Wednesday, July 26, 2006

v - Centrál Kávéház

Café Central, Budapeste, Hungria

1. Café Central, Budapeste, hoje.

É um histórico café literário da capital húngara, criado em 1887 com o mesmo nome do famoso café vienense que o antecedeu de onze anos. Após a II Guerra Mundial esteve 50 anos fechado, mas reabriu em 2000. Dá pelo nome de Café Central, com esta grafia e várias pronúncias possíveis, ou Centrál Kávéház, na língua local. Em tempos ostentou também na sua fachada a designação Central Kaffehaus, em alemão, para maior semelhança com o café de Viena.

2. O edifício do Café Central em 1887, no ano seguinte à abertura

Viena e Budapeste eram, desde 1867, as duas capitais, embora só a primeira oficialmente, da Monarquia Austro-Húngara, monarquia dual, bicéfala, kaiserlich und königliche, imperial (austríaca) e real (húngara), criada para mudar a aparência do Império Austríaco e torná-lo mais tolerável para algumas das quinze nacionalidades que albergava sob a sua manta de retalhos balcânica. Budapeste procurava imitar Viena em tudo, nomeadamente na arquitectura e urbanismo, na actividade comercial e na vida literária e artística. Nestas últimas áreas, em ambas as cidades - como também na Praga de Kafka - fazia-se sentir uma forte influência da minoria judaica.

Local de reunião de escritores, jornalistas e intelectuais durante mais de meio século, o Café Central de Budapeste foi um dos principais centros da moderna vida literária húngara. Durante longos anos, ali reuniam e trabalhavam os redactores e colaboradores do jornal A Hét (A Semana), publicado a partir de de 1890, e da revista Nyugat (Ocidente), iniciada em 1908. Foram as duas publicações literárias mais importantes da Hungria do final do séc. XIX e primeira metade do século XX. Depois da 1945, foi também do Café Central que saíu a revista Újhold (Lua Nova). Muitos outros periódicos húngaros tiveram como redacção as mesas dos cafés de Budapeste. No caso do Central, a localização dava especial jeito, porque a tipografia Athenaeum era do outro lado da rua.

3. O interior em 1910. As cadeiras serviram de modelo às de hoje. Foto: György Klösz

Após a II Guerra Mundial, que devastou grande parte da capital, o Café Central foi degradado a cafetaria de meia tigela com serviço de balcão - uma coisa a que a anglofonia chama espresso bar e os húngaros se habituaram a chamar simplesmente eszpresszó. A arquitectura interior e exterior foi afectada e o local ficou irreconhecível. Em 1949, o recém-instaurado regime comunista encerrou o que restava do café, reflexo também da supressão da iniciativa privada e das liberdades de reunião e expressão. Café literário não rimava muito com totalitarismo.

4. Estado irreconhecível do Café Central em 1946-1949. Repare-se na miseranda “esplanada”.

Durante o meio século seguinte, o rés-do-chão do edifício teve utilizações várias, consoante a tendência política de cada período. Foi sede, no tempo do estalinismo puro e duro, da Companhia Nacional de Paprika, empresa estatal com o monopólio do comércio da malagueta e colorau! Passou, depois da revolta de 1956, a cantina dos trabalhadores de construção do Metro e, a partir de 1965, a club de estudantes universitários. Foi salão de jogos electrónicos no imediato pós-comunismo. Ao longo de meio século, a destruição do local tornou-se praticamente irreversível. Apenas algumas fotografias coevas, sobretudo as de György Klösz (1844-1913), permitiram conservar uma leve memória dos tempos gloriosos do Central.

O edifício foi comprado no final dos anos 90 por Imre Somody, um milionário húngaro formado no tempo da economia socialista e filantropo emérito, alvo entretanto de distinções várias , como “empresário do ano” e “homem do ano”. Com o seu dinheiro e crédito bancário, o prédio foi todo restaurado por dentro e por fora e o rés-do-chão devolvido à sua função e pompa originais. Isso foi feito entre 1997 e 1999, no respeito, sempre que possível, da traça e atmosfera originais, mas com recurso a soluções renovadoras, sob a direcção do arquitecto Gábor Gereben, que também foi o grande impulsionador da ideia de reconstrução do café. A obra custou cerca de um milhão e meio de euros, não contando com o restauro do exterior e dos andares superiores, destinados a escritórios. O investimento, que não foi certamente feito para perder dinheiro, teve também um lado simbólico, de ressonância política: mostrar como regressa pelo seu próprio pé aquilo que o comunismo varreu.

Depois da inauguração solene, que teve lugar em Janeiro de 2000 com a presença do burgomestre Demszky e do primeiro ministro Orbán, a chave do novo Central foi lançada pelo proprietário ao Danúbio gelado, para que as portas do café jamais voltem a fechar, de acordo com uma tradição iniciada um século antes pelos clientes do New York Kávéház - outro café literário histórico de Budapeste.

5. Café Central hoje: um recanto cheio de luz à espera de clientes.

6. Outro recanto, depois da hora de fecho.

Fonte das imagens: entropybound, www.flickr.com (foto 1.); “Centrál Kávéház”, em http://www.centralkavehaz.hu e István Pertl, “Centrál Kávéház”, em http://www.dura.hu/pertl/central/central.html , (fotos 2.-6.).

© Texto de José Barreto.

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Tuesday, July 4, 2006

iv - Casamento homossexual

Pessoa institui casamento homossexual


Aí pela segunda metade dos anos 20 do século passado,
eventualmente após uma visita ao Abel referido no post anterior,
Fernando Pessoa escreveu a “Carta Inorgânica do Estado
Independente do Bugio
“, uma prosa satírica que me parece
ainda hoje inédita, mau grado as sucessivas revoadas de salteadores
da arca
. A fé pública e conformidade legal da Carta do Bugio são
abonadas, segundo o autor, pela chancela do “notário” Abel Pereira
da Fonseca, o que parece insinuar a origem tabernária da prosa.

Estado Independente do Bugio, hoje.


Para quem não sabe, o Bugio é um ilhéu na foz do Tejo, equipado com
um farol. Cinquenta anos antes de Artur Semedo ter proclamado a
independência das Berlengas (1978) e entronizado Mário Viegas como
seu rei, já Fernando Pessoa tinha mostrado o caminho a seguir,
elaborando a Carta Inorgânica bugiense.


Não perdeu a actualidade, muito pelo contrário, esse documento da
história política do Bugio e “continente adjacente”. Uma das medidas
fundadoras do novo Estado insular, com efeito, era a abolição da
obrigatoriedade de o casamento ser heterossexual. É por esse mesmo
objectivo que hoje lutam várias sumidades da cena política da
chamada III República, como o Prof. Louçã. Outras sumidades, mais
à direita, preferem as relações com pessoas do mesmo sexo fora da
publicidade e do colete jurídico do casamento.


Aqui vai o texto sem mais delongas:



Carta Inorgânica do Estado Independente do Bugio

§ único. - As leis deste Estado, em contrário das do continente
adjacente, serão redigidas em português.


N.º 1. - São adoptadas todas as disposições constantes do contrário
de todas as leis adoptadas no citado continente adjacente.


N.º 2. - Designadamente, e para facilitar a imigração de artistas, se
exclui, de todas as leis e registos de propriedade referentes a
casamento, a exigência de diferença de sexo entre os nubentes.


N.º 3. - Este Estado institui para os nacionais a categoria única de
cidadãos do Bugio, a qual poderá ser obtida por qualquer processo
insinuante, sendo permitido o da existência.


N.º 4. - Este Estado institui para os estrangeiros três categorias
progressivamente ornamentais - meliante, cevado e javardo - e, como
não haverá (em virtude de progressivos decretos e emendas) maneira
de distinguir as capacidades respectivas, a promoção será feita, como
no continente adjacente, por indistinção.


N.º 5. - Como, segundo o direito moderno, os mortos mandam, serão
considerados administradores deste Estado, além de outros de igual
categoria que venham a ser oportunamente designados, os cidadãos
Quinto Horácio Flaco, Diogo Alves, Dante Alighieri, José do Telhado,
John Milton, João Brandão, Conselheiro J. W. von Goethe, William
Shakespeare e Manuel Peres Vigário.


N.º 6. - Para evitar qualquer descrédito do banco do Estado, não
haverá banco do Estado.


N.º 7. - Este Estado poderá deixar de existir por cansaço.


N.º 8. (e § único) - É desde já nomeada única cidadã honorária deste
Estado a Exm.ª ausência do Sr. Júlio Dantas.


Bugio, a alumiar.


Dada em Lisboa, pelo grupo exilado revolucionário do Bugio, nas notas
do notário Abel Pereira da Fonseca.


_______________


Fonte
:


- O original de 1 página dactilografada encontra-se no Espólio
Fernando Pessoa (BN) sob a cota 92F-52.

Observações:


- O Forte do Bugio, equipado com um farol, está construído sobre
um cabeço de areia no meio do Tejo, perto da foz do rio, em frente a
S. Julião da Barra. O ilhéu, antigamente chamado Cabeça Seca, é
correntemente conhecido por Bugio, tal como o forte, que oficialmente
dá pelo nome bem português de Fortaleza de S. Lourenço da Cabeça
Seca (ufff!). A fortificação, de forma circular, foi mandada construir no
reinado de Filipe II de Espanha, nos finais do século XVI. Tal como 
hoje sói acontecer, a construção arrastou-se um bocadinho. Iniciadas
as obras em 1590, cinquenta aninhos depois, em 1640, ainda não
estavam completadas. Com a feliz Restauração, os trabalhos
arrancaram a bom ritmo, pois escassos dezassete anos volvidos, em
1657, parece que terminaram. Segundo fiáveis indícios, no final do
éculo XVII o forte dispunha já duma “estrutura faroleira” que, no
início do reinado de D. José, sabemos que funcionava a azeite.
O terramoto de 1755 deu cabo da torre e respectiva candeia de azeite,
mandando então o ministro Sebastião José de Carvalho construir um
farol a sério, que só entrou em funcionamento em 1775.

- Diogo Alves foi um conhecido criminoso do séc. XIX que roubou e
matou pessoas atirando-as do alto do Aqueduto da Águas Livres.

- Manuel Peres Vigário terá sido o genial “inventor” do conto do
Vigário, pelo menos segundo Fernando Pessoa o sustentou no seu
artigo “Um grande português”, no diário Sol, n.º 1, de 30 de Outubro
de 1926, reeditado no Notícias Ilustrado de 18 de Agosto de 1929,
sob o título “A origem do conto do Vigário”.

- Como se pode constatar, o Prof. Louçã e o seu Bloco seguem hoje
as pisadas do “grupo exilado revolucionário do Bugio”. Não temos
dúvidas sobre em quem Pessoa votaria no nosso actual espectro
partidário, sobretudo depois duma visita ao Abel.


© Texto de José Barreto


Posted by J.B. at 15:53:01 | Permalink | No Comments »