xvii - Torga
Torga em casa

Miguel Torga em 1933
Fotobiografia de Miguel Torga
1933
No final dos anos 20, princípio dos anos 30, a Pastelaria Central de Coimbra acolhia
uma tertúlia de jovens escritores que constituíram, em torno da revista Presença, a
chamada segunda geração modernista.
“Depois de dias como o de hoje, tenho a sensação do vazio absoluto.”
“Louvados sejam o barulho e as facadas da Central!”
Miguel Torga Diário I, trechos datados de 1 de Novembro de 1933.
1939
“Chego, entro no café, o meu lar, sento-me no meu canto, calço as pantufas e sinto-me realmente em corpo inteiro”. “Aqui sonha-se!”
Miguel Torga, Diário I, trecho datado de 14 de Abril de 1939.
1940
Miguel Torga sai em 2 de Fevereiro de 1940 da prisão do Aljube, em Lisboa, onde estivera, primeiro, em isolamento e, por fim, na enfermaria. Com a mala na mão, desorientado, responde aos amigos lisboetas que não puderam acolhê-lo por umas horas:
“Não se preocupem. Enquanto houver cafés neste mundo, os poetas estão sempre governados. Eu é que me tinha esquecido…”
“E passei o resto da tarde sentado diante dum quarto de água das Pedras, a pensar na vida e a olhar o Rossio. Começara a chuviscar, e uma humidade fria trespassava os ossos.”
“Ora, pois. Ali estava eu, mal acabado de sair da cadeia, e já com a primeira ensinadela no pêlo: que continuava a ser um asno.”
Miguel Torga, A Criação do Mundo / O Quinto Dia, p.473.
1940
Torga em registo de Livro do Desassossego, sem ofensa para Bernardo Soares:
“…Sempre que me lembro e posso, maravilho-me a ver como esta inacreditável fauna humana germina. Sento-me num café e fico uma hora inteira a ver passar na rua as trinta mil pessoas da cidade. Convencidas, vencidas, alegres e tristes, inquietas, calmas, inseguras, deslizam como imagens num écran. Naquele momento, dir-se-ia que cada um concentra em si o destino do mundo. E, afinal, um segundo depois, não fica no seu caminho o mais leve sinal de tanta significação que parecia ter. Representou apenas um papel semelhante ao daqueles protagonistas de tragédias e comédias contadas num jornal que a criada amarrota, mete no fogão e queima.”
Miguel Torga, Diário I, trecho datado de 21 de Novembro de 1940.
Trechos de Torga escolhidos e cedidos pela Teresa.