Tuesday, August 7, 2007

xxi - Kiki

Kiki de Montparnasse

O Café de la Rotonde, bem como o vizinho Dôme, o La Coupole ou o Les Deux Magots, tiveram nos anos 20 e 30 uma figura feminina inspiradora, a modelo, cantora e dançarina de nightclub Kiki, também conhecida por Kiki de Montparnasse e até Rainha de Montparnasse, de seu verdadeiro nome Alice Prin. Entre os direitos que lhe cabiam por tal título incluía-se o da mesa reservada. Começou a posar nua aos 14 anos, revelando grande precocidade nessa e noutras artes, fruto da pobreza. Aos 16 anos já consumia cocaína. Foi amante, nos anos 20, de Man Ray, que dela fez numerosas fotos, desenhos e pinturas. Foi Kiki que serviu de modelo para a celebérrima foto de Man Ray, intitulada Violon d’Ingres, realizada em 1924.


Centre Pompidou

Posou também para Chaïm Soutine (o primeiro pintor a retratá-la) , Foujita, Modigliani, Per Krohg, Francis Picabia, Moïse Kisling, Alexander Calder, Jules Pascin e vários outros. Ela própria começou a pintar e chegou a expor.

Segundo os biógrafos, Kiki foi uma das primeiras mulheres verdadeiramente independentes do século XX. Nos anos 30 teve um bar chamado Oasis, que depois baptizou Chez Kiki. Tudo o que ganhava ia para a cocaína e o álcool, que deram cabo dela aos 52 anos. Era assim com 21 anos, pelos olhos de Man Ray.

 
Man Ray, Kiki, 1922


Num dia de calor, a sua amiga Treize fixou este momento ao ar livre


Kiki au frais

Man Ray sublinha as formas com sombra
 

Man Ray, Kiki, 1924

Não contente com fotografá-la, Man Ray pintou-a também.

Man Ray, Kiki (óleo), 1923

E filmou-a!


Fotograma do filme de Man Ray, Retour à la raison, 1923

Aos 25 anos, Kiki posou para esta espantosa foto de Man Ray.

Man Ray, Noir et blanche, 1926

As memórias (muito prematuras) de Kiki, publicadas em Paris, em 1929, com introdução de Hemingway e Foujita, foram traduzidas e publicadas no ano seguinte nos Estados Unidos, mas logo proibidas e apreendidas. Assim ficaram até aos anos 90 - oh yeah! - quando nova edição foi publicada. Uma nova edição francesa das memórias, intitulada Souvenirs retrouvés, ed. José Corti, Paris, 2005, parte de um texto inteiramente revisto por Kiki anos depois, muito mais sincero, que ficou inédito até à data. Vale a pena conhecer um pouco melhor a vida desta musa de Montparnasse, que durante a Grande Guerra mostrava as mamas por três francos para comer.

Uma pintura atribuída a Soutine (mas que não parece dele) dá-nos uma Kiki bastante pulpeuse.

Kiki, pintura atribuída a Chaïm Soutine (anos 20)


Per Krohg fez dois óleos dela, um vestido outro nu.

Per Krohg, Kiki, 1928

Per Krohg, Kiki Nude, 1928

Kisling, seu grande amigo, arredondou-a 


Moise Kisling, Nu assis, Kiki de Montparnasse 

Mas também a retratou menos redonda.


Moise Kisling - Kiki de Montparnasse em vestido vermelho

Alexander Calder retratou Kiki em arame.


Alexander Calder, Feminité - Kiki’s Nose, 1930

Um pintor belga, figurou-a assim


Charles Kvapil, Kiki, ca. 1920

O escultor aragonês Pablo Gargallo retratou-a em bronze.

 
Gargallo, Kiki, 1928

Pode e deve ser vista de perfil.

Brassaï também fotografou Kiki. Ei-la a cantar, o que só fazia com uns tantos gins no papo.

Brassaï, Kiki cantando num club de Montparnasse, 1934

Mais uma de Man Ray. E não digam que vão dakiki…

Man Ray, Kiki de Montparnasse, 1922


© Texto de José Barreto


A encerrar, o trecho das memórias de Kiki em que ela relata o seu nascimento. Garante que já trazia um pompon, isto é, que já vinha com um graozinho na asa.


Ma naissance

Je suis née le 2 octobre 1901 dans un joli coin de la Bourgogne.
Ma mère avait dix-huit ans et son amant, mon père, dix-neuf ; elle était pauvre, il était riche ; beaux tous les deux.
Mon père fut obligé, plus tard, par ses père et mère, de faire un mariage de raison avec une fille de ferme qui avait du bien.
Quant à ma mère, elle cacha sa “faute” à son père jusqu’au dernier moment. Mon arrivée n’était pas désirée !
Quand je m’annonçai, ma mère était à quelques mètres de chez elle ; les douleurs l’ont forcée à s’asseoir au bord du trottoir.
J’avais déjà la tête dans le ruisseau, mais ma mère s’obstinait toujours à ne pas me laisser passer. Le cordon autour du cou, je commençais déjà à violacer quand le hasard a voulu que j’aie une chance pour moi.
Mon futur parrain qui venait aux nouvelles a vu le tableau ; il a engueulé ma mère et lui a dit :
“Marie, laisse-la donc passer, l’Alice.”
“L’Alice”, c’était moi !
Mon parrain a enlevé ma mère dans ses bras et l’a portée dans son lit.
Comme il était contrebandier d’alcool, il lui a foutu une de ces cuites ! Et moi, j’en ai profité, j’avais aussi mon pompon en arrivant.

Source: http://www.jose-corti.fr/titresfrancais/kiki.html

Fotos de Man Ray: tout-fait - http://www.toutfait.com/issues/issue_2/ 

Posted by J.B. in 18:41:18 | Permalink | Comments (6)