xxi - Kiki
Kiki de Montparnasse
O Café de la Rotonde, bem como o vizinho Dôme, o La Coupole ou o Les Deux Magots, tiveram nos anos 20 e 30 uma figura feminina inspiradora, a modelo, cantora e dançarina de nightclub Kiki, também conhecida por Kiki de Montparnasse e até Rainha de Montparnasse, de seu verdadeiro nome Alice Prin. Entre os direitos que lhe cabiam por tal título incluía-se o da mesa reservada. Começou a posar nua aos 14 anos, revelando grande precocidade nessa e noutras artes, fruto da pobreza. Aos 16 anos já consumia cocaína. Foi amante, nos anos 20, de Man Ray, que dela fez numerosas fotos, desenhos e pinturas. Foi Kiki que serviu de modelo para a celebérrima foto de Man Ray, intitulada Violon d’Ingres, realizada em 1924.

Centre Pompidou
Posou também para Chaïm Soutine (o primeiro pintor a retratá-la) , Foujita, Modigliani, Per Krohg, Francis Picabia, Moïse Kisling, Alexander Calder, Jules Pascin e vários outros. Ela própria começou a pintar e chegou a expor.
Segundo os biógrafos, Kiki foi uma das primeiras mulheres verdadeiramente independentes do século XX. Nos anos 30 teve um bar chamado Oasis, que depois baptizou Chez Kiki. Tudo o que ganhava ia para a cocaína e o álcool, que deram cabo dela aos 52 anos. Era assim com 21 anos, pelos olhos de Man Ray.

Man Ray, Kiki, 1922
Num dia de calor, a sua amiga Treize fixou este momento ao ar livre

Kiki au frais
Man Ray sublinha as formas com sombra

Man Ray, Kiki, 1924
Não contente com fotografá-la, Man Ray pintou-a também.

Man Ray, Kiki (óleo), 1923
E filmou-a!

Fotograma do filme de Man Ray, Retour à la raison, 1923
Aos 25 anos, Kiki posou para esta espantosa foto de Man Ray.

Man Ray, Noir et blanche, 1926
As memórias (muito prematuras) de Kiki, publicadas em Paris, em 1929, com introdução de Hemingway e Foujita, foram traduzidas e publicadas no ano seguinte nos Estados Unidos, mas logo proibidas e apreendidas. Assim ficaram até aos anos 90 - oh yeah! - quando nova edição foi publicada. Uma nova edição francesa das memórias, intitulada Souvenirs retrouvés, ed. José Corti, Paris, 2005, parte de um texto inteiramente revisto por Kiki anos depois, muito mais sincero, que ficou inédito até à data. Vale a pena conhecer um pouco melhor a vida desta musa de Montparnasse, que durante a Grande Guerra mostrava as mamas por três francos para comer.
Uma pintura atribuída a Soutine (mas que não parece dele) dá-nos uma Kiki bastante pulpeuse.

Kiki, pintura atribuída a Chaïm Soutine (anos 20)
Per Krohg fez dois óleos dela, um vestido outro nu.

Per Krohg, Kiki, 1928

Per Krohg, Kiki Nude, 1928
Kisling, seu grande amigo, arredondou-a 
Moise Kisling, Nu assis, Kiki de Montparnasse
Mas também a retratou menos redonda.

Moise Kisling - Kiki de Montparnasse em vestido vermelho
Alexander Calder retratou Kiki em arame.

Alexander Calder, Feminité - Kiki’s Nose, 1930
Um pintor belga, figurou-a assim

Charles Kvapil, Kiki, ca. 1920
O escultor aragonês Pablo Gargallo retratou-a em bronze.

Gargallo, Kiki, 1928
Pode e deve ser vista de perfil.

Brassaï também fotografou Kiki. Ei-la a cantar, o que só fazia com uns tantos gins no papo.

Brassaï, Kiki cantando num club de Montparnasse, 1934
Mais uma de Man Ray. E não digam que vão dakiki…

Man Ray, Kiki de Montparnasse, 1922
© Texto de José Barreto
A encerrar, o trecho das memórias de Kiki em que ela relata o seu nascimento. Garante que já trazia um pompon, isto é, que já vinha com um graozinho na asa.
Ma naissance
Je suis née le 2 octobre 1901 dans un joli coin de la Bourgogne.
Ma mère avait dix-huit ans et son amant, mon père, dix-neuf ; elle était pauvre, il était riche ; beaux tous les deux.
Mon père fut obligé, plus tard, par ses père et mère, de faire un mariage de raison avec une fille de ferme qui avait du bien.
Quant à ma mère, elle cacha sa “faute” à son père jusqu’au dernier moment. Mon arrivée n’était pas désirée !
Quand je m’annonçai, ma mère était à quelques mètres de chez elle ; les douleurs l’ont forcée à s’asseoir au bord du trottoir.
J’avais déjà la tête dans le ruisseau, mais ma mère s’obstinait toujours à ne pas me laisser passer. Le cordon autour du cou, je commençais déjà à violacer quand le hasard a voulu que j’aie une chance pour moi.
Mon futur parrain qui venait aux nouvelles a vu le tableau ; il a engueulé ma mère et lui a dit :
“Marie, laisse-la donc passer, l’Alice.”
“L’Alice”, c’était moi !
Mon parrain a enlevé ma mère dans ses bras et l’a portée dans son lit.
Comme il était contrebandier d’alcool, il lui a foutu une de ces cuites ! Et moi, j’en ai profité, j’avais aussi mon pompon en arrivant.
Source: http://www.jose-corti.fr/titresfrancais/kiki.html
Fotos de Man Ray: tout-fait - http://www.toutfait.com/issues/issue_2/
Os textos que tem escrito sobre cafés, são muito interessantes.
Será que não há nenhum café em Portugal que lhe desperte igual entusiasmo?
Nem o Magestic ou o Guarani, Versailles, Brasileira, Chave d’Ouro, Nicola, Martinho ou até mesmo o Café Republica.
Todos ficaríamos agradecidos se nos presenteasse com “estórias” e história de cafés portugueses.
A.F
O que se passa com o seu blogue?
Não aguenta com mais imagens?
Então transfira tudo para o blogspot.com
Aí sim! Põe o número de imagens que entender, tendo também várias opções de configurações e grafismos de páginas.
Exprimente que não se arrepende. Conselho de uma bloguista.
A. C.
Os cafés, portugueses ou estrangeiros, interessam-me não tanto por eles próprios, mas pelo que lá se passa ou passava: o ambiente, as pessoas, o relacionamento e interinfluências entre gentes de diversas proveniências, mentalidades e interesses, o diálogo ou debate político, a vida literária e artística, etc.
Ver o post III, de 13 de Junho de 2006, “Pessoa, os cafés eas tabernas de Lisboa”.
Parece bem que a KiKi muito terá devido o seu reino de Montparnasse a Man Ray que a redesenhou nas fotos e nas pinturas e, contudo, lhe conhecia a barriguinha mediterrânica que não quis deixar de passar à história discretamente dessimulada por um belo pano.
Claro que a Alice tendo sobrevivido ao contragosto da mãe a dar à luz, à pobreza, à coca e a exercícios nem sempre voluptuosos era, com certeza, de fibra …que lhe não chegou, coitada, para sobreviver sem droga, mesmo nos tempos em que lhe não faltavam outras passas!
Obrigada por mais esta.
ah, livre, venus livre