Wednesday, September 13, 2006

vii - George Steiner

A Europa dos Cafés

George Steiner disse que a ideia de Europa resulta de cinco critérios, dos quais o primeiro seria a existência de cafés. Ouçam-no:

“A Europa é feita de cafés. Do café preferido de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nas suas deambulações meditativas, aos balcões de Palermo. Não há cafés históricos em Moscovo, que é já periferia da Ásia. Poucos em Inglaterra, após uma moda efémera no século XVIII. Nenhum na América do Norte, para além do posto-avançado gaulês que é Nova Orleães. Desenhe-se o mapa dos cafés, ter-se-á uma das balizas essenciais da ideia de Europa.” (The Idea of Europe, 2003, minha tradução, porque a da editorial Gradiva é simplesmente ridícula).

Não interessam agora aqui os outros quatro critérios steinerianos da ideia de Europa, que, por isso, omito. Não perdem nada.

Claro que o dito de Steiner é, no mínimo, superficial. Uma generalização inaceitável agravada por escassos conhecimentos da história do café e dos cafés. Talvez tenha qualquer coisinha de verdade, como boa mentira que se preza. Mas uma verdade bastante desactualizada, diga-se.

 

Café El Fishawy, Cairo

O facto é que os cafés, para começar, apareceram no Médio Oriente, do Iémene à Arábia, do Cairo à Síria, tendo entrado na Europa pela Turquia. Já não falo da bebida, o café propriamente dito, nem do cafeeiro, arbusto ou árvore originário da região de Kava, na Etiópia. Na origem, pois, o café e os cafés não eram europeus. Conversava-se lá horas a fio, massajava-se os dedos dos pés, recitava-se poesia, jogava-se xadrez, bebia-se café, sorvia-se chá e fumava-se narguilé. Poderá talvez objectar-se que esses cafés orientais seriam muito diferentes dos posteriores cafés europeus. Não sei se será tanto assim. Tudo depende daquilo que convencionarmos como definição do café. Nos primeiros locais europeus também não entravam mulheres e também houve cafés encerrados pelas autoridades em Londres e Paris antes de se tornarem numa instituição aceite. Em todo o caso, os cafés europeus do século XVIII e XIX eram muito diferentes dos actuais. E os cafés europeus de hoje são muito diferentes entre si, como lembrou o sociólogo Ralf Dahrendorf a propósito, justamente, da tese de Steiner. Ora ouçam-no:

“Na realidade, o café vienense, o café italiano e a cafetaria sueca são muito diferentes. Além disso, hoje, com o Starbucks e o Café Nero em todas as esquinas de Inglaterra, os cafés já não são excessivamente europeus” (conferência “Being a Secular European”,  European Studies Centre, Oxford, 10 de Maio de 2006.)

Nem na origem os cafés foram “excessivamente europeus”, Sir Ralf.

Café turco em Rutchuk - gravura por William Beattie, em The Danube, 1842

Ou seja: a pontinha de verdade na tese de Steiner é que ainda hoje na Europa alguns poucos cafés que talvez não haja - sem que possamos ter a certeza disso - na América, na Ásia ou na África. São os cafés históricos, os cafés literários, sítios às vezes impróprios para se respirar, para se comer e até para se tomar o melhor café, mas muito adequados à vida social dos escritores, artistas, jornalistas, políticos e toda a espécie de mexeriqueiros que veiculam notícias, verdadeiras ou falsas. Sítios onde tabuleiros de jogos e uma colecção de jornais do dia sinalizam um ritmo de vida alheio a relógios e ao stress. Sítios onde se começa a namorar, antes de se ir à cama, e onde se volta depois, para exibir a intimidade adquirida. Sítios onde hoje já se entornam bicas sobre laptops com ligação à internet de banda larga.

Mas o velho Steiner está preparado para se defender de qualquer argumento. Se nós lhe mostrarmos os belos cafés de Buenos Aires ou os mais típicos e antigos cafés do Cairo, o homem dirá, certamente, que são enclaves de cultura europeia.

 

Café Tortoni, Buenos Aires

© Texto de José Barreto

Posted by J.B. in 12:12:37 | Permalink | No Comments »