xvi - Grosz
George Grosz e os seus cafés

George Grosz - Mann im Café, 1915.
Não me lembro de nenhum artista que tivesse desenhado e pintado tantas cenas de café (e de bar, night club, restaurante e cabaret) como George Grosz. A abulia e a inacção expectante dos frequentadores de café. A solidão e o desespero. A companhia e a solidão acompanhada. As comerciantes de sexo e as caras sórdidas dos seus mirones decadentes. Estes alguns dos temas das treze obras que aqui juntei, todas de entre 1914 e 1919, isto é, do tempo da Grande Guerra e ano imediato, à excepção da última, que é de 1927. O tema da guerra está ausente destas imagens, contrariamente a muitas obras suas da mesma época.

George Grosz, 1921.
Grosz nasceu em Berlim e viveu na Alemanha e na América entre 1893 e 1959. Depois dos estudos de arte em Dresden regressou a Berlim mas, iniciada pouco depois a guerra, alistou-se voluntariamente ainda em 1914. Foi desmobilizado em 1915, por motivos de saúde. Em 1917 foi novamente chamado e, meses depois, novamente liberto do serviço, após uma tentativa de suicídio. Grosz não tinha demorado a desiludir-se com a guerra, tornando-se para toda a vida um implacável crítico do militarismo alemão, tal como o artista seu amigo John Heartfield, com quem inventou em 1916 um novo género artístico, a fotomontagem (melhor dizendo, a fotocolagem). Cedo fixou sua atenção sobre os aspectos mais feios, decadentes e grotescos da sociedade berlinense, o que o levou a cultivar um estilo feroz de caricatura social e política.

George Grosz - Café, 1918
A sua participação na revolução spartakista em 1919 levou-o à prisão, mas conseguiu safar-se com papéis falsos. Foi militante comunista durante alguns anos, mas, em 1923, depois de ter passado cinco meses na Rússia de Lenin e Trotsky, Grosz abandonou o KPD, desiludido com a falta de liberdade que encontrou na pátria do comunismo. Não obstante, a sua veia crítica da sociedade continuou a desenvolver-se durante a República de Weimar, fazendo dele um dos artistas mais emblemáticos desse período. Assistiu de perto ao advento do nazismo, pondo a sua arte e o seu escárnio ao serviço da luta contra Hitler. Teve a inspiração, o bom senso e a sorte de fugir para a América em Janeiro de 1933, antes que os nazis lhe deitassem as mãos, pois fazia parte da lista negra de “artistas degenerados”. Segundo os nazis, além de Grosz eram “artistas degenerados” também Max Beckman, Otto Dix, Emil Nolde, Chagall, Max Ernst, Kandinsky, Klee, Oskar Kokoschka, Mondrian e Ernst Kirchner - ou seja, a nata do expressionismo alemão e muitos outros. Segundo a mesma fonte, Hitler não era degenerado…
Na América, com que sonhara na juventude, ensinou arte e o seu estilo amoleceu, ganhando um tom romântico e descritivo, geralmente visto como um declínio. Acabada a guerra e desfeito, há muito, o seu sonho americano, Grosz voltaria para a Alemanha só em 1959, para ali morrer passado mês e meio, numa queda de escadas depois de uma noite de copos. Não devia ter saído do país. Mas havia os campos de extermínio, não era?

George Grosz - Im Lokal, 1917.

George Grosz - Der Liebeskranke (O Doente de Amor), 1916.
O “Doente de Amor” é uma das poucas obras de Grosz aqui expostas em que se vê um homem de aspecto não repelente, que poderá ser ele próprio. A pistola no peito, ao lado do coração, sugere uma pulsão suicida. Um prato com uma espinha de peixe alude talvez à penúria alimentar que então se fazia sentir. O tema da morte está muito presente. Veja-se, ao fundo à direita, um esqueleto de pé junto a uma mesa. Uma âncora desenhada sobre a fonte do amante solitário (estranho sítio para uma tatuagem) evoca o mar ou a marinha, mas pode significar outra coisa. E que fará ali aquele cão pintado com grande realismo, enroscado no chão junto a dois ossos cruzados, evocando novamente a morte?

George Grosz - Im Café, 1915
Outra pintura da mesma altura do “Doente de Amor”, quando Grosz tinha apenas 22 anos. Novamente um homem solitário, agora apoiando na mão direita uma cabeça quase caveira. Desta vez o café tem mais gente, com destaque para algumas mulheres, às quais o homem parece virar as costas. O cão agora é um caniche com laçarote azul, junto da mesa feminina. Por detrás da cabeça do homem solitário, atravessa a sala um velho pálido e alquebrado vestido de negro e apoiado numa bengala, lembrando a morte.

George Grosz - Schönheit, dich will ich preise, 1919.
Rodeada por homens de aspecto sórdido, uma prostituta entradota, muito pintada, de boca entreaberta, aconchega delicadamente a gola de pele à volta do pescoço, como se tivesse frio. De facto, o seu corpo está nu, mas é uma nudez conceptual. As meias de seda azul até acima do joelho carregam o tom de lascívia decadente.

George Grosz - A mesa dos habituais, 1917.
Ainda os homens de caras patibulares jogando cartas, mais por desfastio do que por vício ou dinheiro. Um dos jogadores parece mais interessado na conversa do que nas cartas. Estarão a combinar alguma patifaria?

George Grosz - Kaffeehaus, 1915-16
Um jogador de cartas tem no bolso uma pistola e o que parece ser uma soqueira de metal. Outro tem um punhal. Caras patibulares, ameaçadoras. Um cão de aspecto agressivo passeia-se entre as mesas. Na mesa mais próxima um homem de colarinhos engomados fuma charuto..

George Grosz - Café Megalomania, 1915.
Mais figuras femininas rodeadas de caras feia e repulsivas. Não falta sequer um cão feio. A mulher na mesa em primeiro plano tem o dobro do corpo do homem que a acompanha. Este “Café Megalomania” (Café Grössenwahn) era o antro berlinense do vanguardismo expressionista, além de ser um café normal para pessoas normais e anormais, como as do desenho de Grosz. “Megalomania” era alcunha por troça, pois o seu verdadeiro nome era Café des Westens. Tinha havido um café com a mesma alcunha em Viena (o Griensteidl) e existia outro em Munique (o Stefanie), ambos igualmente poiso dos vanguardistas das artes e letras.

George Grosz - Café, 1919.
Este é um café minimalista, que só dois vagos tampos de mesa assinalam. Mais uma mulher pintada, mais caras patibulares. A mulher vestida de azul tem três pernas e parece olhar pelo canto do olho uma ténue mulher despida nas suas costas, que pode ser a sua prória imagem nua. Há um homem com cabeça de cão - um híbrido que aparece também na obra abaixo. Repare-se que em sete das treze obras aqui reproduzidas há um cão, cujo papel ou significado permanece misterioso (se contarmos também os cães-homens, são nove as obras com cães).

George Grosz - Nachtcafé (für Dr. Benn), 1918
No canto inferior direito, virando as costas à cena e representado com traços de ingénuo solitário, talvez esteja o Dr. Benn a quem é dedicado o desenho. Ou o próprio Grosz auto-representado. Entre os seus dedos vê-se um pequeno coração, algo de inapropriado num local de exposição e comércio de carne. No desenho abaixo, temos novamente o burguês sórdido, as prostitutas semidespidas e o cão.

George Grosz - Nachtcafé, 1915
Nachtcafé não é propriamente um café, mas aquilo a que em inglês se chama night club. Daí tantas mulheres nuas nos dois desenhos anteriores. A nudez representada podia ou não corresponder ao ambiente real desses locais nocturnos. Nos cafés-cafés de Grosz também aparecem mulheres despidas, o que não quer dizer que na realidade elas andassem mesmo nuas. Grosz é que as despia, primeiro certamente com o olhar, depois com a pena ou o pincel, marcando bem as zonas púbicas e os mamilos. Outras vezes o corpo ficava a ver-se por debaixo da roupa. Tudo maneiras óbvias de figurar a oferta do corpo para venda. Nuas ou seminuas, Grosz representava estas mulheres geralmente na companhia de homens velhos, endinheirados, gordos e repulsivos, por vezes com cabeça de porco, como aqui em baixo, numa aguarela da década seguinte, intitulada Circe. A deusa Circe tinha o dom de transformar homens em animais - neste caso, num porco… Parece que Grosz considerava as prostitutas aliadas do capitalismo especulador e belicista, tido como decadente pelos revolucionários.

George Grosz - Circe, 1927.
Na verdade, porém, Grosz nutria por essas mulheres algum fascínio, patente não só na frequência com que as pintava, mas também no modo como sugeria a sua provocação sensual. Nos seus desenhos e sketches de guerra, Grosz representava as enfermeiras dos hospitais por onde passou com a mesma aparência lasciva das mulheres dos night clubs. Historiadoras feministas chamaram misógino a Grosz, acusando-o de só representar mulheres prostitutas nas suas obras. É mentira, embora se possa reconhecer que esse foi um dos seus temas predilectos. Não deixa de ser cómico que muitas feministas, embora desculpem as prostitutas como “trabalhadoras do sexo” e culpem inteiramente a “sociedade masculina” pela existência da prostituição, considerem sempre aviltante e ofensiva a representação pictórica dessas mulheres. Numa coisa Grosz e as feministas coincidiam: os homens que acompanhavam as putas eram feios, porcos e maus, quase demónios.
Fonte do retrato fotográfico de Grosz: George-Grosz-Archiv, Stiftung Archiv der Akademie der Kunst
© Texto de José Barreto




