v - Centrál Kávéház
Café Central, Budapeste, Hungria

1. Café Central, Budapeste, hoje.
É um histórico café literário da capital húngara, criado em 1887 com o mesmo nome do famoso café vienense que o antecedeu de onze anos. Após a II Guerra Mundial esteve 50 anos fechado, mas reabriu em 2000. Dá pelo nome de Café Central, com esta grafia e várias pronúncias possíveis, ou Centrál Kávéház, na língua local. Em tempos ostentou também na sua fachada a designação Central Kaffehaus, em alemão, para maior semelhança com o café de Viena.

2. O edifício do Café Central em 1887, no ano seguinte à abertura
Viena e Budapeste eram, desde 1867, as duas capitais, embora só a primeira oficialmente, da Monarquia Austro-Húngara, monarquia dual, bicéfala, kaiserlich und königliche, imperial (austríaca) e real (húngara), criada para mudar a aparência do Império Austríaco e torná-lo mais tolerável para algumas das quinze nacionalidades que albergava sob a sua manta de retalhos balcânica. Budapeste procurava imitar Viena em tudo, nomeadamente na arquitectura e urbanismo, na actividade comercial e na vida literária e artística. Nestas últimas áreas, em ambas as cidades - como também na Praga de Kafka - fazia-se sentir uma forte influência da minoria judaica.
Local de reunião de escritores, jornalistas e intelectuais durante mais de meio século, o Café Central de Budapeste foi um dos principais centros da moderna vida literária húngara. Durante longos anos, ali reuniam e trabalhavam os redactores e colaboradores do jornal A Hét (A Semana), publicado a partir de de 1890, e da revista Nyugat (Ocidente), iniciada em 1908. Foram as duas publicações literárias mais importantes da Hungria do final do séc. XIX e primeira metade do século XX. Depois da 1945, foi também do Café Central que saíu a revista Újhold (Lua Nova). Muitos outros periódicos húngaros tiveram como redacção as mesas dos cafés de Budapeste. No caso do Central, a localização dava especial jeito, porque a tipografia Athenaeum era do outro lado da rua.

3. O interior em 1910. As cadeiras serviram de modelo às de hoje. Foto: György Klösz
Após a II Guerra Mundial, que devastou grande parte da capital, o Café Central foi degradado a cafetaria de meia tigela com serviço de balcão - uma coisa a que a anglofonia chama espresso bar e os húngaros se habituaram a chamar simplesmente eszpresszó. A arquitectura interior e exterior foi afectada e o local ficou irreconhecível. Em 1949, o recém-instaurado regime comunista encerrou o que restava do café, reflexo também da supressão da iniciativa privada e das liberdades de reunião e expressão. Café literário não rimava muito com totalitarismo.

4. Estado irreconhecível do Café Central em 1946-1949. Repare-se na miseranda “esplanada”.
Durante o meio século seguinte, o rés-do-chão do edifício teve utilizações várias, consoante a tendência política de cada período. Foi sede, no tempo do estalinismo puro e duro, da Companhia Nacional de Paprika, empresa estatal com o monopólio do comércio da malagueta e colorau! Passou, depois da revolta de 1956, a cantina dos trabalhadores de construção do Metro e, a partir de 1965, a club de estudantes universitários. Foi salão de jogos electrónicos no imediato pós-comunismo. Ao longo de meio século, a destruição do local tornou-se praticamente irreversível. Apenas algumas fotografias coevas, sobretudo as de György Klösz (1844-1913), permitiram conservar uma leve memória dos tempos gloriosos do Central.
O edifício foi comprado no final dos anos 90 por Imre Somody, um milionário húngaro formado no tempo da economia socialista e filantropo emérito, alvo entretanto de distinções várias , como “empresário do ano” e “homem do ano”. Com o seu dinheiro e crédito bancário, o prédio foi todo restaurado por dentro e por fora e o rés-do-chão devolvido à sua função e pompa originais. Isso foi feito entre 1997 e 1999, no respeito, sempre que possível, da traça e atmosfera originais, mas com recurso a soluções renovadoras, sob a direcção do arquitecto Gábor Gereben, que também foi o grande impulsionador da ideia de reconstrução do café. A obra custou cerca de um milhão e meio de euros, não contando com o restauro do exterior e dos andares superiores, destinados a escritórios. O investimento, que não foi certamente feito para perder dinheiro, teve também um lado simbólico, de ressonância política: mostrar como regressa pelo seu próprio pé aquilo que o comunismo varreu.
Depois da inauguração solene, que teve lugar em Janeiro de 2000 com a presença do burgomestre Demszky e do primeiro ministro Orbán, a chave do novo Central foi lançada pelo proprietário ao Danúbio gelado, para que as portas do café jamais voltem a fechar, de acordo com uma tradição iniciada um século antes pelos clientes do New York Kávéház - outro café literário histórico de Budapeste.

5. Café Central hoje: um recanto cheio de luz à espera de clientes.

6. Outro recanto, depois da hora de fecho.
Fonte das imagens: entropybound, www.flickr.com (foto 1.); “Centrál Kávéház”, em http://www.centralkavehaz.hu e István Pertl, “Centrál Kávéház”, em http://www.dura.hu/pertl/central/central.html , (fotos 2.-6.).
© Texto de José Barreto.
