Tuesday, May 29, 2007

xvii - Torga

Torga em casa  


Miguel Torga em 1933
Fotobiografia de Miguel Torga



1933

No final dos anos 20, princípio dos anos 30, a Pastelaria Central de Coimbra acolhia
uma tertúlia de jovens escritores que constituíram, em torno da revista Presença, a
chamada segunda geração modernista.

“Depois de dias como o de hoje, tenho a sensação do vazio absoluto.”
“Louvados sejam o barulho e as facadas da Central!”

Miguel Torga Diário I, trechos datados de 1 de Novembro de 1933.

1939 

“Chego, entro no café, o meu lar, sento-me no meu canto, calço as pantufas e sinto-me realmente em corpo inteiro”. “Aqui sonha-se!”


Miguel Torga, Diário I, trecho datado de 14 de Abril de 1939. 

1940

Miguel Torga sai em 2 de Fevereiro de 1940 da prisão do Aljube, em Lisboa, onde estivera, primeiro, em isolamento e, por fim, na enfermaria. Com a mala na mão, desorientado, responde aos amigos lisboetas que não puderam acolhê-lo por umas horas:


“Não se preocupem. Enquanto houver cafés neste mundo, os poetas estão sempre governados. Eu é que me tinha esquecido…” 

“E passei o resto da tarde sentado diante dum quarto de água das Pedras, a pensar na vida e a olhar o Rossio. Começara a chuviscar, e uma humidade fria trespassava os ossos.” 

“Ora, pois. Ali estava eu, mal acabado de sair da cadeia, e já com a primeira ensinadela no pêlo: que continuava a ser um asno.” 


Miguel Torga, A Criação do Mundo / O Quinto Dia, p.473.

1940


Torga em registo de Livro do Desassossego, sem ofensa para Bernardo Soares:

“…Sempre que me lembro e posso, maravilho-me a ver como esta inacreditável fauna humana germina. Sento-me num café e fico uma hora inteira a ver passar na rua as trinta mil pessoas da cidade. Convencidas, vencidas, alegres e tristes, inquietas, calmas,  inseguras, deslizam como imagens num écran. Naquele momento, dir-se-ia que cada um concentra em si o destino do mundo. E, afinal, um segundo depois, não fica no seu caminho o mais leve sinal de tanta significação que parecia ter. Representou apenas um papel semelhante ao daqueles protagonistas de tragédias e comédias contadas num jornal que a criada amarrota, mete no fogão e queima.”

Miguel Torga, Diário I, trecho datado de 21 de Novembro de 1940.


Trechos de Torga escolhidos e cedidos pela Teresa.

 

Posted by J.B. in 16:22:46
Comments

2 Responses

  1. Mariana says:

    É muito bom o seu blog, gostei bastante!

  2. J.B. says:

    Obrigado, Mariana. Estou a desleixar a República do Café - que não é bem um blog, mas um sítio onde vou despreocupadamente colocando coisas sobre o tema escolhido. Se souber de algo, mande. JB

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