Friday, January 18, 2008

xxvi - Livro do Desassossego


Meus queridos vegetais!

Pessoa psicadélico (sobre foto de Vitoriano Braga, ca. 1920)



FIGURAS DOS CAFÉS

Trecho do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, segundo livro (Bernardo
Soares), n
ova edição de Teresa Sobral Cunha, Relógio d’Água, 2008, no prelo.



Sempre que podem, sentam‑se defronte do espelho. Falam
connosco e namoram‑se de olhos a si mesmos. Por vezes, como
é natural nos namoros
, distraem‑se da conversa. Fui‑lhes sempre
simpático, porque a minha aversão adulta pelo meu aspecto me
compeliu sempre a escolher o espelho como coisa para onde
virasse as costas. Assim, e eles de instinto o reconheciam
tratando‑me sempre bem, eu era o rapaz escutador que lhes
deixava sempre livres a vaidade e a tribuna.

Em conjunto não eram maus rapazes; particularmente eram melhores
e piores. Tinham generosidades e ternuras insuspeitáveis a um
tirador de médias, baixezas e sordidezes difíceis de adivinhar por
qualquer ente humano normal. Miséria, inveja e ilusão - assim os
resumo, e nisso resumiria aquela parte desse ambiente que se infiltra
na obra dos homens de valor que alguma vez fizeram dessa estância
de ressaca um pousio de enganados. (É, na obra de Fialho, a inveja
flagrante, a grosseria reles, a deselegância nauseante…)
Uns têm graça, outros têm só graça, outros ainda, não existem. A
graça dos cafés divide‑se em ditos de espírito sobre os ausentes e
ditos de insolência aos presentes. A este género de espírito
chama‑se ordinariamente apenas grosseria. Nada há mais
indicador da pobreza da mente do que não saber fazer espírito senão
com pessoas.

Passei, vi, e, ao contrário deles, venci. Porque a minha vitória
consistiu em ver. Reconheci a identidade de todos os aglomerados
inferiores: vim encontrar aqui, na casa onde tenho um quarto, a
mesma alma sórdida que os cafés me revelaram, salvo, graças aos
deuses todos, a noção de vencer em Paris. A dona desta casa ousa
Avenidas Novas em alguns dos seus momentos de ilusão, mas do
estrangeiro está salva, e o meu coração enternece‑se.
Conservo dessa passagem pelo túmulo da vontade a memória de um
tédio nauseado e de algumas anedotas com espírito.

e a posteridade nunca saberá deles, escondidos dela para sempre
sob a mole podre
dos pendões ganhados nas suas vitórias por vencer
.
 

Tudo ali é quebrado, anónimo e impertencente.
Vi ali grandes movimentos de ternura, que me pareceram revelar o
fundo de pobres almas tristes; descobri que esses movimentos não
duravam mais que a hora em que eram palavras, e que tinham raiz -
quantas vezes o notei com a sagacidade dos silenciosos - na analogia
de qualquer coisa com o piedoso, perdida com a rapidez da novidade
da notação, e, outras vezes, no vinho do jantar do enternecido. Havia
sempre uma relação sistematizada entre os humanitarismos e a
aguardente de bagaço e foram muitos os grandes gestos que sofreram
do copo supérfluo ou do pleonasmo da sede.

Essas criaturas tinham todas vendido a alma a um diabo da plebe
infernal, avarento de sordidezas e de relaxamentos. Viviam a
intoxicação da vaidade e do ócio, e morriam molemente, entre coxins
de palavras, num amarfanhamento de lacraus de cuspo.
O mais extraordinário de toda essa gente era a nenhuma importancia,
em nenhum sentido, de toda ela. Uns eram redactores dos principais
jornais, e conseguiam não existir; outros tinham lugares públicos em
vista do anuário, e conseguiam não figurar em nada da vida; outros
eram poetas até consagrados, mas uma mesma poeira de cinza lhes
tornava lívidas as faces párvuas, e tudo era um túmulo de
embalsamados hirtos, postos com a mão nas costas em posturas
de vidas.
Neles se intercalavam, como espaços, uns homens de mais idade,
alguns com ditos de espírito pregresso, que diziam mal como os
outros, e das mesmas pessoas.

Guardo do pouco tempo que me estagnei nesse exílio de esperteza
mental uma recordação de bons momentos de graça franca, de
muitos momentos monótonos e tristes, de alguns perfis recortados
no nada, de alguns gestos dados às serventes do acaso, e, em
resumo, um tédio de náusea física e a memória de algumas anedotas
com espírito.
Nunca senti tanta simpatia pelos inferiores da glória pública como
quando os vi malsinar por estes inferiores sem sequer essa pobre
glória. Reconheci a razão do triunfo porque os párias do Grande
triunfavam em relação a estes, e não em relação à humanidade.

Pobres semideuses marçanos que ganham impérios com a palavra
e a intenção nobre e têm necessidade de dinheiro com o quarto e
a comida!
Parecem as tropas de um exército desertado cujos chefes houvessem
um sonho de glória, de que a estes, perdidos entre os limos de pauis,
fica só a noção de grandeza, a consciência de ter sido do exército, e
o vácuo de nem ter sabido o que fazia o chefe que nunca viram.
Assim cada um se sonha, um momento, o chefe do exército de cuja
cauda descaiu. Assim cada um, entre a lama dos ribeiros, saúda a
vitória que ninguém pôde ter, e de que ficaram como migalhas entre
nódoas na toalha que se esqueceram de sacudir.
Enchem os interstícios da acção quotidiana como o pó os interstícios
dos móveis quando não são limpos com cuidado. Na luz vulgar do
dia comum vêem-se a luzir como vermes cinzentos contra o mogno
avermelhado ou entre o mogno e o dedo velho. Podem tirar-se com
um prego velho. Mas ninguém tem paciência para os tirar.
Meus pobres companheiros que sonham alto, como os invejo com
vergonha!
Comigo estão os outros - os mais pobres, os que não têm senão a
si mesmos a quem contar os sonhos e fazer o que seriam versos
se eles os escrevessem - os pobres diabos sem mais literatura que
a própria alma, sem ouvirem louvores da crítica, que morrem
asfixiados pelo facto de existirem sem terem feito aquele
desconhecido exame transcendente que habilita a viver.
Uns são heróis e prostram cinco homens a uma esquina de ontem.
Outros são sedutores e até as mulheres que nunca viram lhes não
ousaram resistir. Crêem isto quando o dizem, talvez o digam para
que o creiam. Outros, sonhando mais reles, ouvem e acreditam.
Para todos eles os vencidos do mundo, quaisquer que sejam, são
gente.
E todos como eirós num alguidar, se enrolam entre eles e se cruzam
uns acima dos outros e nem saem do alguidar. As vezes falam deles
os jornais. Os jornais falam d’alguns mais do que algumas vezes -
mas a fama nunca.
Esses são os felizes porque lhes é dado o sonho mentido da estupidez.
Mas aos que, como eu, têm sonhos sem ilusões (…)

Pobres diabos sempre com fome - ou com fome de almoço, ou com
fome de celebridade, ou com fome das sobremesas da vida. Quem
os ouve, e os não conhece, julga estar escutando os mestres de
Napoleão e os instrutores de Shakespeare .
Há os que vencem no amor, há os que vencem na política, há os que
vencem na arte. Os primeiros têm a vantagem da narrativa, pois se
pode vencer largamente no amor sem haver conhecimento célebre
do que sucedeu. É certo que, ao ouvir contar a qualquer desses
indivíduos as suas Maratonas sexuais, uma vaga suspeita nos
invade, pela altura do sétimo desfloramento. Os que são amantes
de senhoras de título, ou muito conhecidas (são, aliás, quase todos),
fazem um tal gasto de condessas que uma estatística das suas
conquistas não deixaria sérias e comedidas nem as bisavós dos
títulos presentes.
Outros especializam no conflito físico, e mataram os campeões de
boxe da Europa numa noite de pândega, à esquina do Chiado. Uns
são influentes junto de todos os ministros de todos os ministérios, e
estes são aqueles de que menos há que duvidar, pois não repugna (_)
Uns são grandes sádicos, outros são grandes pederastas, outros
confessam, com uma tristeza de voz alta, que são brutais com mulheres.
Trouxeram‑as ali, a chicote, pelos caminhos da vida. No fim ficam a
dever o café.
Há os poetas, há os (…)

Não conheço melhor cura para toda esta enxurrada de sombras que
o conhecimento direito da vida humana corrente, na sua realidade
comercial, por exemplo, como a que me surge no escritório da Rua
dos Douradores. Com que alívio eu volvia daquele manicómio de
títeres para a presença real do Moreira, meu chefe, guarda‑livros
autêntico e sabedor, mal vestido e mal tratado, mas, o que nenhum
dos outros conseguia ser, o que se chama um homem…
simples e autênticos, que passam pelas ruas da vida, com um destino
natural e calhado, essas figuras dos


Comparados com os homens  cafés assumem um aspecto que não
sei definir senão comparando‑as a certos duendes de sonhos -

figuras que não são de pesadelo nem de mágoa, mas cuja recordação,
quando acordamos, nos deixa, sem que saibamos porquê, um
sabor a um
nojo passado, um desgosto de qualquer coisa que está
com eles mas que se não pode definir como sendo deles.

Vejo os vultos dos génios e dos vencedores reais, mesmo pequenos,
singrar na noite das coisas, rasgando com proas desdenhosas,
sem
dificuldade,
nem sequer conhecimento, nesse mar de sargaço de
palha de garrafas e aparas de cortiça;
ali se resume tudo, como no
chão do saguão do prédio do escritório, que, visto através das
grades da janela do armazém, parece uma cela para prender lixo.

Irrita‑me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são
infelizes. A sua vida humana é cheia de tudo quanto constituiria uma
série de angústias para uma sensibilidade verdadeira. Mas, como a
sua verdadeira vida é vegetativa, o que sofrem passa por eles sem
Ihes tocar na alma, e vivem uma vida que se pode comparar somente
à de um homem rico com dor de dentes que houvesse recebido uma
fortuna—a fortuna autêntica de estar vivendo sem dar por isso, o maior
dom que os deuses concedem, porque é o dom de lhes ser
semelhante, superior como eles (ainda que de outro modo) aos
incidentes que chamamos alegria e dor
.

Por isto, contudo, os amo a todos. Meus queridos vegetais!


©
Teresa Sobral Cunha

Posted by J.B. in 12:53:28 | Permalink | No Comments »