Sunday, February 3, 2008

xxviii - Rudolph Lehnert


Os cafés mouros de

Rudolf Lehnert

Lehnert & Landrock: a sigla que melhor simboliza o esplendor do
exótico do Norte de África e Próximo Oriente nas primeiras décadas
do século XX. Já aqui trouxe postais com “cafés mouros” de Lehnert
& Landrock. Aqui vai mais um, pouco conhecido. Como sempre, o
narguilé ocupa um lugar central nestes locais a que se chama café.
Café mouro, em rigor.


Lehnert & Landrock, Café Mouro, Tunes, ca. 1910

Mulheres em cafés mouros é que não havia, nem na época nem, se
calhar, hoje. Para elas, a função convivial do café era encenada no
remanso do harém. Este postal marroquino com uma cena de interior
mostra como as raparigas e mulheres berberes tomavam o cafezito ou
o chá e sabiam as últimas fofocas através das amigas, que recebiam na
zona da casa que lhes estava reservada. A imagem é dum tal Rodolphe
Neuer, fotógrafo com loja em Tânger, mas que, segundo dizem, não é
outro senão o nosso Rudolf Lehnert.


Postal com a legenda ”No harém, Marrocos”

Rudolf Lehnert (1878-1948), nascido na Boémia austríaca foi um
fotógrafo orientalista baseado em Tunes, onde abriu estúdio em 1904.
Ele e o seu sócio alemão Ernst Landrock, o homem do laboratório e dos
aspectos comerciais, tiveram que trocar a Tunísia pelo exílio na Suiça
durante a Grande Guerra, mudando depois o seu poiso para o Cairo.
Publicaram, entre 1904 e o final dos anos 30, alguns milhares de
fotografias, postais ilustrados, fotogravuras e heliogravuras sobre as
terras e gentes do Magreb, Egipto e Próximo Oriente. Lehnert teve o
privilégio de fotografar no Cairo,
nos anos 20, o recém-descoberto
tesouro de Tutankhamon. Na Palestina, registaram para a História
imagens da coexistência pacífica e harmoniosa das comunidades árabe
e judaica. A revista National Geographic publicou imagens de Lehnert
nos anos 20-30. Uma loja do Cairo que usa
ainda hoje
o nome Lehnert
& Landrock continua a vender (algumas…) das suas fotografias e
gravuras feitas há oitenta ou cem anos. Em Lausanne (Suiça), o Musée
de l’Elysée guarda muitas centenas de negativos da antiga firma.

O Norte de África, especialmente a Tunísia e Argélia, o Egipto, a
Palestina, a Síria e o Líbano foram percorridos e fotografados por
estes apaixonados do mundo árabe, de que deixaram muitas vezes
uma imagem romântica, talvez idílica, mas respeitosa das tradições
árabes. 


Lehnert & Landrock - Mulher vendada

A sua obra é, também, interessantemente isenta dos pruridos
censórios que na actualidade imperam no mundo islâmico e também
em vastas manchas do mapa da cristandade. A obra de Lehnert &
Landrock é
hoje mal vista por alguns moralistas anti-imperialistas e
abominada por muçulmanos fundamentalistas, pudibundos cristãos de
várias estirpes e outros neuróticos moralmente correctos, mas
continua a fascinar um vasto público, não exclusivamente ocidental.
Irritam muita gente
algumas fotografias de rapazes, raparigas,
homens e mulheres, sobretudo as menos vestidas. Mas continuam a
ser muitos os que se deixam fascinar por essas imagens, a que se
podem acrescentar as fotografias do deserto, dos oásis, das kasbahs,
dos mercados, das mesquitas e das ruínas de interesse arqueológico.
Até os mendigos cegos, tema de numerosas gravuras e postais,
parecem vestidos duma luz especial nas suas djelabas esfarrapadas.
Imagens dum mundo perdido, impossíveis de repetir hoje, na sua
maioria.


Aqui vão algumas imagens de belas beduínas e berberes em reduzida
indumentária, para bem dos nossos olhos.


Lehnert & Landrock, Nu de rapariga tunisina, heliogravura ca. 1910


Lehnert & Landrock, Rapariga berbere tunisina, heliogravura


Lehnert & Landrock, A bela Fatma, da tribo dos Ouled Nail (Argélia)



Lehnert & Landrock, outra perspectiva da bela Fatma



Lehnert & Landrock, Duas amigas Ouled Nail


Lehnert & Landrock, Rapariga Ouled Nail

Não se pense que foi fácil, mesmo há cem anos, fazer fotografia
artística de nus nos países do Norte de África. Nas cidades, só
prostitutas se prestavam a fazer de modelo, o que conferia uma má
nota às fotografias.

Eis o que, a propósito das dificuldades experimentadas, escreveram
Lehnert e Landrock:
Malgré de grandes difficultés nous avons réussi
à compléter notre collection par des études artistiques de nues. C’est
surtout chez les Bédouins nomades, sous les tentes des campements,
que nous avons trouvé des modèles jeunes et convenant au but visé.
Des corps aux formes idéales, brunis par les chauds rayons du soleil,
photographiés dans des attitudes décentes et des poses d’abandon
gracieux ont fourni matière à des images qui eurent beaucoup de
succès dans les cercles d’artistes surtout. 
(Do prefácio do catálogo de
imagens da firma, em 1922)

Em despedida, este nu com ânfora, digno do ambiente mirífico das Mil
e Uma Noites:


Lehnert & Landrock, Rapariga tunisina ca. 1910

Posted by J.B. at 20:58:44 | Permalink | Comments (1) »