Tuesday, August 8, 2006

vi - Comunismo e salazarismo

Cafés no comunismo e no salazarismo

Errado seria pensar, depois do que ficou dito sobre o Café Central de Budapest, que o comunismo foi o grande responsável pelo encerramento dos cafés históricos da cidade. O Café Abbazia, por exemplo, fundado em 1888, tendo atravessado duas guerras europeias e persistido ao longo dos anos de comunismo, foi encerrado e ocupado por um banco já no período pós-comunista. Os cafés Emke (fundado no séc. XIX) e Astoria (1914) mantiveram-se durante os quarenta anos de comunismo e ainda hoje continuam abertos. Na verdade, o regime comunista pós-stalinista de János Kádár (1956-1988) conservou estes e outros cafés e utilizou-os, nomeadamente, como locais de espionagem dos oposicionistas.

Nas duas fotos abaixo, vê-se o grande escritor húngaro István Örkény, autor de Contos de Um Minuto  (obra recentemente traduzida por Piroska Felkai para a editora Cavalo de Ferro sob o título de Histórias de 1 Minuto *) a ser espiado e fotografado num café de Budapeste, em 1958, por agentes da bófia vermelha equipados de máquina fotográfica.  

1. Örkény espiado por agentes do BM num café de Budapeste em 1958

2. Uma pilha de scones salgados (pogácsa) dissimula a câmara do bófia.

A polícia política do período Kádár era simplesmente designada por BM, iniciais de Belügyminisztérium, ou seja, Ministério do Interior. Após a revolta de 1956, de que resultou a morte de milhares de húngaros às mãos do ocupante soviético, a polícia política foi reorganizada e integrada no seio daquele ministério como um discreto serviço de segurança do Estado, para evitar uma sigla odiosa como a do AVH (Departamento de Defesa do Estado), seu famigerado antecessor no período stalinista de 1949 a 1953.

Esta acção de vigilância policial sobre o escritor estava relacionada com a actividade de um grupo de intelectuais que, no período que sucedeu à revolta húngara de 1956 contra o regime comunista, redigia textos políticos que depois, sob vários pseudónimos, colocava no Ocidente. A investigação conduziu à detenção de vários escritores e à sua condenação, em 1959, a vários anos de prisão, caso de Tibor Déry. Mais cuidadoso, Örkény não foi condenado, mas, na dúvida, não lhe deixaram publicar nada até 1963. Os Contos de um minuto são produto do “trabalho para a gaveta” dessa época.

3. Déry e Örkény, dois grandes nomes da literatura húngara do século XX

Em Portugal, como na Hungria e demais países europeus, foram muitas vezes não as autoridades, mas bancos e outros comércios que encerraram cafés tradicionais no centro das cidades. Raros cafés desapareceram por razões políticas, à excepção, talvez, da Alemanha no período nazi, por razões sobretudo raciais. O salazarismo não revelou qualquer sanha política especial contra os cafés, pois estes, como também aconteceu no comunismo, eram bom terreno de caça para os informadores da polícia política. Num aliás péssimo filme de propaganda política do Estado Novo intitulado “A Revolução de Maio” (1937), de António Lopes Ribeiro, com argumento dele e de António Ferro, lá está um bófia da PVDE num café ou taberna a fingir que dorme numa mesa, enquanto ouve conversas de “conspiradores” na mesa ao lado. Que eu saiba, é a única representação de um agente da PVDE/PIDE/DGS em 40 anos de cinema sob o Estado Novo…

Por vezes, o trabalho dos bufos era ingrato. Luís Pacheco contou um episódio caricato. Um criado de mesa do Café Gelo, no Rossio, conhecido por ser bufo da PIDE, teve o azar de levar umas injustas bastonadas dadas por agentes da PSP, seus supostos aliados, quando estes entraram pelo café adentro a bater a torto e a direito, durante a manifestação do 1.º de Maio de 1962. Os clientes do café ripostaram lançando à cabeça dos agressores os açucareiros metálicos esféricos que havia em cima das mesas. Vários dos escritores e artistas implicados no contra-ataque, Luís Pacheco incluído, foram proibidos de voltar ao Café Gelo. Aproveitaram, então, para assentar arraiais no Café Montecarlo, ao Saldanha, um sítio mais arejado. Dali a não muito tempo, o Gelo fechou.

Foi paradoxalmente sob o Estado Novo de Salazar, embora não por desígnio político ou obra do governo, que começou o encerramento em série dos cafés, locais de convivialidade sacrificados a actividades supostamente mais rendosas do que a bica vendida a dez ou quinze tostões. O 25 de Abril pouco terá alterado nessa tendência destrutiva, creio eu. O primeiro político da III República a tentar impedir o encerramento em série dos cafés da Baixa lisboeta foi o presidente da câmara engenheiro Krus Abecassis. Muito por sua intervenção, o preço da bica foi liberalizado (!) para permitir a sobrevivência dos últimos locais históricos e promover a criação de esplanadas. Que Deus lhe perdoe, por isso, o “arranjo” que fez nos anos 80 na Rua do Carmo, que ia provocando a destruição de toda a Baixa pelo fogo…

Nota

*  Prefiro o título Contos de Um Minuto, que também lhe foi dado já por Ernesto Rodrigues, autor de traduções directas para português de várias obras húngaras, entra as quais uma selecção de 35 dos Contos de Um Minuto, publicada em 1983 pela editora Bico d’Obra.

Fonte das fotos: Az 1956-os Magyar Forradalom Történetének Dokumentációs és Kutatóintézete Közalapítvány (Fundação

Instituto de Investigação e Documentação sobre História da Revolução Húngara de 1956), http://www.rev.hu .

  

© Texto de José Barreto.

Posted by J.B. in 19:36:54
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