viii - Café Chiado
Café Chiado
O desaparecido Café Chiado ficava na Rua Garrett, do lado da Brasileira, mas mais lá para baixo, perto de onde antigamente ficara o Café Marrare (ou “Marrare de Polimento”) que deu o nome ao Bife à Marrare, e onde hoje não fica nada, a não ser uma entrada suja para um espaço igualmente sujo com uma escada rolante desde sempre parada que dá acesso a um estacionamento.
Transcrevo de seguida um fragmento de um texto de Fernando Correia da Silva sobre Mário Pinto de Andrade, retirado do site Vidas Lusófonas. Gosto das pinceladas rápidas com que retrata o ambiente dum “café literário” da Baixa lisboeta em 1951. Para quem não sabe, Mário Pinto de Andrade foi fundador do MPLA e seu presidente em 1960-62. Fundou, em 1974, a Revolta Activa, em oposição aos métodos ditatoriais do líder Agostinho Neto. Após a independência, foi obrigado a exilar-se.
«Na Rua Garrett, em Lisboa, o Café Chiado é uma gruta mágica. Para além da estudantada, ali abancam os surrealistas Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neill e Mário Henrique Leiria. Também os artistas plásticos Ribeiro Pavia, João Abel Manta, António Alfredo, o escultor José Dias Coelho. E ainda dois pretinhos angolanos, o Agostinho Neto que estuda Medicina e o Mário Pinto de Andrade que estuda Filologia Clássica, juntamente com o seu irmão Joaquim. O Agostinho é cara de pau, estou em crer que os seus lábios jamais ameaçaram sorrir. Justamente o contrário do Mário, que dá tudo o que pode por uma boa gargalhada. A este faço a vontade. Estamos em Janeiro de 1951 e faz muito frio. Digo, para quem me queira ouvir:
− Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.
À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho, obviamente.

Mário Pinto de Andrade em 1971
Agostinho Neto estudante
Insisto, quero verificar as diferenças até ao fim. Há um frequentador do Café, um homem de meia idade, com físico e cara de Buda. Tem um parafuso desapertado. Se ninguém lhe dá palavra, fica as tardes a contemplar uma chávena vazia de café. Chamo-lhe Sr. Engenheiro mas não sei se engenheiro ele é. Meto conversa, gosto das suas respostas que, normalmente, perdem o norte.
− Então, Sr. Engenheiro, onde é que foi ontem?
− Ontem fui à Feira Popular.
− Fazer o quê?
− Fui à montanha russa.
− E depois?
− Aquilo subiu, subiu, subiu e, lá no alto, parou.
− E depois?
− Depois começa a descer, a descer, a descer, ai que aflição.
− E depois?
− Depois chego cá abaixo e como um bife com batatas fritas.
Gargalhadas, o Mário mais que todos. O Agostinho continua impávido, rigidez.
Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:
− Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.
− Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro…
− A ver vamos se é mania ou intuição…»
Fonte: “Café Chiado”, http://www.vidaslusofonas.pt/mario_pinto_andrade.htm
© Fernando Correia da Silva