Tuesday, July 22, 2008

xxxi - Cafés parisienses


Cafés parisiens en noir & blanc
Imagens da primeira metade do século XX


Uma imagem de fotógrafo amador, mas famoso. O retratado
também é célebre. A modelo sentada ao lado, sua namoradita
de então, nem tanto. 


Jean Cocteau - Picasso e Paquerette no Café de la Rotonde, 12 de Agosto de 1916

A foto de Cocteau é capa de um livro de Billy Klüver, A Day
with Picasso: Twenty-four Photographs by Jean Cocteau
,
MIT Press, 1997. Klüver reuniu vinte e quatro fotografias que
andavam dispersas, descobriu o seu autor, o nexo entre elas,
o local que lhes serviu de cenário e, num verdadeiro tour de
force, determinou o dia e as horas em que foram tiradas.
Identificou todos os personagens retratados e estudou as
relações entre eles, produzindo um livro de 109 páginas e
70 ilustrações que é um mimo. 

Klüver é também co-autor de Kiki’s Paris: Artists and Lovers
1900-1930
, um espantoso álbum sobre o meio artístico
parisiense, com capa e título de homenagem a Kiki, rainha
dos cafés e da noite de Montparnasse, de quem já aqui falei. 

 

Um dos maiores fotógrafos da noite parisiense foi um
húngaro chamado Gyula Juhász, conhecido por Brassaï,
por ser natural da cidade de Brassó, então húngara, hoje
romena (Brasov). A foto seguinte, que é capa de um livro
recente, tem o pormenor das imagens espelhadas do par
de namorados.


Brassaï - Couple d’amoureux dans un petit café, quartier Italie, ca. 1932

O livro recente sobre o autor, edição Taschen

E esta curiosidade


Brassaï - mesmo café, mesmos amantes, lugares trocados.
As imagens no espelho desapareceram.

Outra foto de um par de namorados, também com imagens
espelhadas


Brassaï - Couple au bal musette des Quatre-Saisons, 1932


Robert Doisneau também fotografou cafés e os personagens
deles.


Robert Doisneau - Café de Flore, 1947


Robert Doisneau - Simone de Beauvoir aux Deux Magots, 1944


La mème, par le même, au même endroit. Simone escrevia, talvez,
Le sang des autres (1945).

Outro húngaro, este de Budapest, também andou por Paris
nos anos 20 e 30. Chamava-se Andor, mas depois
afrancesou para André. O apelido era Kertész. A foto
parisiense abaixo, com a mulher Elizabeth, é de 1931.


André Kertész - Autoportrait avec Elizabeth dans un café de Montparnasse, 1931


Uma mesa de café em Paris e um poema em húngaro: assim
poderia ter começado um poema de Endre Ady (1877-1919).


Kertész - Mesa de café em Paris com um poema de Ady - 1928

Serge Jacques, fotógrafo de mulheres nuas para revistas de
adultos que os rapazes viam à socapa (Paris-Hollywood,
etc). Foi dos primeiros a publicar nessas revistas francesas
fotos de mulheres com pelos púbicos à vista. Fotografou a
BB nua nos anos 50. Esta foto aqui, bastante fora do baralho,
é já dos anos 70.


Serge Jacques - Femme au Café de Flore

Edouard Boubat (1923-1999) - um grande fotógrafo francês,
reconhecível pelas suas imagens ternas e intimistas - fez
belas fotos de Portugal, especialmente Nazaré, nos anos 50.
Esta esplanada parisiense era muito bem frequentada, gente
de monóculo e canídeos com pedigree. O cão não lê o jornal
porque o dono lhe explica as notícias.



Edouard Boubat - A la terrasse des Deux Magots, 1953.

Boris Vian disse que “se não houvesse cafés, não teria
havido Jean-Paul Sartre”.
Em baixo, mais três fotos de
Brassaï, no Café de Flore. Dois retratos de Sartre e um
de Beauvoir em ‘grande pose’ de escritores na Paris
recém-libertada (em francês, Paris é masculino, em
português é feminina, vá-se lá saber porquê). Duas
grandes figuras da intelectualidade da época, a cairem
hoje no esquecimento - talvez mais Jean-Paul, apesar
de nobelizado, do que Simone.
O mais lembrado dos
três, actualmente, deve ser o fotógrafo. A cultura do
visual a avançar. Sic transit gloria…


Brassaï - Jean Paul Sartre au Café de Flore, 1944. Sartre escrevia, então, as
Réflexions sur la question juive ou a trilogia romanesca Les Chemins de la liberté.


Idem, idem, aspas, aspas.


Brassaï - Simone de Beauvoir au Café de Flore, 1944

No fim da vida de Sartre, o famoso par intello apoiou as
causas mais díspares, algumas delas um bocado idiotas,
como o movimento maoista francês, os terroristas do bando
anarca Baader-Meinhof e o ayatollah Khomeiny. Antes de
morrer,  em 1980, Sartre ainda pareceu renegar o ateísmo,
numa célebre entrevista ao seu secretário Benny Lévy em
que manifestou interesse pelo judaísmo messiânico. O
velho escritor já estava meio demente, como alguns amigos
próximos testemunharam, e deixou-se enrolar na conversa
do Lévy.

Post Scriptum

Em 2008, o que mais tem feito falar sobre a intelectual
Simone de Beauvoir são as suas nádegas. A cultura do
visual sempre a avançar…

Em 3 de Janeiro deste ano, a revista Nouvel Observateur
publicou na capa uma fotografia de Simone nua, de costas, 
tirada em 1952, em Chicago. O seu autor foi um jovem
fotógrafo da revista Life, rapaz atrevido que tinha
acompanhado Simone, a pedido do amante americano
dela, a uma casa para tomar banho. A porta do quarto de
banho não fechava. O rapaz, oportunista, aproveitou. Agora
Art Shay, o fotógrafo, conta que ela ouviu o clic da Leica e
só lhe terá dito: “You are a nasty boy!” Acredite quem quiser.

Eis a foto que fez escândalo entre feministas e outras beatas,
mas sem os retoques feitos para a capa do Nouvel
Observateur
.


Photo Art Shay/Courtesy Stephen Daiter Gallery

Vejam só a diferença que os retoques fazem.

© Texto de José Barreto

Posted by J.B. at 00:35:58 | Permalink | No Comments »

Sunday, July 6, 2008

xxx - Brasileira


A Brasileira do Chiado

Há muito que era devido falar aqui um pouco mais da Brasileira, um
dos últimos cafés de Lisboa a parecer-se ainda, vagamente, com o
que era há 80 anos.
Até meados do século passado, havia duas
Brasileiras em Lisboa: a do Rossio e a do Chiado. Daí o chamar-se
por vezes a este café a “Brasileira do Chiado”.

Claro que também se mantém o nome pela circunstância de haver
várias outras Brasileiras pelo país, a mais bonita das quais se
encontra na Rua de Sá de Bandeira, no Porto. A mais recente
Brasileira apareceu, há pouco, na praceta central de Alvarenga,
uma freguesia rural do concelho de Arouca, nos confins do distrito de
Aveiro com o de Viseu. Tem uma explicação: Alvarenga é a terra de
origem do fundador e dos vários proprietários da Brasileira do Chiado
até à actualidade.

A Brasileira é o meu café preferido na capital. Ainda hoje, depois de
uma ronda pelos alfarrabistas, gosto de me sentar lá das 19h30 até
às 20h30. É a hora mágica, em que há pouca clientela, pouco barulho
e a luz do dia se vai imperceptivelmente transformando em luz
eléctrica, convocando, naquele estado semipenumbroso, os fantasmas
da ilustre clientela de outrora.


Foto de Pedro Vilela - flickr

Hoje, em qualquer época do ano, metade ou mais dos clientes do café 
são turistas. Chamo-lhes a legião estrangeira, porque vestem
fardamenta do deserto, andam armados até aos dentes de mapas e
guias de Lisboa e disparam furiosamente máquinas fotográficas em
todas as direcções.

O serviço da casa é mau, mas, como sou conhecido na casa, nem
preciso de pedir a cerveja à temperatura ambiente que sempre
ali bebo. Trazem-ma em menos de dez minutos! Só têm uma marca, e
logo a pior de todas. Mas, em compensação, o lugar é
smoker friendly.
Tudo ou quase tudo se pode ali  fumar, do cachimbo ao charuto,
passando pelos detestáveis cigarros que o mau gosto da maioria lhes 
faz fumar, coitados. 


Foto de Pedro Vilela - flickr

O café propriamente dito, a infusão que lá se bebe, já foi boa, mas
hoje não é. O eterno slogan “O melhor café é o da Brasileira” passou,
na realidade, a “foi”.

As mesas do café são incómodas para as pernas, que mal se ajeitam,
debaixo dos pequenos tampos hexagonais de mármore, entre uns
pés de ferro forjado absolutamente disfuncionais. As paredes são
forradas a espelhos enquadrados em madeira, com falsas colunas
dóricas de mármore negro a separá-los. A iluminação sobre as mesas
é boa, permitindo ler e escrever. O chão da Brasileira é maçónico, um
mosaico em xadrez de mármore preto e branco, mas a coisa parece
que se não pega aos clientes católicos.

Os tectos são pintados a cores de bordel de luxo e os candelabros
dele dependurados são a condizer.


Foto: Diário de Portugal

Ao fundo, sobre a parede, rodeado de uma pintura a óleo de Noronha
da Costa feita directamente sobre o reboco, está um velho relógio de
estação de caminhos de ferro, que geralmente não funciona.


Foto de Pedro Vilela - flickr

Pinturas de vários pintores dos anos 60 a 80 - Nery, Nikias, Rodrigo,
Hogan - decoram o alto das paredes, mostrando sinais de sujidade
e deterioração. O ambiente geral não é cuidado e o barulho dos pires,
chávenas, máquinas e moinhos de café é francamente desagradável.

Obras feitas nos anos 80 colocaram a escadaria para a cave logo à
entrada do café, o que faz com que os miasmas procedentes dos
sanitários seja muitas vezes a primeira sensação que se tem quando
ali se chega. Na cave há um pseudo-restaurante sem luz nem ar,
onde quase ninguém come. Por causa daquilo puseram as escadas à
entrada do café, suprimindo as mesas que lá estavam.

A velha Brazileira dos inícios era com z. De fora, não tinha ar de café.
Ao lado, já lá estava a retrozaria David & David, com a fachada que
ainda hoje se conserva.


A Brasileira por volta de 1911, foto de Joshua Benoliel. Em 1925 aquilo
levou uma volta e ficou como hoje está.

Em 1928, data da foto abaixo, havia verdadeiras tertúlias literárias
e artísticas na Brasileira do Chiado. Por acaso, Fernando Pessoa
não ficou nesta imagem, mas podia ter ficado - a não ser que seja
aquele no canto superior esquerdo, de pé, com chapéu e óculos, a
mão a tapar a boca e o nariz. O seu amigo Augusto Ferreira Gomes
está lá, sentado à direita, de chapéu na mão. Rodriguez Castañé,
autor de vários retratos de Pessoa, também lá está. Quatro dos
tertulianos estão de chapéu na cabeça, curioso costume dos cafés
de antigamente, mesmo em Paris. Hoje isso seria cómico…


1 - Teixeira de Pascoaes  2 - Gustavo de Matos Sequeira  3 - Pintor António Soares
4 - Joshua Benoliel  5 - Pintor Adolfo Rodríguez Castañé  6 - Augusto Ferreira Gomes
7 - Pintor Jorge Barradas  8 - Criado de mesa João Franco

Não podia faltar aqui o célebre quadro de Almada representando
uma cena da Brasileira, embora o café esteja praticamente
irreconhecível.
O artista está à esquerda com um desenho na
mão, para não enganar. A cabeça dele tem cerca do dobro do
volume cefálico dos seus acompanhantes, talvez por estar em
primeiro plano, talvez não. Já algures o disse aqui: Sarah Afonso,
sua futura mulher, conheceu-o neste café. Azar dela. O homem
devia ser um chato do caraças, com um ego insuportável.
 


Almada Negreiros - Auto-retrato num grupo, 1925.

CAM, Fundação Gulbenkian



No chão, o Z passou a S, mas fora da linha…

© Texto de José Barreto

Posted by J.B. at 22:58:15 | Permalink | Comments (1) »