xxxi - Cafés parisienses
Cafés parisiens en noir & blanc
Imagens da primeira metade do século XX
Uma imagem de fotógrafo amador, mas famoso. O retratado
também é célebre. A modelo sentada ao lado, sua namoradita
de então, nem tanto.

A foto de Cocteau é capa de um livro de Billy Klüver, A Day
with Picasso: Twenty-four Photographs by Jean Cocteau,
MIT Press, 1997. Klüver reuniu vinte e quatro fotografias que
andavam dispersas, descobriu o seu autor, o nexo entre elas,
o local que lhes serviu de cenário e, num verdadeiro tour de
force, determinou o dia e as horas em que foram tiradas.
Identificou todos os personagens retratados e estudou as
relações entre eles, produzindo um livro de 109 páginas e
70 ilustrações que é um mimo.
Klüver é também co-autor de
Kiki’s Paris: Artists and Lovers1900-1930, um espantoso álbum sobre o meio artístico
parisiense, com capa e título de homenagem a Kiki, rainha
dos cafés e da noite de Montparnasse, de quem já aqui falei.
Um dos maiores fotógrafos da noite parisiense foi um
húngaro chamado Gyula Juhász, conhecido por Brassaï,
por ser natural da cidade de Brassó, então húngara, hoje
romena (Brasov). A foto seguinte, que é capa de um livro
recente, tem o pormenor das imagens espelhadas do par
de namorados.

Brassaï - Couple d’amoureux dans un petit café, quartier Italie, ca. 1932



O livro
recente sobre o autor, edição Taschen
E esta curiosidade

Brassaï - mesmo café, mesmos amantes, lugares trocados.
As imagens no espelho desapareceram.
Outra foto de um par de namorados, também com imagens
espelhadas

Brassaï - Couple au bal musette des Quatre-Saisons, 1932
Robert Doisneau também fotografou cafés e os personagens
deles.

Robert Doisneau - Café de Flore, 1947

Robert Doisneau - Simone de Beauvoir aux Deux Magots, 1944

La mème, par le même, au même endroit. Simone escrevia, talvez,
Le sang des autres (1945).
Outro húngaro, este de Budapest, também andou por Paris
nos anos 20 e 30. Chamava-se Andor, mas depois
afrancesou para André. O apelido era Kertész. A foto
parisiense abaixo, com a mulher Elizabeth, é de 1931.

André Kertész - Autoportrait avec Elizabeth dans un café de Montparnasse, 1931
Uma mesa de café em Paris e um poema em húngaro: assim
poderia ter começado um poema de Endre Ady (1877-1919).

Kertész - Mesa de café em Paris com um poema de Ady - 1928
Serge Jacques, fotógrafo de mulheres nuas para revistas de
adultos que os rapazes viam à socapa (Paris-Hollywood,
etc). Foi dos primeiros a publicar nessas revistas francesas
fotos de mulheres com pelos púbicos à vista. Fotografou a
BB nua nos anos 50. Esta foto aqui, bastante fora do baralho,
é já dos anos 70.

Serge Jacques - Femme au Café de Flore
Edouard Boubat (1923-1999) - um grande fotógrafo francês,
reconhecível pelas suas imagens ternas e intimistas - fez
belas fotos de Portugal, especialmente Nazaré, nos anos 50.
Esta esplanada parisiense era muito bem frequentada, gente
de monóculo e canídeos com pedigree. O cão não lê o jornal
porque o dono lhe explica as notícias.
Edouard Boubat - A la terrasse des Deux Magots, 1953.
Boris Vian disse que “se não houvesse cafés, não teria
havido Jean-Paul Sartre”. Em baixo, mais três fotos de
Brassaï, no Café de Flore. Dois retratos de Sartre e um
de Beauvoir em ‘grande pose’ de escritores na Paris
recém-libertada (em francês, Paris é masculino, em
português é feminina, vá-se lá saber porquê). Duas
grandes figuras da intelectualidade da época, a cairem
hoje no esquecimento - talvez mais Jean-Paul, apesar
de nobelizado, do que Simone. O mais lembrado dos
três, actualmente, deve ser o fotógrafo. A cultura do
visual a avançar. Sic transit gloria…

Brassaï - Jean Paul Sartre au Café de Flore, 1944. Sartre escrevia, então, as
Réflexions sur la question juive ou a trilogia romanesca Les Chemins de la liberté.

Idem, idem, aspas, aspas.

Brassaï - Simone de Beauvoir au Café de Flore, 1944
No fim da vida de Sartre, o famoso par intello apoiou as
causas mais díspares, algumas delas um bocado idiotas,
como o movimento maoista francês, os terroristas do bando
anarca Baader-Meinhof e o ayatollah Khomeiny. Antes de
morrer, em 1980, Sartre ainda pareceu renegar o ateísmo,
numa célebre entrevista ao seu secretário Benny Lévy em
que manifestou interesse pelo judaísmo messiânico. O
velho escritor já estava meio demente, como alguns amigos
próximos testemunharam, e deixou-se enrolar na conversa
do Lévy.
—
Post Scriptum

Em 2008, o que mais tem feito falar sobre a intelectual
Simone de Beauvoir são as suas nádegas. A cultura do
visual sempre a avançar…
Em 3 de Janeiro deste ano, a revista Nouvel Observateur
publicou na capa uma fotografia de Simone nua, de costas,
tirada em 1952, em Chicago. O seu autor foi um jovem
fotógrafo da revista Life, rapaz atrevido que tinha
acompanhado Simone, a pedido do amante americano
dela, a uma casa para tomar banho. A porta do quarto de
banho não fechava. O rapaz, oportunista, aproveitou. Agora
Art Shay, o fotógrafo, conta que ela ouviu o clic da Leica e
só lhe terá dito: “You are a nasty boy!” Acredite quem quiser.
Eis a foto que fez escândalo entre feministas e outras beatas,
mas sem os retoques feitos para a capa do Nouvel
Observateur.

Photo Art Shay/Courtesy Stephen Daiter Gallery
Vejam só a diferença que os retoques fazem.

© Texto de José Barreto








