreciam, salvo raras excepções. Os cafés lisboetas das primeiras décadas do século XX eram locais eminentemente misóginos, aonde uma mulher decente raramente se aventurava - e só em companhia masculina. Diferentes seriam algumas casas de chá, onde a presença feminina já era natural, pelo menos à hora do dito. Sarah Afonso foi caso à parte: ia sozinha à Brasileira e fazia gala disso. Foi lá que conheceu Almada Negreiros, segundo contou numa entrevista memorialística. E nós acreditamos, pois não temos outro remédio.

Pessoa com Costa Brochado no universo masculino do Martinho da Arcada

O maior escritor português do século XX escreveu alguns textos em papel de carta de cafés, ornado do respectivo timbre. Há, por exemplo, um poema de 1916 escrito em papel timbrado da Brasileira. Em alguns escritos pessoanos aparecem referências a cafés e aos seus frequentadores, como no Livro do Desassossego. Mas, que eu saiba, Pessoa nunca abordou com maior desenvolvimento o tema da vida de café. Nem fez planos disso, daqueles para não cumprir nunca. A obra publicada e inédita do escritor é tão vasta, porém, que posso estar enganado.

Nos cafés, Pessoa portava-se irrepreensivelmente e exigia que os outros fizessem o mesmo. No consumo, não devia passar do cafezinho, com ou sem bagaço. Vinho, obviamente, não era para ali. Pessoa não queria que as pessoas com quem se relacionava o vissem alcoolizado. De facto, um frequentador da tertúlia do Café Montanha nos anos 20 e 30, Francisco Peixoto Bourbon, que foi próximo de Pessoa, afirmou que nunca nenhum amigo do poeta o viu embriagado. Pessoa cuidava da sua imagem de gentleman (verdadeiro), de que também fazia parte o laço papillon, o bom chapéu e a boa gabardine, esta às vezes já um bocado amarrotada.

Pessoa no café, por Almada (fragmento desbotado por mim)

A taberna foi o outro poiso diário de Pessoa, embora regido por mui diversas leis. Aí as companhias eram certamente de carácter mais anónimo e ocasional. O grande bebedor busca o anonimato em locais pardacentos. As tabernas, as carvoarias e as leitarias (“onde eu não ia beber leite”) que Pessoa frequentava não tinham nome digno de nota, à excepção da adega Abel Pereira da Fonseca, a que Pessoa concedia o petit nom carinhoso de Abel. “Estive no Abel”, “vou ao Abel”, dizia ele à Ofélia, certamente para a afugentar de si. Na Baixa, Rua dos Sapateiros, existe ainda hoje uma relíquia do passado: a Camponesa, uma leitaria com azulejos arte nova, quiçá frequentada pelo poeta. No Chiado havia também, leio, a “leitaria do Araújo” (talvez a Leitaria Garrett), onde Stuart Carvalhais rabiscava os seus famosos bonecos entre dois copos de tinto. Um desses bonecos de taberna pode ter sido esta sua famosa caricatura de Pessoa.

Pessoa por Stuart (Ilustração, 1 de Agosto de 1929)

Mesmo alcoolizado, Pessoa nunca pisou o risco. O gentleman retirava da taberna e ia para casa - a sua ou a de algum amigo - quando não queria que a família o visse em estado de embriaguês. No final da vida, morando sozinho, embebedava-se mais em casa: o barbeiro trazia-lhe de manhã ao primeiro andar da Rua Coelho da Rocha uma garrafa de aguardente, que ele consumia à noite. A fonte desta conhecida história é o filho do dito barbeiro. Mas segundo outro relato, ele próprio também ia à tasca do Trindade, em Campo de Ourique, comprar a garrafinha de vidro preto com o líquido invisível lá dentro.

Ao contrário do café, a taberna foi tema de escritos de Fernando Pessoa. Há um poema, por exemplo, em que o ortónimo glorifica a taberna e a bebedeira - que me perdoem a família e os fans mais devotos. O original dactilografado, sem título e sem emendas (nem nódoas de vinho…), data de 18 de Setembro de 1933. Foi pela primeira vez publicado em 2004, em Poemas de Fernando Pessoa, 1931-1933, edição da Imprensa Nacional. Ei-lo:

Vem beber dois. Toda a vida

É uma coisa sem nexo

Que só se sente bebida

Quando perde o nexo e o sexo.

         Vem comigo conversar

         Enquanto o vinho se esgota.

         Que mais nos vale este estar

         A morrer-nos, gota a gota?

Tudo é absurdo. Nada obriga.

E sobre esta confusão

É ponte o fio que liga

A taberna ao coração.

“Em flagrante delitro” no Abel, em Campo de Ourique 

(foto a preto e branco, avinhada por mim)

© Texto de José Barreto.

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Monday, June 12, 2006

ii - Teoria do Café Central

“Teoria do Café Central” (1926),

de Alfred Polgar

Café Central, Viena, circa 1900

O Café Central é, realmente, um café diferente de todos os outros. É mais uma visão do mundo, cuja verdadeira essência, todavia, reside em absolutamente não observar o mundo. O que é que ali se vê, então? Sobre isso, mais adiante. O que está experimentalmente assente é que não há ninguém no Café Central que não seja parte dele, isto é, em cujo espectro do ego não apareça a cor Central, que é uma mistura de cinza e verde ultra-enjoado. Se foi o local que se adaptou ao indivíduo ou o indivíduo ao local, é ponto controvertido. Admito que tenha havido uma acção recíproca. “Tu não estás no lugar, é antes o lugar que está em ti”, diz o Peregrino Angélico. (1)

Se todas as histórias relacionadas com este café fossem moídas, colocadas numa cuba de destilação e gaseificadas, formar-se-ia um gás pesado, iridescente, cheirando vagamente a amónia: é o chamado ar do Café Central. Isso define o clima espiritual deste espaço, um clima bem particular em que a inaptidão para a vida, e só esta, floresce na plena manutenção da sua inaptidão. Aqui desenvolve a impotência os poderes que lhe são intrínsecos, aqui amadurecem os frutos da infecundidade e cobra juros toda a não-propriedade. Tudo isto só está ao alcance de um verdadeiro Centralista, alguém que, se o seu café está fechado, tem o sentimento de ter sido lançado às duras penas da vida, abandonado às mais imprevisíveis consequências, anomalias e crueldades do desconhecido.

O Café Central situa-se à latitude vienense do meridiano da solidão. Os seus habitantes são, na maioria, pessoas cuja repulsa pelos seres humanos seus semelhantes é tão viva quanto a necessidade de estar com gente que queira estar só, mas que precise de companhia para isso. O seu mundo interior requer uma camada de mundo exterior como material isolante; as suas frouxas vozes solistas não prescindem do suporte do coro. São naturezas inseguras, que ficam um tanto perdidas sem as certezas que tiram do sentimento de constituírem uma pequena parte de um todo, para cujo tom e cor contribuem.

O Centralista é uma pessoa a quem a família, a profissão e o partido político não dão este sentimento de pertença. O café apresenta-se, solicitamente, como uma totalidade sucedânea, convidando à imersão e à dissolução. É assim compreensível que, sobretudo, as mulheres, que nunca conseguem estar sós e precisam de, pelo menos, uma pessoa por perto, têm um fraco pelo Café Central. É o lugar para gente que sabe abandonar e ser abandonada para bem do seu destino, mas a quem falta ousadia para cumprir esse destino. É um verdadeiro asilo para quem tem que matar o tempo antes que o tempo o mate. É o doce lar daqueles que abominam o doce lar, o refúgio seguro de casais e amantes diante da ameaça de uma vida conjunta sem problemas, o posto de primeiros socorros das mentes confusas que, toda a vida em busca de si próprias e toda a vida em fuga de si próprias, escondem o seu ego fugitivo atrás de um jornal, conversas enfadonhas ou jogos de cartas, e empurram o ego perseguidor para o papel de maçador que tem que calar a boca.

O Café Central representa, pois, algo como uma organização de desorganizados.

Neste espaço venerado, cada indivíduo semi-indeterminado é creditado com uma personalidade plena. Enquanto se mantenha dentro dos limites do café, pode cobrir todas as suas despesas morais com este crédito. Àquele que mostre desdém pelo dinheiro dos outros está reservada a coroa anti-burguesa.

O Centralista vive parasitariamente da história que circula a seu respeito. Aí está o principal, o essencial. O resto, os factos da sua existência, tudo isso são notas de rodapé, adendas e embelezamentos que podem ser dispensados.

Os fregueses do Café Central conhecem-se, amam-se e detestam-se mutuamente. Até aqueles que não estão vinculados a nenhuma associação consideram esta não associação como uma associação. A própria aversão mútua tem força associativa no Café Central; ela cumpre e põe em prática uma espécie de solidariedade maçónica. Toda a gente sabe da vida de toda a gente. O Café é um ninho de província no ventre da metrópole, a fervilhar de boatos, inveja e maledicência. Penso que os peixes no aquário devem viver como os habitués deste café, sempre em círculos apertados à volta uns dos outros, sempre atarefados sem propósito, usando a refracção inclinada da luz ambiente como um divertimento diferente, sempre expectantes, mas também cheios de ansiedade, não vá alguma vez algo novo, brincando ao “mar” com um ar grave, cair dentro da tina de vidro, no seu minúsculo fundo do mar artificial. Se amanhã, Deus não permita, o aquário fosse transformado num banco, eles sentir-se-iam completamente perdidos.

Naturalmente, o peixe-Central, habituado a partilhar com outros aquele exíguo espaço respirável durante tantas horas da sua vida, perdeu toda a timidez e cerimónia. O Centralista que se preza conduz a vida privada dos outros e não joga às escondidas com a sua própria. Isto, reforçado pela acostumada tendência do local para a auto-ironia e a serena confissão das fraquezas próprias, cria uma esfera de sociabilidade suspensa na qual toda a reserva púdica se esbate e extingue. Há fregueses do Central que andam por ali psiquicamente nus, sem receio que a sua nudez pueril e inocente seja interpretada como falta de vergonha. Aqui há uns anos, o proprietário do Café Central tentou acomodar o espaço a esta propensão paradisíaca dos seus clientes regulares colocando lá uma palmeira. Mas aquela donzela do Oriente não suportou o clima do local, apesar da dominante oriental do dito. Foi cortada em pedacinhos e os seus restos mortais encontraram utilização na cozinha − ou como combustível ou como grãos de café, os investigadores não chegaram a um consenso nesta matéria.

Só está habilitado a desfrutar do charme essencial desse esplêndido café aquele que nada mais quer dali do que estar lá. A ausência de propósito santifica a estadia. No fundo, talvez o habitué não goste do local nem da gente que ruidosamente o povoa, mas o seu sistema nervoso exige imperiosamente uma dose diária de Centralina. Dificilmente se pode explicar isto apenas pelo hábito. Nem pelo facto de a gente do Central se sentir sempre atraída, como o assassino pelo local do crime, por um lugar onde tanto tempo mataram, onde já dizimaram anos inteiros. Então qual é a explicação? A atmosfera! Só posso dizer isto: a atmosfera! Há escritores, por exemplo, que são incapazes de cumprir as suas tarefas literárias noutro lugar que não o Café Central. Só ali, naquelas mesas da indolência, está a mesa de trabalho posta para eles, só ali, envolvidos naquela atmosfera ociosa, é que a sua inércia se torna fecundidade. Certos tipos criativos só no Central conseguem não ter ideia nenhuma − noutro lugar, na verdade, ainda menos. Há poetas e outros industriais aos quais só no Café Central surgem ideias rendosas; pessoas com prisão de ventre a quem só ali se abre a porta do alívio; gente que há muito perdeu o apetite pelo erótico e que só ali sente fome; calados que só no Central reencontram a sua língua ou a de outra pessoa; e gananciosos cuja glândula monetária só ali secreta.

Esse enigmático café tem o poder de serenar na inquieta gente que o visita aquilo a que chamo o seu desassossego cósmico. Neste lugar de relações descontraídas, a relação com Deus e com as estrelas também se descontrai. O indivíduo escapa às suas relações obrigatórias com o universo entrando num relacionamento casual, irresponsável e sensual com coisa nenhuma. As intimidações da eternidade não atravessam as paredes do Café Central, ao abrigo das quais se pode gozar a doce despreocupação do momento.

Sobre a vida amorosa do Café Central, sobre o equilíbrio das distinções sociais que nele vigoram, sobre as correntes políticas e literárias que banham as suas margens escalavradas, sobre os enterrados vivos no mausoléu-Central que há muito aguardam a sua exumação embora esperando que tal nunca venha a acontecer, sobre a comédia de máscaras plena de espírito e desvario que, naquelas salas, faz de todas as noites um Carnaval - sobre estas e outras coisas muito haveria ainda que dizer. Mas quem se interessa pelo Café Central já sabe tudo isso e quem não se interessa pelo Café Central não nos interessa a nós.

É apenas um café, mas que café! Nunca encontrarão outro lugar assim. Aplica-se a ele o que Knut Hamsun diz da cidade de Christiania na primeira frase do seu imortal Fome: “Quem lá passa fica marcado por ela”.

Alfred Polgar (1873-1955)

NOTA:

(1) Uma referência ao escritor místico seiscentista alemão Johann Schefler (1624-77), mais conhecido sob o pseudónimo de Angelus Silesius (Anjo da Silésia). A sua obra maior foi Das Cherubinische Wandersmann (O Peregrino Angélico), basicamente uma colecção de apotegmas morais. [Nota de Harold Segel, vd. abaixo.]


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Título original: “Theorie des Café Central”, 1926. Vd. Alfred Polgar, Kleine Schriften, vol. 4, págs. 254-59. Incluído na antologia de Harold Segel, The Vienna Coffeehouse Wits, 1890-1938 (Purdue, 1993).

© Tradução portuguesa de José Barreto.

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i - Café Central de Viena

Café Central - Viena


O mais famoso café de Viena, o Café Central, situado no rés-do-chão do palácio Ferstel, na Herrengasse, foi fundado em 1876, encerrado em 1943 e reaberto, novamente, em 1982-1986. O Central foi o local preferido dos artistas, escritores e políticos entre o encerramento do Café Griensteidl, em 1897, e a abertura do Café Herrenhof, em 1918.

Parece que, nas andanças dos seus 130 anos, perdeu bastante do sofisticado ambiente de café literário, para se tornar, actualmente, num café-restaurante chic, procurado por turistas em busca de miragens.

O Café Central, no rés-do-chão do palácio Ferstel, em 2006 
 

Um café servido no Café Central
 
Aos clientes fixos do café chama-se ainda hoje centralistas, termo cunhado em 1926 por Alfred Polgar na sua “Teoria do Café Central”, cujo texto se oferece também nesta data neste blog (vd. post seguinte), em inédita tradução portuguesa cá do mangas.

No princípio do século XX, Viena era uma capital de Império com uma vida cultural comparável, se não superior, à de Paris e Berlim, animada por uma pléiade de intelectuais e artistas, em boa parte de origem judaica. Os cafés vienenses, espaçosos e ostentando luxuosas decorações neo-clássicas ou neo-góticas, mais raramente art nouveau (ou Jugendstil), eram os principais centros de encontro desta esfuziante vida cultural. Aos jornalistas, poetas, romancistas, pintores e arquitectos famosos, por vezes acompanhados de figuras femininas, juntavam-se os médicos e os psicanalistas, bem como os políticos de várias águas, desde os social-democratas mais moderados aos revolucionários bolcheviques, passando pelos anti-semitas e os futuros nazis. É de pasmar a lista das celebridades e beaux esprits cultores desta vida de café na Viena fin de siècle. Os maiores carniceiros do século XX, hélas, também por lá passaram! Sim, estou a falar de Hitler e Stalin, como mais abaixo se verá.

Café Central restaurado, Viena, 2005. Por aqui passaram Trotsky, Hitler e Stalin!

Eis os nomes de alguns dos frequentadores mais famosos do Café Central, da sua época dourada, na viragem do século, até ao advento do nazismo:

Viktor Adler (1852-1918), co-fundador do partido social-democrata austríaco. “Social-chauvinista” durante a I Guerra Mundial, não se deve ter entendido bem, então, com Trotsky, que conhecera e ajudara em 1907. Era pai do Friedrich Adler, que divergiu politicamente dele.

Friedrich Adler (1879-1960), político social-democrata e revolucionário austríaco, filho de Viktor Adler. Foi opositor da política de guerra e, em 1916, matou o primeiro ministro da Monarquia Austro-Húngara, conde Karl von Stürgkh. Safou-se com um ano de prisão, graças ao termo da guerra.

Otto Bauer (1881-1938), político social-democrata austríaco, um das figuras de proa do austro-marxismo. Depois de ter participado em governos com os sociais-cristãos, Bauer chefiará a resistência ao clerical-fascismo de Dollfuss e partirá para o exílio parisiense em 1934, ali morrendo meses depois do Anschluss.

Lev Bronstein, aliás Trotsky, que viveu em Viena de 1907 (fugido da Sibéria) até 1917. Era cliente fixo do Café Central, onde habitualmente jogava xadrez. Discutia ali política com os socialistas austríacos, mas viria ter má opinião deles, por não serem revolucionários ou por não serem pacifistas. Em Outubro de 1917, o presidente do governo austríaco, conde Heinrich Clam-Martinic, anunciou aos seus pares a eclosão da revolução bolchevique na Rússia, acrescentando que “o seu instigador foi, ao que parece, o Sr. Bronstein do Café Central”.

Alfred Adler (1870-1937), médico, psiquiatra, psicanalista. Rompeu em 1911 com Freud, com quem em 1902 havia fundado a Sociedade Psicanalítica de Viena. Alfred Adler fumava o seu charuto no Central, mas Freud preferia o Café Landtmann.

Sigmund Freud, pouco assíduo frequentador do Café Central. Não nos repugnaria imaginar sentados a uma mesa do canto o doutor Freud com a sua discípula, amiga e admiradora Lou Andreas-Salome.

Richard von Krafft-Ebbing (1840-1902), psiquiatra, autor do clássico Psychopathia Sexualis.

Theodor Billroth (1829-1894), grande cirurgião alemão prussiano, catedrático da Universidade de Viena, considerado o fundador da cirurgia moderna.

Theodor Herzl (1860-1904), judeu natural de Budapest, viveu em Viena. Foi o fundador do moderno sionismo político. Sucedeu-lhe à cabeça do movimento o igualmente húngaro Max Nordau.

Peter Altenberg (1859-1919), boémio e escritor de origem judaica. Escreveu aforismos, poemas em prosa, esboços, pequenas peças, tudo reunido numa dúzia de volumes. Tem um estátua de papier-mâché no próprio Café Central, sentado a uma mesinha, perto da porta de entrada. De seu verdadeiro nome Richard Engländer, mudou de nome para se demarcar da cultura burguesa e convencional dos seus pais. Ter-se-ia convertido ao catolicismo em 1900. Foi um campeão de todos os fracos e indefesos que via tratados de forma insensível, nomeadamente crianças, serviçais e mulheres casadas. Foi também um defensor da “superioridade” dos povos considerados “primitivos” em relação aos “civilizados”. Figura não convencional e extravagante, usava sandálias, vivia em hotéis, era senhor de uma gigantesca colecção de postais ilustrados (mais de 10.000) e era tido por pedófilo. Recebia o seu correio pessoal no Café Central, mas também frequentava o Café Museum e o Café Landtmann.

Adolf Loos
Adolf Loos (1870-1933), célebre arquitecto e artista decorativo ou designer, cliente do Café Central, teve como seu primeiro projecto importante o Café Museum (1899). Também fez o Bar Americano. Modernista, anti-secessionista, defendeu a tese da obsolescência do ornamento. O edifício mais célebre de Loos é o do gaveto da Michaelerplatz, em Viena, que data de 1911. Em 1922, participou no concurso do edifício Chicago Tribune com uma torre em forma de coluna dórica gigante.

Kokoschka - Auto-retrato com Alma Mahler, 1913
Oscar Kokoschka, pintor expressionista, amigo de Karl Kraus, pintou retratos no Café Central. Amante de Alma Mahler. Quando Alma o deixou, Kokoschka mandou fazer uma boneca parecida com ela, em tamanho natural, que levava para o café e sentava ao seu lado.

Felix Salten (1869-1945), nascido em Budapest de família judaica, viveu desde muito jovem em Viena. Foi escritor, crítico e ensaista do círculo “Jovem Viena”. Autor do livro Bambi (1923) que, em 1942, Disney transformaria em filme de grande sucesso. É dado como o autor de um romance erótico publicado em 1906, Josefine Mutzenbacher, que relata a vida de uma prostituta vienense. Famosa foi a sua relação de grande inimizade com Karl Kraus. Exilado na Suiça a partir de 1939, morreu em Zurique no fim da guerra.

Robert Musil
Robert Musil (1880-1942), grande escritor modernista austríaco, autor de uma das obra-primas mundiais do séc. XX, O Homem sem Qualidades. Foi-lhe recusado o Nobel da literatura. Viveu entre Berlim e Viena e, sob o nazismo, exilou-se na Suiça. O seu café preferido em Viena era o Museum.

Alfred Polgar (1873-1955), escritor austríaco de origem judaica húngaro-eslovaca, politicamente um socialista independente. Foi o autor da célebre “Teoria do Café Central”. Trabalhou como jornalista, folhetinista, ensaista, crítico de teatro e escritor prolixo em Viena, Praga e Berlim. Cultivou o “pequeno escrito”. Escreveu sketches para o cabaret Fledermaus (Viena) e colaborou em revistas satíricas, como o semanário Simplicissimus (Munique). Rainer Maria Rilke, Franz Kafka, Thomas Mann e Robert Musil tinham grande apreço pelas suas qualidades de escritor. O advento do nazismo, em 1933, fê-lo regressar de Berlim a Viena, onde até 1938 trabalhou com enormes limitações. Após o Anschluss tentou exilar-se na Suiça, mas foi-lhe negada residência, pelo que passou a Paris. Em 1940 teve, novamente, que fugir aos invasores nazis, desta vez para Lisboa, onde a 4 de Outubro embarcou num navio grego para Nova Iorque, juntamente com Heinrich Mann e Franz Werfel. Nos EUA trabalhou como jornalista da imprensa exilada de língua alemã e como argumentista para os estúdios da MGM. Depois da guerra regressou à Europa, vivendo com base em Zurique até à morte.

Stefan Zweig (1881-1942), escritor austríaco de origem judaica, amigo pessoal e colega de mesa no Café Central de Alfred Polgar, o qual escreveria o argumento para o filme The Burning Secret, tirado do romance homónimo de Zweig.
Hermann Broch (1886-1951), poeta, romancista, dramaturgo e ensaista vienense de origem judaica. Convertido ao catolicismo em jovem, regressou no fim da vida ao judaísmo. Autor de A Morte de Virgílio e da trilogia Sonâmbulos. Preso no dia da ocupação da Áustria pelos nazis, conseguiu exilar-se na América. No fim da II Guerra Mundial escreveu uma Psicologia das Massas.
 
Ea von Allesch, a ‘Rainha do café Central’
Ea von Allesch (1875-1953), também conhecida por Emma Rudolf. Jornalista de moda em Viena e Berlim, antiga modelo de nu. Chamavam-lhe “Rainha do Café Central”. Ea casou três vezes e, entretanto, teve relações amorosas com vários frequentadores do café, como Alfred Polgar e Hermann Broch. Era amiga de Musil e de Rilke.
 
Milena Jesenská
Milena Jesenská (1896-1944), jornalista e tradutora checa. Outra figura feminina dos cafés literários de Praga e, depois, dos de Viena (O Café Central e o Café Herrenhof). Era filha de um dentista de Praga, com quem viveu em conflito. Aos 20 anos, Milena conheceu Ernst Polak, um tradutor judeu frequentador de cafés que a apresentou ao Café Arco, de Praga, onde deambulavam Kafka (que não chegou, então, a conhecer pessoalmente), Max Brod, Franz Werfel, entre muitos outros. Depois de metida pelo pai num asilo psiquiátrico durante oito meses, Milena fugiu, casou com Polak e foi com ele viver para Viena. Ali começou uma hesitante carreira de jornalista de moda. O marido era-lhe infiel e Milena meteu-se nas drogas, sobretudo cocaína. Teve um breve romance com Hermann Broch e, depois, com Franz Kafka, por correspondência. Milena apaixonou-se pelos contos de Kafka e escreveu-lhe a propor traduzi-los para checo. Dessa carta de 1919 nasceu uma correspondência que durou até 1923. Kafka e Milena encontraram-se, porém, raras vezes. O principal encontro durou apenas dias e teve lugar em Viena, em 1920. Terão aparecido juntos, ao que se diz, nos cafés literários da Herrengasse. Kafka já estava gravemente doente e Milena não se decidia a deixar Polak por um escritor tuberculoso. Após a morte de Kafka (1924), Milena passou os manuscritos que ele lhe confiara a Max Brod, que os publicou. Depois de se ter casado mais duas vezes, Milena adoeceu gravemente. Quando recuperou da doença tornou-se dependente de drogas e sexualmente promíscua. Abandonando a droga, militou no Partido Comunista, de que seria expulsa por protestar contra os processos de Moscovo de 1936. Tornou-se numa combativa militante anti-nazi, entrando para a clandestinidade após a ocupação alemã de Praga, em 1939. Em 1940 foi presa e enviada para o campo de concentração de Ravensbrück, onde morreu em 1944.
 
Lina Loos e Peter Altenberg
Lina Loos (1884-1950), née Obertimpfler, actriz e escritora vienense, frequentadora dos cafés vienenses e do Café Central em particular. Era originária de uma família bem conhecida de Viena, proprietária do Café ‘Casa Piccola’ no bairro central de Mariahilf. Depois de estudar representação, tornou-se uma actriz e cantora de cabaret de sucesso em Berlim (Unter den Linden), Munique (Elf Scharfichter) e Viena (Nachtlicht, Fledermaus). Depois de se divorciar do arquitecto Adolf Loos, com quem esteve casada entre 1902 e 1905, tentou a sua sorte como actriz nos EUA, onde triunfou. Regressou à Europa antes do começo da Grande Guerra. Rudolf Beer, director do Raimundtheater de Viena contratou-a em 1922. Sob a sua direcção, Lina actuou ainda no Deutsche Volkstheater de 1924 até 1938, quando se retirou do palco. Lina, que também trabalhou como escritora, era tida na sua juventude por uma das mais belas mulheres de Viena. Esteve sempre em foco na vida cultural e intelectual da cidade. Ao seu círculo de amigos pertenciam celebridades como Peter Altenberg, Egon Friedell, Franz Theodor Csokor (poeta, dramaturgo e romancista, 1885-1969), Franz Werfel, G. Kaiser, Bertha Zuckerkandl and G. Wiesenthal.
 

Alma Schindler, depois Mahler, Gropius e Werfel
Alma Mahler-Werfel (1879-1964) compositora e pintora vienense, conhecida pela sua beleza e inteligência. Alma Schindler teve como primeiros amores o pintor Gustav Klimt e o compositor Alexander von Zemlinsky. Foi casada sucessivamente com Gustav Mahler (1902), Walter Gropius (1911) e Franz Werfel (1929). Mahler impediu-a de seguir uma carreira artística. Teve uma célebre relação amorosa com o pintor Oskar Kokoschka, que a representou nua juntamente consigo, também nu, em vários quadros célebres (por exemplo, “Noiva do Vento”). Com o marido judeu Franz Werfel teve de fugir aos nazis da Áustria, em 1938, e de França, em 1940, conseguindo chegar aos Estados Unidos via Lisboa em Outubro de 1940.
Gina Kaus
Gina Kaus (Viena 1894 – Los Angeles 1985), escritora, foi frequentadora dos círculos literários dos cafés de Viena, especialmente o Café Herrenhof. Née Regina Wiener, Gina casou em 1913 com o músico Josef Zirner, que morreu em 1915. Tornou-se em 1916 amante do banqueiro judeu Josef Kranz, que financiou os seus projectos literários sob o pseudónimo masculino de Andreas Eckbrecht. Em 1920 Gina casou com o jornalista e e escritor comunista Otto Kaus, de quem manteve o nome, apesar do divórcio em 1926. A peça “Ladrões em casa”, representada em 1917 no Burgtheater de Viena, foi o seu primeiro êxito como autora de comédia. Escreveu romances (A mãe, 1924 e Catarina a Grande, trad. inglesa 1935) e também contos para periódicos. Manteve relações de amizade com Hermann Broch, Franz Blei, Karl Kraus, Alfred Adler, Robert Musil e Franz Werfel. Em 1938, sendo já uma escritora consagrada, emigrou para a Suiça no dia do Anschluss, depois para Paris e, enfim, para os Estados Unidos (1940), onde escreveu romances e argumentos para numerosos filmes de Hollywood. Frequentou os meios da emigração, dando-se especialmente com Vicki Baum, Bertolt Brecht, Fritz Kortner e Berthold e Salka Vierfel.
Vicki Baum (1888-1960), popular romancista vienense de origem judaica, autora de dúzias de best-sellers, dezassete dos quais adaptados ao cinema desde o princípio dos anos 30 por Hollywood. Até aos 28 anos foi música (harpista) profissional, escrevendo nas horas vagas. O primeiro marido, um jornalista, introduziu-a na vida literária de Viena. O segundo foi o maestro Richard Lert. Trocou depois Viena por Berlim e na década seguinte instalou-se na América, depois de o filme “Grande Hotel”, adaptado de uma obra sua, ter ganho o Óscar para o melhor filme (1932). A Alemanha nazi proibiu as suas obras e Vicki naturalizou-se americana em 1938. Nos anos 40 tornou-se numa escritora de língua inglesa, escrevendo romances, contos, dramas e argumentos para filmes.
 
Schiele - Auto-retrato, 1912
Egon Schiele, pintor expressionista. Parece que este ia mais ao Café Museum.

 

Anton Kuh
Anton Kuh (1890-1941) poeta e jornalista judeu austríaco. Kuh (palavra que significa vaca em alemão) «fut un dandy, un brillant orateur et un écrivain satirique du gabarit de Karl Kraus, qu’il connaissait bien. Il est l’incarnation de l’intellectuel oisif, familier des cafés de Vienne et de Prague. Il observait les autres courir après l’argent, le travail et la gloire». Artista do curto bilhete, deixou centenas de pequenos textos que compõem “um retrato decapante da sua época e da ascensão do fascismo na Áustria». Fugiu de Viena horas antes da chegada das tropas nazis à sua cidade natal, em 1938, e apanhou o último combóio para Praga. Morreu no exílio na América. Café de l’Europe é uma recolha dos seus famosos bilhetes, que a Calmann-Lévy publicou em tradução francesa em 2003.

Leo Perutz (1882-1957), romancista austríaco natural de Praga, viveu em Viena até ao Anschluss, fugindo então para a Palestina. Autor de onze romances, elogiados por Jorge Luis Borges, Graham Greene e Italo Calvino.

Arthur Schnitzler, dramaturgo, crítico, romancista e contista de origem judaica. Uma parte considerável da sua juventude foi passada no Café Griensteidl e, depois, no Café Central. Na autobiografia intitulada Juventude em Viena, Schnitzler fala duma tal Theresa, “a muito cobiçada empregada do café que eu frequentava, onde jogava bilhar de manhã, cartas à tarde e bilhar e cartas à noite.” Estudou Medicina e Psiquiatria, tornando-se amigo pessoal de Freud. Trocando, depois a clínica pela escrita, Schnitzler passou a ser considerado “o Freud da literatura”. As suas obras foram utilizadas para mais de 50 filmes e, em 1999, Kubrik adaptou um seu romance no filme Eyes Wide Shut.
 
Gustav Klimt
Gustav Klimt (1862-1918), pintor, figura de proa da Secessão de Viena. Parece que ia mais ao Café Museum.

Hugo von Hofmannsthal, dramaturgo e poeta.

Hermann Bahr, escritor, dramaturgo e crítico, o primeiro a aplicar o termo modernismo a uma corrente literária. Observador pioneiro e definidor, também, do expressionismo. Célebre pelas suas críticas de Gustav Klimt. Católico de origem, depois descrente, depois novamente católico.

Max Brod
(1884-1968) escritor e jornalista, judeu alemão natural de Praga, amigo íntimo, executor testamentário e editor de Kafka. Viveu os últimos 30 anos em Tel Aviv.
 
Franz Kafka
Franz Kafka (1883-1924) escritor judeu de língua alemã nascido em Praga, um dos nomes maiores da literatura mundial do século XX. Não era grande frequentador de cafés literários, mas foi visto no Café Arco de Praga, no Café Josty de Berlim e no Café Central de Viena. Existe um cacafónico Café Kafka em Praga.
 
Franz Werfel
Franz Werfel, poeta, dramaturgo, romancista nascido em Praga. Judeu de língua alemã convertido ao cristianismo. Amigo de Max Brod e de Franz Kafka, o qual tinha por ele uma enorme admiração como poeta. Werfel, por seu turno, só dificilmente descobriu o génio de Kafka. A primeira vez que leu uma curtas prosas de Kafka, comentou: “Isto nunca passará de Bodenbach”. Enganou-se redondamente. Bodenbach era a estação fronteiriça da Boémia com o Império Alemão. Franz Werfel fugiu do nazismo para a América via França, Espanha e Portugal. Admirador de Lourdes, sobre a qual publicou na Califórnia The Song of Bernadette, 1942.
 
Karl Kraus por Kokoschka em 1910 e 1925
Karl Kraus (1874-1936) dramaturgo, poeta, ensaista, jornalista de origem judaica, natural da Boémia, Monarquia Austro-Húngara. Foi fundador e director da revista crítica e satírica Die Fackel (O Facho), de que saíram 922 números entre 1899 e 1936. Até 1911, Die Fackel publicou textos de Peter Altenberg, Richard Dehmel, Egon Friedell, Oskar Kokoschka, Else Lasker-Schüler, Adolf Loos, Heinrich Mann, Arnold Schönberg, August Strindberg, Georg Trakl, Frank Wedekind, Franz Werfel, Houston Stewart Chamberlain e Oscar Wilde. A partir de 1911, a revista foi escrita quase só por Kraus. Aos 22 anos abandonou definitivamente os estudos universitários em Viena (primeiro Direito, depois Filosofia e Literatura Alemã). Frequentou as tertúlias do Café Griensteidl e do Café Central. Foi membro da Jung Wien, mas separou-se do grupo em 1897, com a publicação da obra Die demolierte Litteratur (Literatura Demolida). Detractor de Hermann Bahr e Felix Salten. Cultor de uma sátira implacável, é considerado um dos seus principais expoentes em língua alemã no séc. XX. Foi autor, em 1922, da peça Os Últimos Dias da Humanidade, uma sátira da Grande Guerra, cuja primeira versão foi de 1915. Evoluíu, politicamente, do conservadorismo monárquico para o republicanismo democrático. Foi um crítico demolidor da corrupção no Império Habsburg e do nacionalismo pan-germânico. Atacou a psicanálise, também, embora respeitasse Freud. Karl Kraus converteu-se ao catolicismo (1899), mas abandonou-o em 1923. Troçou de Theodor Herzl e do sionismo (Uma coroa para Sião, 1898), advogando a assimilação dos judeus, pelo que foi apodado de “judeu anti-semita”.
 
Egon Friedell
Egon Friedell (1878-1938) doutor em filosofia, historiador, jornalista, crítico de teatro, actor de cabaret, director artístico do cabaret Fledermaus (Morcego), aberto em Viena em 1907. Foi pioneiro do modernismo austríaco, tal como os seus amigos Kraus, Kokoschka e Altenberg. Entre os amigos de Friedell estavam quase todos os outros grandes autores da época: Franz Werfel, Hermann Broch, Robert Musil, Rainer Maria Rilke, Arthur Schnitzler, Hugo von Hofmannsthal. Escreveu uma História Cultural da Idade Moderna em três volumes e começou uma História Cultural da Antiguidade. Friedell era de origem judaica e converteu-se ao luteranismo. Suicidou-se em 1938, em Viena, atirando-se à rua quando a Gestapo estava a chegar à porta de sua casa para o ir prender. As suas últimas palavras, segundo uma lenda de humor negro, foram: “Cuidado aí em baixo!”
 
Karl Lüger, burgomestre de Viena
Karl Lüger (1844-1910), político católico, populista, anti-semita e anti-liberal austríaco, cujas ideias influenciaram o jovem Hitler durante a sua estadia em Viena. Liberalismo era, no final do séc XIX, sinónimo de poderio económico dos judeus. Lüger uniu o seu Partido Anti-Semita e Anti-Liberal aos Cristãos Unidos, formando o Partido dos Socialistas Cristãos (ou Social-Cristão) que, à data da sua morte, era o partido dominante na Áustria. Lüger foi conselheiro municipal desde 1875 e burgomestre de Viena de 1897 até 1910. Nesse período, a capital da Monarquia Austro-Húngara tornou-se numa das mais belas cidades europeias e num modelo de administração municipal, o que fez de Lüger um político muito popular e respeitado. Segundo alguns, o anti-semitismo de Lüger destinava-se mais a caçar votos e a aumentar a influência da Igreja católica do que, propriamente, a justificar uma perseguição aos judeus. As sementes de anti-semitismo germinariam mais tarde…
 
Lenin em 1897
Vladimir Illitch Ulianov, aliás Lenin, encontrou-se repetidamente com Trotsky no Café Central. Parece que o rapaz gostava mais da cervejaria Landolt, de Genebra (Suiça), onde terá gravado o seu nome num tampo de mesa de madeira, que ninguém sabe onde pára. Desta fotografia irradia já a presunção de um pseudo-génio messiânico. Quão superiores não lhe eram Tolstoy, Gogol, Dostoyevsky! Génio talvez, mas maléfico.
 

Heil Schicklgruber!
Adolf Hitler (cujo pai se chamou Alois Schicklgruber até mudar de nome) era um vendedor ambulante de desenhos e pinturas que ele próprio executava. Ao que consta, o futuro Führer não gostava muito de cafés nem de cervejarias. Era um teso que não tinha dinheiro para vícios. Segundo as memórias do actor Rudolf Forster (1884-1968), “o pintor Adolf Hitler era um sombrio personagem que tentava vender as suas pinturas aos clientes do Café Central, ninguém lhe prestando grande atenção”. O futuro exterminador de judeus, ciganos, deficientes e opositores políticos viveu pobremente em Viena de 1907 a 1913, num albergue para homens solteiros de relativo luxo, pois tinha banho quente e luz eléctrica. Mal empregado, senhor Imperador Francisco José! Os cafés de Viena eram muito frequentados por intelectuais e artistas judeus que, com o seu bom gosto, não deviam apreciar a arte menor de Adolf. Como investidores que se prezavam, fizeram mal, porque as borradas de Schicklgruber Jr. ficaram muito valorizadas com a triste celebridade planetária que o seu autor conquistou.
 
Yossif Vissarionovitch Djugashvili
Yossif Vissarionovitch Djugashvili, aliás Stalin, seminarista falhado de Tbilisi e futuro carniceiro de Moscovo, rival do anterior em número de vítimas, terá jogado xadrez com Trotsky no Café Central de Viena em 1912-13. Se non è vero, è ben trovato. Num intervalo das suas numerosas prisões na Rússia dos Czares, Stalin esteve, de facto, fugido em Viena, mais exactamente desde fins de Dezembro de 1912 até fins de Janeiro seguinte. Estamos, pois, em condições de imaginar a seguinte cena: Trotsky e Stalin a jogar xadrez no Café Central, com Hitler ao lado da mesa, de pé, a tentar vender-lhes uma aguarela, para pagar o quarto alugado no albergue da cidade… Teoricamente, isso pode muito bem ter acontecido em Janeiro de 1913, quando os três se encontravam realmente em Viena. Boa parte da história europeia e mundial do séc. XX pré-figurada numa cena do Café Central. Fantástico!

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Outros “cafés literários” de Viena:
Café Frauenhuber. O mais velho café de Viena, frequentado já por Mozart e Beethoven, segundo a tradição.
Café Griensteidl. Estabelecido em 1847 na esquina da Michaelerplatz com a Herrengasse, foi o primeiro grande café literário de Viena. No fim do século, havia quem lhe chamasse “Café Grössenwahn” ou “Café Megalomania”. Ali reunia o grupo literário Jung-Wien, “Jovem Viena”, formado por Arthur Schnitzler, Hugo von Hofmannsthal, Hermann Bahr, Peter Altenberg, Karl Kraus, Felix Salten, etc., que alguns alcunhavam de “literatos de café”. O Griensteidl cedeu a primazia ao Café Central quando, em 1897, teve de ser encerrado, para demolição do edifício e construção de um novo. Reabriu recentemente (1990), na esquina original, um café do mesmo nome.
Café Landtmann. Estabelecido em 1873, frequentado por artistas e políticos, era o café preferido de Freud, mas também lá iam Gustav Mahler, Peter Altenberg, Felix Salten e Emmerich Kálmán.
Café Museum. O preferido dos pintores, foi alcunhado de “Café Niilismo”. Mantém ainda hoje a tradição de local frequentado por escritores e artistas. Projectado por Adolf Loos.
Café Sperl. O preferido do compositor Franz Lehar e, dizem, de Hitler.
Café Herrenhof (do nome da rua Herrengasse). Abriu em 1918, roubando muita clientela ao vizinho Café Central. “Tudo o que era politicamente e eroticamente revolucionário foi para o novo café, as múmias ficaram no velho”, escreveu o poeta Anton Kuh. Também Hermann Broch, Elias Canetti e a romancista Vicki Baum eram clientes regulares. Decoração art nouveau. Fundado por um judeu de origem húngara, o Herrenhof entraria em decadência sob gestão “ariana”, durante o regime nazi, não conseguindo no pós-guerra recuperar toda a sua clientela de artistas e escritores e acabando por fechar, ingloriamente, em 1961. Reabriu, ulteriormente, como um vulgar café sem chispa.
Café Diglas. Fundado em 1923.
Café Hawelka. Criado em 1939 no lugar que fora do Café Ludwig e, mais antigamente, do Je t’Aime Bar. Fechou durante a segunda guerra. Reabriu, intacto, em 1945. Quando o Café Herrenhof encerrou em 1961, o Hawelka herdou parte da sua clientela, sucedendo-lhe, assim, como o principal café literário de Viena.

Em 1900, Viena tinha cerca de 600 cafés. Muitos foram fechados após a I Guerra Mundial, bastantes transformados em bancos. Alguns voltaram a abrir nos mesmo locais, depois de falidos os bancos. O nazismo e a II Guerra voltaram a encerrar um grande número. Viena é hoje, novamente, uma cidade de muitos e belos cafés: 1500, segundo leio.
 

Viena defende e ressuscita os seus cafés, servindo de exemplo para as cidades que os fecham e desprezam.
 
© Texto de José Barreto.


Posted by J.B. at 17:02:17 | Permalink | Comments (2)