xiii - Café das Arábias
Café das Arábias

Café mouro em Argel, primeira metade do séc. XX. Tudo fuma minha gente.

Café de Jerusalem no início do séc. XX. Não se vê por ali café.

Ludovico Hart - Café do Cairo, 1863. Bem arejado…
Café das Arábias

Café mouro em Argel, primeira metade do séc. XX. Tudo fuma minha gente.

Café de Jerusalem no início do séc. XX. Não se vê por ali café.

Ludovico Hart - Café do Cairo, 1863. Bem arejado…
Nostalgia sem hard feelings
A vida de café de antigamente desperta sentimentos nostálgicos em muitas pessoas. O café aparece-lhes, talvez, como lugar de um convivialidade perdida.
Permita-se-me uma citação mais extensa de um texto do pandita da direita culta portuguesa José Pacheco Pereira, comentando uma entrevista dada por um dos gurus da esquerda culta, Jorge Silva Melo, a um programa televisivo do porta voz da “sociedade civil”, Rui Ramos. O assunto é a vida citadina de Lisboa no final dos anos 60.
Ainda havia ‘cidade’, diz Jorge Silva Melo, ainda havia bairros, ainda havia cafés, teatros, cinemas. Nos cafés, o lugar emblemático do convívio permitido no tardo-salazarismo, descreve o ambiente do Monte Carlo, da Grã-fina, do Vavá, com os seus grupos diferenciados e as suas hierarquias - a que [eu] podia somar, nos mesmos precisos termos, no Porto, o Piolho, o Ceuta e o Majestic. Tudo me era familiar naquela conversa, a mesma nostalgia, os mesmos mixed feelings, os sentimentos misturados de um mundo ao mesmo tempo perdido na nossa juventude e tenebroso, porque era o mundo da ditadura, da censura e da PIDE. Nesses mesmos cafés estava a PIDE, como todos nos lembramos, numa mesa próxima, da qual ninguém se queria aproximar, mas que se aproximava de nós pelos ouvidos e pelo ar improvável dos disfarces do agente em funções, meio amanuense, meio rufia, gente que o próprio salazarismo fino não queria por perto, mas que lhe fazia a sale besogne. Havia muita paranóia, mas, descontada toda a obsessão pela perseguição, sobrava um grão imenso de realidade violenta, bafienta, claustrofóbica, mesquinha e provinciana, que contaminava tudo. Quem o vive, não o esquece nunca.
(Excerto de “Sentimentos misturados”, por José Pacheco Pereira, Público, 30 de Novembro de 2006. )
Peço desculpa pelo português do Pacheco. Que quis o homem dizer com aquele “grão imenso de realidade violenta” que “sobrava”? Na língua local, mixed feelings diz-se “sentimentos contraditórios”, mas há quem anglicize para “sentimentos mistos”. Essa de “sentimentos misturados” não se entende e soa mal. Não dêem importância, também, àquela boca pseudoerudita do “tardo-salazarismo”: antes de Salazar, como nos alvores do salazarismo ou no seu apogeu, já havia cafés em Lisboa, no Porto e no mundo, com a mesma função de convívio que tinham nos anos 60. Quanto ao “salazarismo fino”, não faço ideia do que quis dizer. Por um lado, todos os salazaristas eram, e são ainda, gente finíssima, como é normal. Mas, por outro, o próprio Salazar desfrutava do convívio assíduo dos “amanuenses rufias” da PIDE, tais como Agostinho Lourenço, Silva Pais, Barbieri Cardoso ou Rosa Casaco. Será que o Salazar não era salazarista? Ou não era fino?
Na conversa virtual de José Pacheco Pereira com Jorge Silva Melo detecto a saudade simulada de uma idade do ouro feita de intensa vida cultural e fervente convivialidade urbana, numa Lisboa mítica de há 30 ou 40 anos. Bons velhos tempos que nenhum deles viveu, mas de que ambos se recordam com variável dose de sentimentos contraditórios. Eles sabem, no fundo, que aqueles tempos não foram bons. São só velhos. E aquela Lisboa catita de Jorge Silva Melo nunca existiu. É apenas recordação não de uma realidade vivida, mas dos olhos jovens que olharam o mundo com menos cepticismo.
No resto do artigo, JPP enumera paternalisticamente a JSM as suas razões de historiador para olhar o passado desencantadamente. Como quem diz (mas não disse) : “Também eu sou às vezes atacado por imagens e sensações enganadoras da minha juventude, mas depressa me recomponho. Aquilo era mesmo bafiento!” E vá de puxar do PIDE da mesa do lado, para mostrar que se havia mais cafés, mais convivialidade e mais vida cultural na Lisboa e no Porto da nossa juventude, também havia aquela “realidade claustrofóbica, mesquinha e provinciana”. Certo?
Errado! O mundo de Salazar, da censura e da PIDE era mesquinho e provinciano, mas não era um caso de claustrofobia, era um caso de claustrofilia. Realidade claustrofílica. Claustrofóbicos eram os que amavam a liberdade e não suportavam a realidade do encarceramento.

Salvador Dali - Cena de Café - 1923
Apenas merece registo a (falsa) novidade de um JPP cioso de mostrar as suas origens e sensibilidade de esquerda, que não estariam esquecidas nem perdida, como eu e você poderíamos pensar. No fundo, esta preocupação de JPP já é velha, se bem se lembram de coisas ditas em entrevistas antigas. Mas o homem diz muita coisa só pela vontade de chocar, de provocar, d’épater le bourgeois. Agora sentiu algo solidariamente com JSM, coisa realmente rara, e vá de aproveitar a ocasião para lhe revelar, sem hard feelings, que não esqueceu nem nunca esquecerá o PIDE da mesa vizinha no café. O PIDE que, afinal, os aproximava - e, de lá do fundo da memória, ainda os aproxima. Se estivéssemos nos tempos áureos do Café Monte Carlo, do Vavá e da Grã-fina, talvez JPP pudesse dizer isso de viva voz a JSM. Mas hoje nunca calham à mesma mesa, se é que JPP ainda frequenta cafés. O Vavá ainda lá está, com gentes diferentes de tempos diferentes. O José Pacheco Pereira é que não é o mesmo, nem talvez o Jorge Silva Melo.
Também, que figura fariam agora sentados num café, já imaginaram? Toda a gente iria pensar que eles não tinham casa. Ou que não tinham que fazer. Ou que não tinham com quem falar. Ou que não tinham com quem namorar. Francamente!
Agora é tudo muito ensaiado, tudo muito agendado, com muitas prioridades e compromissos. É tudo muito prá fotografia, não é? O tempo é dinheiro e voa. A sociedade de café é ambiente demasiado igualitário e espontâneo para estes caras habituados a meios rarefeitos. Costumam dizer nas entrevistas que dariam tudo para passarem despercebidos no meio da multidão. A verdade é que morreriam de tédio se tivessem que dar dois dedos de conversa a um desconhecido num café. Irra, que seca! E não se factura nada…
Têm saudades deles próprios, se calhar, e da sua sociabilidade perdida. Não se pode ter tudo.
© Texto de José Barreto
Café Expressionista

August Macke - Café Turco I, 1914

August Macke - Café Turco II, 1914