Sunday, October 22, 2006

x - Antoine Galland

O primeiro historiador europeu do café

Antoine Galland (1646-1715)

Antoine Galland regressou de uma das suas viagens ao Médio Oriente com uma colecção de “contos árabes” na bagagem. Seleccionou-os, traduziu-os, adaptou-os com alguma liberdade e publicou-os em Paris, a partir de 1704, em estreia mundial, sob o título Les Mille et une nuits. A avaliar pelas edições quase dois séculos posteriores de Sir Richard Francis Burton (1885-88) e do franco-egípcio Dr. Mardrus (1899), a versão de Galland, sujeita aos cânones censórios da sua época, subtraiu aos contos orientais bastante do seu carácter genuíno e picante erótico, razão pela qual foi sendo gradualmente preterida em favor das edições que se seguiram.

Diga-se que, numa homenagem ao trabalho pioneiro de Galland e para marcar o tricentenário da primeira edição, a Bibliothèque de la Pléiade publicou muito recentemente uma tradução francesa inteiramente nova, a partir dum manuscrito egípcio, na habitual edição luxuosa em papel de bíblia, em três volumes. Os autores desta nova versão francesa são os professores Jamel Eddine Bencheikh e André Miquel, ambos poetas também.

Orientalista, arabista, filólogo conhecedor do turco, do hebreu e do persa, numismata e primeiro antiquário de Luís XIV, tais eram algumas das credenciais do senhor Antoine Galland, que é considerado o iniciador, no começo do século XVIII, do gosto europeu do exotismo oriental. O “impulso decisivo” do orientalismo, escreveu Maxime Rodinson, foi de Galland, que já em 1697 publicara a Bibliothèque orientale de Barthélemy d’Herbelot, primeira versão da Encyclopédie de l’Islam. A influência das Mil e Uma Noites foi, contudo, enorme. A partir de então, “o mundo muçulmano deixou de aparecer como o domínio do Anticristo, para passar essencialmente a ser o lugar de uma civilização exótica, pitoresca, mergulhada numa atmosfera fabulosa povoada por génios caprichosos, bons ou maus, encantando um público que os contos de fadas europeus já tanto haviam cativado” (Maxime Rodinson, La fascination de l’Islam, 1980).

 

Manuscrito das Mil e Uma Noites do séc. XIV

As Mil e Uma Noites são uma colectânea engendrada ao longo de séculos, com porções oriundas de diversas procedências e alguns contos (Aladino, Ali Babá) acrescentados pelo próprio Galland, que os terá recolhido do relato oral de um sírio. Há, na origem, segundo maioritariamente se crê, um núcleo primitivo de contos e lendas indo-persas duma época pré-islâmica, com sucessivos acréscimos árabes do tempo do califado de Bagdad, tudo revisto, adaptado e traduzido por compiladores sírios ou egípcios dos séculos XI-XII. Não há um original único, mas sim cerca de 70 manuscritos “originais” conhecidos, com inúmeras variantes. Na edição Galland, a personagem unificadora de Shéhérazade (Shahrazad, no persa, Xerezade em português) saíu em parte da cabeça do autor-tradutor, directamente inspirada em duas damas palacianas francesas, porque a figura original de Xerezade carecia de suficiente corpo e espírito. Foi, assim, Galland o verdadeiro Ali Babá que, com um “abre-te sésamo!” de fantasia, conduziu, de facto, os europeus ao tesouro de literatura Oriental.

Acontece que, alguns anos antes das Mil e Uma Noites, em 1699, já Galland tinha publicado em Paris uma outra obra, mais maneirinha e de objecto bem diverso, muito mais real, intitulada De l’Origine et du progrès du café. O livrito, da sua autoria, era em parte fundado numa história turca em que se relatava a introdução e recepção do café em Constantinopla e, em outra parte, num manuscrito árabe pertencente à biblioteca do rei de França que continha “uma apologia do café contra certos doutores maometanos que pretendiam que a bebida fosse interdita aos muçulmanos”. Apetitoso livrinho, pois, neste nosso tempo de crescente fanatismo islâmico - e, ainda, de bastante fanatismo cristão.


Turcos bebendo café

A origem da palavra café, considerações geográficas e botânicas em torno deste arbusto e da sua baga, os debates sobre os efeitos da bebida na mente, na saúde e no comportamento, tudo isso são assuntos pertinentemente tratados em Da Origem e Progresso do Café. O mais interessante que ali encontrei foram, todavia, os relatos sobre o Café, enquanto local público onde a bebida era tomada, não privadamente, mas em companhia, por pessoas de eras e paragens remotas, em que o consumo de café se implantou muito antes de chegar à Europa. Igualmente interessante achei a história das tentativas de certos cadis, sultões, muftis, imãs e vizires para encerrar os cafés e erradicar o consumo da bebida por razões diversas, mas quase sempre de pretexto religioso.

Conta Galland que, segundo o manuscrito árabe da biblioteca real francesa, da autoria de um tal Abdalcader, que copiou dum tal Shehabeddin Ben, o uso de beber café fora trazido para a Arábia Feliz, actual Iémen, por um viajante iemenita, o virtuoso e devoto Gemaleddin, ou Jamal al-Din, mufti de Aden em meados do século nono da Hégira, ou seja, século XV da era cristã. Peço desculpa pela confusão de nomes que para aí vai, mas sempre dão um ar erudito ao meu relato. Em viagem pela Pérsia, Gemaleddin teria visto conterrâneos seus a fazer uso dessa bebida, dele desconhecida até então. Produto originário da Etiópia, onde se cultivava e se bebia (e comia), segundo parece, desde tempos imemoriais, o café popularizar-se-ia depressa em Aden, graças também à autoridade do chefe religioso que o introduzira e divulgara. O devoto Gemaleddin e os seus dervixes tomavam café, diziam, para vencerem o sono e prolongarem noite fora as suas orações. Mas o mufti sabia de outras aplicações da infusão, nomeadamente contra a enxaqueca, contra “fumos” ou “vapores” que subiam à cabeça e provocavam sono (se não for haxixe, não faço ideia do que isto possa ser) e contra outras indisposições. As casas de café foram abrindo em Aden e o café sendo bebido pela população, sem qualquer obstáculo ou problema. O nome deste Gemaleddin, que morreu em 1470, é hoje conhecido porque a partir dele o café tem história. Se não tivéssemos, para atestar a sua existência, o manuscrito árabe da Bibliothèque Nationale, poderíamos supor tratar-se de um milésimo segundo conto de Galland.

De Aden, o uso do café foi levado por dervixes iemenitas para Meca e Medina, na Arábia, onde registou igual êxito. Dali, no princípio do século XVI, o hábito do seu consumo emigrou para o Cairo, seguindo depois para Damasco e Alepo. Finalmente, da Síria rumou para Constantinopla ou Istambul, capital do Império Otomano e portão da Europa, onde fez a sua solene entrada em 1554, sendo imperador Suleyman (Solimão) o Magnífico. Nesse ano, as duas primeiras casas de café de Constantinopla foram abertas por negociantes sírios, um de Damasco, outro de Alepo.

Cerimónia do café - Palestina, ca. 1900. Moagem de almofariz.

Mas vamos mais devagar. Em Meca, aonde o café chegou proveniente de Aden, começaram igualmente por ser os devotos, como acontecera no Iémen, os primeiros a tomarem a bebida, fazendo-o em conjunto, nomeadamente no interior da mesquita, alegando sempre o benefício de permitir a oração pela noite adentro. Podemos imaginar que, já nesses tempos, a dissipação do sono deveria ser propícia à prossecução de outras actividades menos pias, como conversar, jogar xadrez, cantar, dançar e rir - que era, mais ou menos, o que a breve trecho se fazia nas casas de café por toda a Arábia, para não falar do que se podia fazer em casa, não se estando a dormir.

Daí a pensar que o café poderia ser uma espécie de vinho, que levasse as pessoas a enebriar-se e a fazer coisas proibidas pela lei muçulmana, ia um passo grande, que só um fanático autoritário, hoje dizemos fundamentalista, poderia dar. Em 1511, Khair Beg, governador de Meca por delegação do sultão do Egipto, deu esse passo. Tomado de um súbito zelo religioso e administrativo, expulsou os dervixes cafeinómanos da mesquita mais sagrada do Islão, convocou os doutores da lei e anunciou a sua intenção de proibir a bebida, sob suspeita de provocar alegria e desordens e de ser contrária aos ensinamentos do Profeta. Os jurisconsultos reunidos, talvez por já gostarem do seu cafezinho, aconselharam o governador a solicitar um parecer médico, pois tinham dúvidas sobre os alegados malefícios do café, resultando ele do fruto de uma árvore criada por Deus. Se fosse só pelas desordens advenientes do seu consumo público, disseram, talvez se pudesse permitir o seu consumo privado. Mas os sábios curandeiros consultados por Khair Beg, uns irmãos persas que a esse tempo dominavam o panorama médico de Meca, alimentavam um preconceito qualquer a respeito do café, tendo um deles escrito já contra ele um duro requisitório. O parecer dos persas foi no sentido de banir o consumo público ou privado da infusão, pois que, na dúvida sobre se a religião proibia a coisa ou se esta lhe era indiferente, o mais prudente era proibi-la. Encorajados por argumento tão coxo, houve logo na assembleia convocada pelo governador uns idiotas zelosos que começaram a desfiar um rol de imaginários malefícios da bebida, chegando um a assegurar que o café proporcionava uma bebedeira igualzinha à do vinho. Ouvindo isto, um atento doutor da lei recomendou que de imediato fossem aplicadas oitenta vergastadas ao preopinante, pois que ao dissertar sobre os efeitos comparados do café e do vinho, tinha implicitamente confessado que infringira a lei maometana de não beber álcool. A assembleia, porém, inclinou-se servilmente para a opinião do poderoso que a convocara e, assim, o café foi alvo de uma interdição formal e total, sob as mesmas penas das infracções às leis da religião muçulmana (vergastadas, normalmente).

Esta deficiente lógica proibicionista, amparada por acusações de infidelidade a quem a não acatasse como doutrina do Profeta, esteve prestes a triunfar e alastrar por toda a Arábia. As casas de café começaram a ser encerradas, o grão de café foi sendo apreendido e queimado. Um muçulmano apanhado em sua casa a saborear uma taça do dito, foi severamente punido e passeado vexatoriamente em cima dum burro pelas praças públicas. Só que, pouco tempo depois, no Cairo, o sultão Cansú, posto ao corrente da interdição, desaprovou a medida do governador Khair Beg. Admirando-se de este ter tido o desplante de proibir em Meca a infusão que, entretanto, já conquistara a boa sociedade do Cairo, Cansú ordenou de imediato a revogação da medida. Foi só a primeira má notícia para Khair Beg pois, no ano seguinte, o Cairo expediu novo governador para Meca que, instruído sobre os desmandos e roubos do seu antecessor, logo decidiu submetê-lo a tortura para lhe fazer devolver as receitas desviadas. Consta que o irmão de Khair Beg, para o poupar ao suplício, o matou ele próprio à paulada (a crónica não refere se o dinheiro foi encontrado e por quem). Quanto aos médicos persas caídos em descrédito, julgaram por bem fazer a trouxa e mudar-se para o Cairo, na esperança de um futuro melhor. Pouco depois de lá chegados, porém, o sultão turco Salim I, novíssimo senhor do Egipto que viera ao Cairo tomar posse da sua conquista, informado de que os irmãos persas tinham proferido imprecações contra a sua pessoa, mandou expeditamente matá-los. A moral da história, até aqui, é a de que não se deve - nem se pode impunemente - dizer mal do café.

A partir deste incidente, nunca mais ninguém em Meca foi impedido de tomar a sua dose diária de cafeína, descontando o facto, registado pelo minucioso cronista árabe da Biblioteca de Paris, de em 1524 um cadi ter mandado encerrar todos os cafés da cidade, por causa das desordens que ali se produziam, embora o consumo individual e caseiro continuasse livre. A coisa foi provisória, tendo o cadi morrido pouco depois - supomos que não por efeito da maldição do café, mas nunca se pode saber. O consumo público foi restabelecido e os cafés tornaram-se num espelho da boa ordem e modéstia muçulmanas.

Mas, se o problema ficou para todo o sempre resolvido em Meca, já no Cairo houve a registar várias tentativas de banir o café, sobretudo quando bebido em companhia, sob pretexto de provocar alterações de consciência, ocasionar desordens, constituir um prejuizo para a saúde, ser proibido pela lei muçulmana, etc. Por volta de 1534, um pregador duma mesquita do Cairo atiçou os ânimos contra o uso do café, que acusou das piores ignomínias. Os crentes, saindo da pregação, precipitaram-se sobre os primeiros locais onde ele era servido, partiram cafeteiras e tijelas e ainda distribuiram pancada por quem lá se encontrava. A questão alastrou à cidade, formando-se dois partidos, um pró, outro contra a bebida. O cadi em chefe reuniu então os doutores da lei e submeteu-lhes o diferendo, tendo estes sido de opinião que a conformidade do café com a lei e a religião muçulmana estava há muito estabelecida e que era necessário instruir os pregadores ignorantes para que, de futuro, não mais lançassem a dúvida nos espíritos débeis da populaça. O magistrado, que era da mesma opinião que os doutores que convocara, distribuiu então café por toda a assembleia e ele próprio tomou uma taça, confundindo assim definitivamente os inimigos da bebida.

Konstantin Makovsky - Café do Cairo, 1870s

Neste ponto, convém dizer que outro dos argumentos especiosos que os neuróticos inimigos do café sempre traziam à liça, era o de que o café, sendo torrado, se tranformava em carvão, substância proibida na alimentação dos muçulmanos pela lei corânica. Foi preciso fazer-lhes ver que o grão não era carbonizado, estando pois conforme aos ensinamentos do Profeta. Não desarmou isto ainda os adversários do café, que avançaram com outras objecções, como a circunstância de a bebida ser tomada em companhia ou em assembleias, “do mesmo modo que se bebe o vinho”. Calou-se-lhes a boca com o conhecido facto de Maomé ter bebido leite em companhia, “do mesmo modo que se bebe o café”. Diante de argumentos tão decisivos para mentes muçulmanas, acabaram-se as jeremiadas histéricas contra o café no Cairo e no Egipto. Refira-se, num parêntese, que hoje há 30.000 cafés na cidade do Cairo.

À medida, porém, que o uso do café foi avançando para a Europa, assim se iam repetindo os debates sobre a sua legalidade e conformidade com a religião. Chegado, como vimos, a Constantinopla em 1554, o café tornou-se logo muito procurado. Abriram numerosas casas de café, onde os clientes se acomodavam em estrados almofadados chamados sofás. A conversação, a leitura e declamação de poesia, a discussão literária e os jogos eram os principais atractivos proporcionados pelos locais. O êxito dos novos espaços estava também ligado a circunstâncias como o baixo preço de uma taça de café, a possibilidade de entrar e sair livremente, a oportunidade de contactar com pessoas para cuja convivência outro pretexto faltaria. Ao fim de alguns anos, o sucesso foi tal que os próprios funcionários, os paxás e os grandes senhores começaram a procurar as salas de café. Estamos aqui a seguir, via Antoine Galland, o relato histórico do turco Pitchevili, que viveu na primeira metade do século XVII e era natural da cidade de Pitchevi, ou seja, Pécs, na actual Hungria.

Foi então que os religiosos muçulmanos começaram a reparar que os cafés estavam cheios às horas da oração e as mesquitas vazias. Imãs e dervixes começaram a resmungar e, nas suas pregações, atiravam-se não só aos locais onde a bebida era tomada em companhia, como à própria bebida, que acusavam de contrária à lei maometana. A sanha anti-café foi tal, que houve pregadores que consideraram mais benigna e perdoável a frequência de lojas de bebidas do que a dos cafés. Novamente surgiu o argumento do carvão com que alegadamente era feita a bebida. Depois de muita insistência por parte dos imãs e dos pregadores, o mufti de Istambul fez-lhes a vontade e emitiu a proibição geral de se tomar café, em público ou em privado. Todas as casas de café foram fechadas, mas não se conseguiu erradicar o consumo de café, porque começou, de imediato, a tomar-se às escondidas, já que ninguém acreditava na bondade dos argumentos religiosos. A tolerância e a corrupção restauraram completamente o uso de café, cujo consumo até aumentou, graças à proibição. Um novo mufti revogou então a decisão anterior e a cafeinomania generalizou-se em Constantinopla, passando todos a beber, do grande senhor ao homem da rua, incluindo o mufti e os pregadores. Os grão-vizires tiraram das novas disposições sobre a bebida um considerável rendimento, pois estabeleceram eles próprios grande número de casas de café, que lhes rendiam dois sequins diários cada uma. Até aqui o testemunho do turco Pitchevili.

Turcos tomando café

Por meados do século XVII, na menoridade de Mehmet IV, ocorrendo a guerra de Candia (de 1645 em diante), o grão-vizir Kupruli decidiu encerrar todos os cafés de Constantinopla, que eram já umas centenas, alegando que se estavam a tornar em centros de boateira e livre discussão dos negócios públicos. Consta que Kupruli vestira um disfarce e visitara ele próprio alguns cafés, para escutar opiniões e informar-se sobre todos os assuntos que interessavam à governação. Constatou quão generalizado era o hábito de comentar e criticar com ligeireza os actos da sua administração, como se os frequentadores de café pudessem substituir com vantagem o Divan (conselho de governo do sultão, chefiado pelo grão-vizir). Acrescenta Antoine Galland que Kupruli, intransigente em relação aos cafés de Istambul, mostrou maior tolerância pelas casas de bebidas ou tabernas (chama-lhes cabarets), onde se continuou a consumir vinho, apesar de proibido pela lei e pela religião. Estas casas de bebidas eram mais frequentadas por soldados, que gostavam de cantar e divertir-se, achando o grão-vizir que isso era mais saudável do que porem-se a falar sobre o que não deviam ou amotinarem-se. Em 1699, à data da publicação de De l’Origine et du progrès du café, a supressão das casas de café de Constantinopla ainda se mantinha de pé, mas a bebida em si estava firme e definitivamente estabelecida no dia a dia dos habitantes.

© Texto de José Barreto

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Sunday, October 8, 2006

ix - Bocage

O vate rebelde do Nicola

Os cafés, botequins, tabernas e bares sempre foram sítios úteis à bufa. Já no século XVIII o celebrado Intendente Geral da Polícia, Contrabando e Descaminhos do Reino, Pina Manique, mandava os seus espiões, conhecidos por moscas, ao café Nicola e aos botequins e casas de pasto lisboetas saber notícias e recolher informações sobre sediciosos e afrancesados. Pina Manique foi, além de precursor da PIDE, o meritório fundador da Casa Pia, não nos esqueçamos. Um dos afrancesados que mandou espiar foi um famoso frequentador do Nicola e do antro jacobino do Botequim das Parras, chamado Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Bocage - óleo de Henrique José da Silva (1805)

Em Novembro de 1797, Pina Manique mandou prender o poeta libertino na cadeia do Limoeiro por ter escrito vários papéis “ímpios e sediciosos”, entre os quais a famosa epístola a Marília intitulada “Verdades duras”. Começava o poema com estes versos sobre o pavor do Inferno incutido nos povos pela Igreja - palavras pioneiras em língua portuguesa:

Pavorosa ilusão da Eternidade,
Terror dos vivos, cárcere dos mortos;
D’almas vãs sonho vão, chamado Inferno;
Sistema de política opressora,
Freio que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas:
Dogma funesto, detestável crença,

Que envenenas delícias inocentes (…)

O Intendente Diogo Inácio de Pina Manique

Gravura de G.F. Queirós, sobre pintura de Domingos Sequeira

A justiça de Pina Manique era com razão temida por Bocage, que também visara o Intendente nos seus versos clandestinos. Ajudado por gente mais ou menos poderosa, o poeta preso reclamou para o tribunal do Santo Ofício, que o salvou provisoriamente das garras do Intendente. Do Limoeiro passou, assim, à Inquisição (palácio dos Estaus, perto do actual Teatro Nacional) e daqui , em Fevereiro de 1798, para o mosteiro de S. Bento (actual Parlamento), onde os frades beneditinos o trataram com brandura. Pina Manique voltou a atacar e transferiu-o, em Março desse ano, novamente como “preso de Estado”, para o Hospício das Necessidades (actual Ministério dos Negócios Estrangeiros), com o fim de obter a sua reeducação, fazendo-o abandonar “todos os vícios e prostituições em que vivia escandalosamente”. O poeta da liberdade só recuperou a dita passados nove meses, a 31 de Dezembro de 1798, segundo consta de documento encontrado recentemente no arquivo da Casa Pia pelo biógrafo de Bocage, o brasileiro Adelto Gonçalves.

Na sua libertação, um paternal Pina Manique dotou o ex-boémio de amplo enxoval, no valor de 34$150 réis saídos do cofre da benemérita Casa. Não lhe faltaram o calção, a casaca, o capote, o chapéu, o lenço e o belo sapato de fivela. Como tratamento de preso político, é de fazer corar de vergonha o mau, rancoroso, mesquinho e somítico Salazar de século e meio depois, que certamente teria condenado o laxismo e despesismo do Intendente. Mas a generosidade de Pina Manique (e do Regente) premiava sobretudo, é verdade, os primeiros êxitos palpáveis da “reeducação” do poeta rebelde que, por essa altura, escreveu um soneto convenientemente decepcionado com a Revolução Francesa:

Sanhudo inexorável despotismo,

Monstro qu’em pranto, em sangue a fúria cevas,

Que em mil quadros horríficos te enlevas,

Obra da iniquidade e do ateísmo (…)


Repare-se, no entanto, que se acaso substituíssemos “do ateísmo” por “da crendice” ou “da superstição”, a estrofe já ficava boa para
Elmano Sadino vender aos amigos mações.

Suposto retrato de Bocage (se non è vero è ben trovato)

Bocage lá acabou a sua carreira a tecer tristes loas mercenárias ao regente D. João, à dementada rainha D. Maria e à santa religião, como convém a um boémio “regenerado”, sobretudo pobre e doente. É que Pina Manique, além de chefe da PIDE da época, também exercia as funções de António Ferro do regime. E não foi este senhor Ferro também uma espécie de Intendente, perseguidor da liberdade de expressão? Um dia contarei essa história.

A Virtude Pateada

Aparentemente, a última co-produção da dupla Bocage-Pina Manique foi um edificante drama recitado intitulado “A Virtude Laureada”, levada ao Teatro do Salitre de 1804 para 1805. Estas misérias dos grandes poetas deveriam talvez ser postas de lado pelos cronistas, dizem-me aqui do lado; fiquem, porém, como repelente para os jovens e matéria de reflexão sobre os vendidos de hoje. Dos personagens da dita peça, um chama-se Libertinagem, outro Génio da Nação, o segundo triunfando, obviamente, sobre o primeiro. Os “sentimentos abominosos da Libertinagem” quis o autor que fossem “refutados vigorosamente pelo Génio da Nação”. Lindo, não é? Há também um personagem chamado Polícia, jogando com o triplo sentido do termo: civilização, disciplina e repressão do crime. Estão a ver quem representa, não estão? No final há um quadro de bajulação do poder digno da corte de Kim Jong-Il: o cenário é levantado e aparece sobre o palco do teatro o retrato do príncipe regente D. João com o do magistrado Pina Manique a seus pés, “oferecendo-lhe os votos mais puros da Nação”. Um personagem chamado Hospitalidade declara então: “Quanto a Virtude alteia a Dignidade!” A Ciência, por seu turno, exulta: “Oh, júbilo, oh, ventura!” E a Indigência: “Eu pasmo, eu tremo!” O clímax da adulação servil é atingido no final, com o coro a render culto ao grão Regente, cantando esta quadra miserável, que parece importada da Coreia do Norte:Oh Luso Herói! Baixaste/ Da Estância divina! / Tu és um Deus visível, / Oh Príncipe imortal!”

Acreditam que Bocage escreveu isto? Escreveu mesmo, não há qualquer dúvida. Agora há a “síndrome de Estocolmo” para explicar fenómenos destes, quando o cativo se torna submisso e até afectivamente ligado ao raptor. Mas aqui não é, obviamente, esse o caso. Terá Bocage visto em Pina Manique o pai que não teve? José Luís Barbosa, pai de Manuel Maria, era magistrado desonesto: roubava (“desviava”) a dízima que arrecadava em Beja. Foi preso quando o filho tinha seis anos, ficando preso outros seis. A casa familiar foi confiscada. Como vimos, o Intendente quis reeducar o poeta boémio e libertino, curando-lhe paternalmente os vícios. Nunca ninguém o tentara antes. Depois vestiu-o, calçou-o e deu-lhe emprego. Vai à vida e tem juízo. Obrigado, paizinho! Não é, de resto, impossível que Pina Manique tivesse conhecido o pai de Bocage, que também fora magistrado.

A récita “A Virtude Laureada” parece que terá sido alvo de apupos e pateadas. Sabe-se que o seu plausível encomendante, o próprio Intendente Pina Manique, mandou no começo de 1805 vigiar a frequência do Teatro do Salitre e prender os responsáveis das pateadas.

Meses depois do aparente fiasco, morreram o autor da peça e o seu pio e fero mecenas. Ambos na fornada de 1805. Consta que, no Céu, passaram a frequentar a mesma leitaria. Deve ser atoarda. Cá por mim, estão ambos no Inferno. Pavorosa ilusão…

Fonte da gravura de Pina Manique, da miniatura de Bocage e do texto de A Virtude Laureada: Biblioteca Nacional Digital.

Bibliografia: Adelto Gonçalves, Bocage: O Perfil Perdido, Caminho, 2003. Uma biografia actualizada, com numerosas novidades.


© Texto de José Barreto.

Posted by J.B. at 20:10:59 | Permalink | No Comments »