Friday, September 29, 2006

viii - Café Chiado


Café Chiado


O desaparecido Café Chiado ficava na Rua Garrett, do lado da Brasileira, mas mais lá para baixo, perto de onde antigamente ficara o Café Marrare (ou “Marrare de Polimento”) que deu o nome ao Bife à Marrare, e onde hoje não fica nada, a não ser uma entrada suja para um espaço igualmente sujo com uma escada rolante desde sempre parada que dá acesso a um estacionamento.


Transcrevo de seguida
um fragmento de um texto de Fernando Correia da Silva sobre Mário Pinto de Andrade, retirado do site Vidas Lusófonas. Gosto das pinceladas rápidas com que retrata o ambiente dum “café literário” da Baixa lisboeta em 1951. Para quem não sabe, Mário Pinto de Andrade foi fundador do MPLA e seu presidente em 1960-62. Fundou, em 1974, a Revolta Activa, em oposição aos métodos ditatoriais do líder Agostinho Neto. Após a independência, foi obrigado a exilar-se.


«Na Rua Garrett, em Lisboa, o Café Chiado é uma gruta mágica. Para além da estudantada, ali abancam os surrealistas Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neill e Mário Henrique Leiria. Também os artistas plásticos Ribeiro Pavia, João Abel Manta, António Alfredo, o escultor José Dias Coelho. E ainda dois pretinhos angolanos, o Agostinho Neto que estuda Medicina e o Mário Pinto de Andrade que estuda Filologia Clássica, juntamente com o seu irmão Joaquim. O Agostinho é cara de pau, estou em crer que os seus lábios jamais ameaçaram sorrir. Justamente o contrário do Mário, que dá tudo o que pode por uma boa gargalhada. A este faço a vontade. Estamos em Janeiro de 1951 e faz muito frio. Digo, para quem me queira ouvir:

− Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.

À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho, obviamente.

Mário Pinto de Andrade em 1971

Agostinho Neto estudante

Insisto, quero verificar as diferenças até ao fim. Há um frequentador do Café, um homem de meia idade, com físico e cara de Buda. Tem um parafuso desapertado. Se ninguém lhe dá palavra, fica as tardes a contemplar uma chávena vazia de café. Chamo-lhe Sr. Engenheiro mas não sei se engenheiro ele é. Meto conversa, gosto das suas respostas que, normalmente, perdem o norte.

− Então, Sr. Engenheiro, onde é que foi ontem?

− Ontem fui à Feira Popular.

− Fazer o quê?

− Fui à montanha russa.

− E depois?

− Aquilo subiu, subiu, subiu e, lá no alto, parou.

− E depois?

− Depois começa a descer, a descer, a descer, ai que aflição.

− E depois?

− Depois chego cá abaixo e como um bife com batatas fritas.

Gargalhadas, o Mário mais que todos. O Agostinho continua impávido, rigidez.

Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:

− Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.

− Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro…

− A ver vamos se é mania ou intuição…»

Fonte: “Café Chiado”, http://www.vidaslusofonas.pt/mario_pinto_andrade.htm

© Fernando Correia da Silva

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Wednesday, September 13, 2006

vii - George Steiner

A Europa dos Cafés

George Steiner disse que a ideia de Europa resulta de cinco critérios, dos quais o primeiro seria a existência de cafés. Ouçam-no:

“A Europa é feita de cafés. Do café preferido de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nas suas deambulações meditativas, aos balcões de Palermo. Não há cafés históricos em Moscovo, que é já periferia da Ásia. Poucos em Inglaterra, após uma moda efémera no século XVIII. Nenhum na América do Norte, para além do posto-avançado gaulês que é Nova Orleães. Desenhe-se o mapa dos cafés, ter-se-á uma das balizas essenciais da ideia de Europa.” (The Idea of Europe, 2003, minha tradução, porque a da editorial Gradiva é simplesmente ridícula).

Não interessam agora aqui os outros quatro critérios steinerianos da ideia de Europa, que, por isso, omito. Não perdem nada.

Claro que o dito de Steiner é, no mínimo, superficial. Uma generalização inaceitável agravada por escassos conhecimentos da história do café e dos cafés. Talvez tenha qualquer coisinha de verdade, como boa mentira que se preza. Mas uma verdade bastante desactualizada, diga-se.

 

Café El Fishawy, Cairo

O facto é que os cafés, para começar, apareceram no Médio Oriente, do Iémene à Arábia, do Cairo à Síria, tendo entrado na Europa pela Turquia. Já não falo da bebida, o café propriamente dito, nem do cafeeiro, arbusto ou árvore originário da região de Kava, na Etiópia. Na origem, pois, o café e os cafés não eram europeus. Conversava-se lá horas a fio, massajava-se os dedos dos pés, recitava-se poesia, jogava-se xadrez, bebia-se café, sorvia-se chá e fumava-se narguilé. Poderá talvez objectar-se que esses cafés orientais seriam muito diferentes dos posteriores cafés europeus. Não sei se será tanto assim. Tudo depende daquilo que convencionarmos como definição do café. Nos primeiros locais europeus também não entravam mulheres e também houve cafés encerrados pelas autoridades em Londres e Paris antes de se tornarem numa instituição aceite. Em todo o caso, os cafés europeus do século XVIII e XIX eram muito diferentes dos actuais. E os cafés europeus de hoje são muito diferentes entre si, como lembrou o sociólogo Ralf Dahrendorf a propósito, justamente, da tese de Steiner. Ora ouçam-no:

“Na realidade, o café vienense, o café italiano e a cafetaria sueca são muito diferentes. Além disso, hoje, com o Starbucks e o Café Nero em todas as esquinas de Inglaterra, os cafés já não são excessivamente europeus” (conferência “Being a Secular European”,  European Studies Centre, Oxford, 10 de Maio de 2006.)

Nem na origem os cafés foram “excessivamente europeus”, Sir Ralf.

Café turco em Rutchuk - gravura por William Beattie, em The Danube, 1842

Ou seja: a pontinha de verdade na tese de Steiner é que ainda hoje na Europa alguns poucos cafés que talvez não haja - sem que possamos ter a certeza disso - na América, na Ásia ou na África. São os cafés históricos, os cafés literários, sítios às vezes impróprios para se respirar, para se comer e até para se tomar o melhor café, mas muito adequados à vida social dos escritores, artistas, jornalistas, políticos e toda a espécie de mexeriqueiros que veiculam notícias, verdadeiras ou falsas. Sítios onde tabuleiros de jogos e uma colecção de jornais do dia sinalizam um ritmo de vida alheio a relógios e ao stress. Sítios onde se começa a namorar, antes de se ir à cama, e onde se volta depois, para exibir a intimidade adquirida. Sítios onde hoje já se entornam bicas sobre laptops com ligação à internet de banda larga.

Mas o velho Steiner está preparado para se defender de qualquer argumento. Se nós lhe mostrarmos os belos cafés de Buenos Aires ou os mais típicos e antigos cafés do Cairo, o homem dirá, certamente, que são enclaves de cultura europeia.

 

Café Tortoni, Buenos Aires

© Texto de José Barreto

Posted by J.B. at 12:12:37 | Permalink | No Comments »