xviii - Café La Rotonde
La Rotonde

Tullio Garbari - Intelectuais no Café de la Rotonde, 1916 (Petit-Palais, Genebra)
Estes dois rapazes em pose de intelectual são, à esquerda, de perfil, Marinetti (1878-1944), autor do Manifesto Futurista (1908) e futuro fascista; de frente, de cigarro na boca, o poeta italo-franco-polaco Guillaume Apollinaire (1880-1918) , também autor da “peça de teatro surrealista” Les Mamelles de Tirésias, de 1917 (inventando, assim, o termo surrealista), e em prosa, de La Femme assise, obra póstuma, além dumas desvairadas Les Onze mille verges (não confundir com vierges), obra de 1907. O Café de la Rotonde, ou simplesmente La Rotonde, em que o pintor italiano Tullio Garbari (1892-1931) fixou este instante para a eternidade, fica no cruzamento do Boulevard de Raspail com o Boulevard de Montparnasse, local que era então o centro nevrálgico do mundo. No mesmo prédio, por cima do café, nasceu Simone de Beauvoir. Do outro lado da rua ficava o Café du Dôme, outro local de culto.

La Rotonde, hoje
Frequentaram este café nas primeiras décadas do século, além dos acima nomeados, numerosos escritores e artistas como Gauguin, Jean Cocteau, Picasso, Man Ray, Hemingway, Mucha, Mondrian, Modigliani, Foujita, Rivera, Matisse, Calder e não vos maço mais com nomes. Kiki de Montparnasse, Youki e Fernande Barrey foram clientes fixas da Rotonde e musas dos rapazes atrás citados.
O japonês Foujita conheceu em 1917 no Café de la Rotonde (ou no Dôme, segundo outras fontes) a modelo Fernande Barrey (não confundir com rainha dos postais ilustrados eróticos desse período, Miss Fernande). Casou com ela passados 13 dias. Fernande também posou para Modigliani e outros. A moça não deixou, porém, de olhar para outros homens e arranjou um amante secreto - por sinal também japonês, suprema ofensa para Foujita que, pouco depois, rompeu com ela.

Miss Fernande

Fernande Barrey em óleo de Modigliani e em foto de Foujita
Em 1921 Foujita conheceu na Rotonde outra mulher, Lucie Badoul, de 18 anos de idade, por quem se apaixonou imediatamente, abandonando Fernande, que durante três dias o procurou pelos hospitais e morgues de Paris. Foujita mudou o nome de Lucie para Youki, que quer dizer “neve cor-de-rosa” em japonês. Quando ela fez 21 anos, Foujita ofereceu-lhe um carro amarelo, com chaffeur… Mais tarde Youki, que se drogava com éter, foi a mulher de Robert Desnos, poeta surrealista. Desnos pertenceu à Resistência e morreu com tifo num campo de concentração da Checoslováquia em 8 de Junho de 1945, um mês depois do fim da guerra.

Foujita e Youki (Lucie Badoul), um coup de foudre no Café de la Rotonde
© Texto de José Barreto
Foto do Café de la Rotonde: FranceBalade - http://www.francebalade.com/paris/montparnasse.htlm
Como pode ser diferente o olhar sobre o mesmo objecto (étrange objectt de désir): o dum industrial de Eros, o de Modigliani (talvez com o mesmo problema óptico de El Greco)e o de um chinês que o fotografou como um travesti e depois o trocou por um clone!
Claro que há um olhar contemporâneo e é por ele que vês!Rubens teria feito o seu retrato?
Talvez por cima do papillon e por dentro do ar ausente Apollinaire estivesse a maquinar o aforisma (que Freud teria evidentemente justificado) :” Il faut battre sa mère pendant qu´elle est jeune”.
Só conhecia estes dois rostos de quando o tempo os tinha modelado outros e, pelos lados de Marinetti , ele estava à beira de ser reconhecido (academicamente) imortal .
Pelo instantâneo já estamos em dívida com Garbari e eu não sabia, mas, então, com o magnífico bloguista e a sua muito pessoal abordagem de vários protagonismos dos anos 20, nem se fala.