xxii - Degas
Degas au café

Degas, Mulheres em esplanada de café, pastel, 1877, Musée d’Orsay

Degas, L’Absinthe, 1875-76, Musée d’Orsay. L’Abseinte…
Degas au café

Degas, Mulheres em esplanada de café, pastel, 1877, Musée d’Orsay

Degas, L’Absinthe, 1875-76, Musée d’Orsay. L’Abseinte…
Kiki de Montparnasse
O Café de la Rotonde, bem como o vizinho Dôme, o La Coupole ou o Les Deux Magots, tiveram nos anos 20 e 30 uma figura feminina inspiradora, a modelo, cantora e dançarina de nightclub Kiki, também conhecida por Kiki de Montparnasse e até Rainha de Montparnasse, de seu verdadeiro nome Alice Prin. Entre os direitos que lhe cabiam por tal título incluía-se o da mesa reservada. Começou a posar nua aos 14 anos, revelando grande precocidade nessa e noutras artes, fruto da pobreza. Aos 16 anos já consumia cocaína. Foi amante, nos anos 20, de Man Ray, que dela fez numerosas fotos, desenhos e pinturas. Foi Kiki que serviu de modelo para a celebérrima foto de Man Ray, intitulada Violon d’Ingres, realizada em 1924.

Centre Pompidou
Posou também para Chaïm Soutine (o primeiro pintor a retratá-la) , Foujita, Modigliani, Per Krohg, Francis Picabia, Moïse Kisling, Alexander Calder, Jules Pascin e vários outros. Ela própria começou a pintar e chegou a expor.
Segundo os biógrafos, Kiki foi uma das primeiras mulheres verdadeiramente independentes do século XX. Nos anos 30 teve um bar chamado Oasis, que depois baptizou Chez Kiki. Tudo o que ganhava ia para a cocaína e o álcool, que deram cabo dela aos 52 anos. Era assim com 21 anos, pelos olhos de Man Ray.

Man Ray, Kiki, 1922
Num dia de calor, a sua amiga Treize fixou este momento ao ar livre

Kiki au frais
Man Ray sublinha as formas com sombra

Man Ray, Kiki, 1924
Não contente com fotografá-la, Man Ray pintou-a também.

Man Ray, Kiki (óleo), 1923
E filmou-a!

Fotograma do filme de Man Ray, Retour à la raison, 1923
Aos 25 anos, Kiki posou para esta espantosa foto de Man Ray.

Man Ray, Noir et blanche, 1926
As memórias (muito prematuras) de Kiki, publicadas em Paris, em 1929, com introdução de Hemingway e Foujita, foram traduzidas e publicadas no ano seguinte nos Estados Unidos, mas logo proibidas e apreendidas. Assim ficaram até aos anos 90 - oh yeah! - quando nova edição foi publicada. Uma nova edição francesa das memórias, intitulada Souvenirs retrouvés, ed. José Corti, Paris, 2005, parte de um texto inteiramente revisto por Kiki anos depois, muito mais sincero, que ficou inédito até à data. Vale a pena conhecer um pouco melhor a vida desta musa de Montparnasse, que durante a Grande Guerra mostrava as mamas por três francos para comer.
Uma pintura atribuída a Soutine (mas que não parece dele) dá-nos uma Kiki bastante pulpeuse.

Kiki, pintura atribuída a Chaïm Soutine (anos 20)
Per Krohg fez dois óleos dela, um vestido outro nu.

Per Krohg, Kiki, 1928

Per Krohg, Kiki Nude, 1928
Kisling, seu grande amigo, arredondou-a 
Moise Kisling, Nu assis, Kiki de Montparnasse
Mas também a retratou menos redonda.

Moise Kisling - Kiki de Montparnasse em vestido vermelho
Alexander Calder retratou Kiki em arame.

Alexander Calder, Feminité - Kiki’s Nose, 1930
Um pintor belga, figurou-a assim

Charles Kvapil, Kiki, ca. 1920
O escultor aragonês Pablo Gargallo retratou-a em bronze.

Gargallo, Kiki, 1928
Pode e deve ser vista de perfil.

Brassaï também fotografou Kiki. Ei-la a cantar, o que só fazia com uns tantos gins no papo.

Brassaï, Kiki cantando num club de Montparnasse, 1934
Mais uma de Man Ray. E não digam que vão dakiki…

Man Ray, Kiki de Montparnasse, 1922
© Texto de José Barreto
A encerrar, o trecho das memórias de Kiki em que ela relata o seu nascimento. Garante que já trazia um pompon, isto é, que já vinha com um graozinho na asa.
Ma naissance
Je suis née le 2 octobre 1901 dans un joli coin de la Bourgogne.
Ma mère avait dix-huit ans et son amant, mon père, dix-neuf ; elle était pauvre, il était riche ; beaux tous les deux.
Mon père fut obligé, plus tard, par ses père et mère, de faire un mariage de raison avec une fille de ferme qui avait du bien.
Quant à ma mère, elle cacha sa “faute” à son père jusqu’au dernier moment. Mon arrivée n’était pas désirée !
Quand je m’annonçai, ma mère était à quelques mètres de chez elle ; les douleurs l’ont forcée à s’asseoir au bord du trottoir.
J’avais déjà la tête dans le ruisseau, mais ma mère s’obstinait toujours à ne pas me laisser passer. Le cordon autour du cou, je commençais déjà à violacer quand le hasard a voulu que j’aie une chance pour moi.
Mon futur parrain qui venait aux nouvelles a vu le tableau ; il a engueulé ma mère et lui a dit :
“Marie, laisse-la donc passer, l’Alice.”
“L’Alice”, c’était moi !
Mon parrain a enlevé ma mère dans ses bras et l’a portée dans son lit.
Comme il était contrebandier d’alcool, il lui a foutu une de ces cuites ! Et moi, j’en ai profité, j’avais aussi mon pompon en arrivant.
Source: http://www.jose-corti.fr/titresfrancais/kiki.html
Fotos de Man Ray: tout-fait - http://www.toutfait.com/issues/issue_2/
Au café, 1888
Willard Metcalf, um americano em Paris, fixou esta visão de um café parisiense em 1888.

Willard Metcalf, Au café, 1888 (óleo sobre madeira)
Acho que Metcalf pode ter apanhado em flagrante, na mesa em primeiro plano, o consul português José Maria Eça de Queirós, de cartola e monóculo, brindando com uma cocotte parisiense. Nesse ano de 1888, em que iniciou o seu consulado em Paris, Eça já era casado há dois anos. Mas não especulemos, que é feio.
Repare-se no ambiente diurno mas penumbroso do café, iluminado a gás. A luz exterior parece coada por cortinas, como se importasse criar internamente uma luminosidade artificial. Na mesa de segundo plano, um homem encartolado lê um jornal. Ninguém tira o chapéu no café! Na terceira mesa, um tipo acende o cigarro e conversa com um militar de képi vermelho. Enorme coincidência seria se se tratasse do oficial de artilharia Alfred Dreyfus, então com 29 anos. Um anti-semita diria logo que ele estava ali a passar segredos militares a um agente alemão, o tal do cigarro. O criado, de casaca escura e avental branco, meio calvo, mas senhor de umas frondosas suiças, parece esperar as ordens de um cliente, segurando um pano debaixo do braço e uma bandeja na mão. Próximos da janela, dois homens de pé segredam assuntos confidenciais. Talvez estivessem a espiar o diálogo do militar com o outro…
Belo documento. Diante do original poderão, talvez, descobrir-se mais pormenores. Falta é o nome do café, se é que não foi imaginado. O quadro está em Giverny, França, a terra onde Monet pintou os nenúfares e onde há um Musée d’Art Américain.
Wilard Leroy Metcalf nasceu em 1858 em Lowell, Massachusetts e morreu em 1925, em Nova Iorque.
© Texto de José Barreto
Au café, 1901
Aposto que não conheciam este pastel do jovem Picasso, atestando que os cafés parisienses da Belle époque atraíam muitas mulheres, com seus grandes chapéus.

Pablo Picasso - Au café, 1901
Do mesmo autor, ano, género e motivo, esta mulher de chapéu azul, quiçá também num café. Até pode ser a ruiva que, no desenho de cima, está a acariciar um cão.

Pablo Picasso, Mulher de chapéu azul, 1901
La Rotonde

Tullio Garbari - Intelectuais no Café de la Rotonde, 1916 (Petit-Palais, Genebra)
Estes dois rapazes em pose de intelectual são, à esquerda, de perfil, Marinetti (1878-1944), autor do Manifesto Futurista (1908) e futuro fascista; de frente, de cigarro na boca, o poeta italo-franco-polaco Guillaume Apollinaire (1880-1918) , também autor da “peça de teatro surrealista” Les Mamelles de Tirésias, de 1917 (inventando, assim, o termo surrealista), e em prosa, de La Femme assise, obra póstuma, além dumas desvairadas Les Onze mille verges (não confundir com vierges), obra de 1907. O Café de la Rotonde, ou simplesmente La Rotonde, em que o pintor italiano Tullio Garbari (1892-1931) fixou este instante para a eternidade, fica no cruzamento do Boulevard de Raspail com o Boulevard de Montparnasse, local que era então o centro nevrálgico do mundo. No mesmo prédio, por cima do café, nasceu Simone de Beauvoir. Do outro lado da rua ficava o Café du Dôme, outro local de culto.

La Rotonde, hoje
Frequentaram este café nas primeiras décadas do século, além dos acima nomeados, numerosos escritores e artistas como Gauguin, Jean Cocteau, Picasso, Man Ray, Hemingway, Mucha, Mondrian, Modigliani, Foujita, Rivera, Matisse, Calder e não vos maço mais com nomes. Kiki de Montparnasse, Youki e Fernande Barrey foram clientes fixas da Rotonde e musas dos rapazes atrás citados.
O japonês Foujita conheceu em 1917 no Café de la Rotonde (ou no Dôme, segundo outras fontes) a modelo Fernande Barrey (não confundir com rainha dos postais ilustrados eróticos desse período, Miss Fernande). Casou com ela passados 13 dias. Fernande também posou para Modigliani e outros. A moça não deixou, porém, de olhar para outros homens e arranjou um amante secreto - por sinal também japonês, suprema ofensa para Foujita que, pouco depois, rompeu com ela.

Miss Fernande

Fernande Barrey em óleo de Modigliani e em foto de Foujita
Em 1921 Foujita conheceu na Rotonde outra mulher, Lucie Badoul, de 18 anos de idade, por quem se apaixonou imediatamente, abandonando Fernande, que durante três dias o procurou pelos hospitais e morgues de Paris. Foujita mudou o nome de Lucie para Youki, que quer dizer “neve cor-de-rosa” em japonês. Quando ela fez 21 anos, Foujita ofereceu-lhe um carro amarelo, com chaffeur… Mais tarde Youki, que se drogava com éter, foi a mulher de Robert Desnos, poeta surrealista. Desnos pertenceu à Resistência e morreu com tifo num campo de concentração da Checoslováquia em 8 de Junho de 1945, um mês depois do fim da guerra.

Foujita e Youki (Lucie Badoul), um coup de foudre no Café de la Rotonde
© Texto de José Barreto
Foto do Café de la Rotonde: FranceBalade - http://www.francebalade.com/paris/montparnasse.htlm