xxv - Romanisches Café

Mulher anónima a solo no Café Românico, 1924
O Café des Westens, Café do Oeste (Oeste de Berlim, entenda-se)
aberto em 1898 e encerrado em 1915, tinha sido o café literário mais
em voga da capital alemã durante uma breve geração, na chamada
Belle époque. Pouco antes da I Guerra Mundial, a imprensa
nacionalista e conservadora berlinense começou a atacar a sua
clientela de artistas e literatos. Alcunharam-no de Café Megalomania
(Café Grössenwahn), copiando a alcunha dada trinta anos antes em
Viena a outro café literário, o Griensteidl. O Café des Westens foi
encerrado pelo seu proprietário em 1915 por razões não totalmente
esclarecidas. O dono foi abrir um estabelecimento homónimo noutro
local de Berlim, mas com perfil de café concerto. A antiga clientela
“megalómana” não gostou da nova fórmula e procurou outro sítio
para assentar arraiais. Não longe do Megalomania, também no
bairro de Charlottenburg, descobriram o local ideal.

Romanisches Café por volta de 1920
O Romanisches Café, Café Românico, assumiu gradualmente o
papel do Café Megalomania como lugar de encontro favorito dos
intelectuais, artistas e boémios durante os anos da República de
Weimar (1919-1933), período dourado das artes e letras alemãs
no século XX. Uma velha maldição devia pesar sobre esta linhagem
de locais conviviais, pois o Românico não sobreviveu, como café
literário, ao triunfo do nazismo e o prórpio edifício em que se
encontrava também não sobreviveu a um bombardeamento da cidade
pela força aérea britânica, em 1943. Já lá iremos.
O nome do Café Românico devia-se simplesmente ao nome do
edifício em que estava instalado, a Romanisches Haus, construída
em estilo neo-românico em 1900-1901. O edifício situava-se por
sua vez em frente da Igreja Memorial do Imperador Guilherme,
construída igualmente em estilo neo-românico em 1891-1895,
também destruída pela aviação britânica. Toda a praça Augusta
Vitória (do nome da imperatriz), em cujo centro se situava a igreja,
era em estilo neo-românico e toda ela foi destruída em 1943. Havia
outro Edifício Românico do lado oposto da praça, construído em
1896, onde funcionou nos anos 1920-30 o Café Trumpf e o cinema
Gloria-Palast, no qual foram estreados os mais famosos filmes
alemães da época, como “O Anjo Azul” (1930) com Marlene Dietrich.
Tudo seria arrasado pela guerra. Quase nada restou do que se vê
nas fotografias.

A Praça Augusta Vitória em 1935, com a igreja e os dois edifícios românicos

O cinema Gloria-Palast e o Café Trumpf em 1936
O Café Românico começou por ser pastelaria antes de, por volta
de 1916, se tornar num verdadeiro café. Até 1933, seria o poiso
obrigatório de numerosas celebridades do mundo da cultura. Para
só citar os nomes mais conhecidos fora da Alemanha: Otto Dix,
George Grosz, John Heartfield, Emil Orlik, Max Beckman, Christian
Schad (veja-se abaixo a sua Sonja sentada no Café Românico),
Max Herrmann-Neisse (escritor e boémio retratado por todos os
artistas da época), Bertolt Brecht, Kurt Weill, Erich Maria Remarque,
Franz Werfel, Kurt Tucholsky, Alfred Döblin, Heinrich Mann,
Vladimir Nabokov, Erich Kästener (o autor de Emílio e os
Detectives), Joseph Roth, Oskar Kokoschka ou os cineastas Fritz
Lang, Ernst Lubitsch e Samuel Wilder - o futuro Billy Wilder.

Esplanada coberta do Café Românico, 1925

Café Românico, 1930
O pintor Christian Schad, um dos cavaleiros da Nova Objectividade,
retratou a sua amiga Sónia fumando Camel por boquilha, sentada
no Café Românico, em 1928, de costas voltadas para o calvo
escritor Max Herrmann-Neisse, verdadeira peça de mobília do café,
de que o pintor apenas permitiu que se visse a orelha e uma nesga
do crânio. Sónia (Sonja), amiga de Schad, secretária de profissão
e modelo nas horas vagas, foi declarada pelo pintor rainha de
beleza do Café Românico.

Christian Schad, Sónia no Café Românico, 1928

Lesser Ury, Rapariga no Café Românico, 1911
Outra mulher sentada num café berlinense pelo mesmo Ury

Lesser Ury, Rapariga sentada num café, 1924
Tal como a clientela do Café Megalomania (alcunha importada,
recorde-se, de um célebre café de Viena), os habitués do Café
Românico também tinham uma grande ideia de si próprios. Veja-se
esta composição gráfica da época.

“Romanisches Café: sala de espera do génio e bolsa do artista.”
O café era também muito frequentado por intelectuais e artistas
judeus, entre os quais alguns dos acima já mencionados. Num
ambiente tendencialmente progressista, não podiam também faltar
os salonkommunisten, os comunistas de salão, que elegeram o
Café Românico como seu quartel general, a um pulo dos grandes
armazéns KaDeWe, Kaufhaus des Westens (inaugurado em 1907),
onde os revolucionários compravam as boas camisas e melhores
papillons com que combatiam nas fileiras anti-capitalistas.
Em Março de 1927, seis anos antes do triunfo de Hitler, o café foi
alvo de uma multidão de caceteiros nazis amotinados que
percorreram a avenida Kurfürstendamm lançando ataques e
provocações. Ao chegarem junto do Romanisches Café, um bando
de “camisas castanhas” entrou no estabelecimento e agrediu os
supostos judeus e comunistas que lá se encontravam.
Sob o regime de Hitler, o café entrou rapidamente em decadência,
perdendo a sua cientela de artistas e escritores e o clima de
liberdade que ali sempre se vivera. Muitos tiveram de emigrar e,
quando não o fizeram - caso de Otto Dix, Karl Hubbuch e Erich
Kästener - foram perseguidos, vendo as suas obras queimadas
em autos da fé ou incluídas em listas de “arte degenerada”.
Um bombardeamento britânico em 1943 deixou o edifício do café
em ruínas, bem como a igreja fronteira e toda a Praça Augusta
Victória, como foi acima dito. Foi a paga, diz-se, pela destruição do
bairro e Catedral de Coventry pelos alemães, num ataque aéreo que
ficou para a história como o Coventry blitz.

Deutsche Fotothek
Ruínas do Romanisches Café em 1946, vistas das ruínas da igreja fronteira
Um ano antes da tomada de poder por Hitler e onze anos antes de ser
destruída pela aviação inglesa, era assim a imponente igreja que se
situava em frente do Café Românico (repare-se no último prédio do
lado direito da rua, com um torreão mais baixo, que é o edifício do
café).

Kaiser Wilhelm Gedächtniskirche (Igreja Memorial do Imperador Guilherme) em 1932
Depois da guerra, a igreja destruída ainda tinha muita parede de pé.
Veja-se abaixo o seu estado em 1953, sob um manto de neve.

Kaiser Wilhelm Kirche, 1953
Depois optaram por conservar só a torre principal, demolindo o resto
e construindo umas modernices dos lados, obtendo-se desse modo
um conjunto horrendo, mas muito fotografado pelos turistas. Dois
poliedros de cimento, o mais baixo parecendo um galinheiro e o
mais alto um pombal. No meio, o “dente furado”, como a gíria
berlinense baptizou aquele resto de torre.

Arquitectura modernista a cavalo sobre neo-românico em ruínas
Curiosamente, estes pombais de betão só têm mais 60 anos do que
a igreja em ruína! A minha modesta proposta era que deitassem
tudo abaixo e fizessem uma nova igreja. Ou um jardim e um lago
com cisnes no meio.
Porque não deixaram antes ficar as ruínas como estavam em 1953?
A reconstrução teria sido possível a prazo, como aconteceu com a
Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora) de Dresden, que foi
reinaugurada solenemente em 30 de Outubro de 2005.

Frauenkirche, Dresden, 2005
Abaixo, como esta igreja era em 1935:

Frauenkirche, Dresden, 1935
E como ficou em 1945, depois de destruída pelos bombardeiros
ingleses:

Frauenkirche (primeiro plano), Dresden, 1945
© Texto de José Barreto
Karl Hubbuch - Auto-retrato














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