Sunday, October 26, 2008

xl - Caffe Reggio


Caffe Reggio, N.Y.


Foto: K. Basu. Origem: photo.net

Nova Iorque tem poucos cafés merecedores desse nome.
Entre os poucos, os melhores são obra de italianos e neles 
se bebe o melhor espresso da megalópolis.

O Cafe Reggio, em Greenwich Village, é um dos mais
conhecidos. Fundado em 1927 por Domenico Parisi,
continuado depois pela família Cavallaci, o café foi
frequentado por Elvis Presley, Bob Dylan, Jack Kerouac 
e Joseph Brodsky. Nele se filmaram cenas dos filmes
Padrinho II, Next Stop Greenwich Village e The Next Man,
com Sean Connery. 

O Caffe Reggio gaba-se de ter introduzido o cappuccino em
Nova Iorque, o que não sabemos se será verdade, pois os
italianos são muito aldrabões.


Al Pacino, que ali rodou cenas do Padrinho II, é um dos
clientes emblemáticos da casa. Ei-lo, aqui em baixo, na
esplanada do café, há coisa de vinte anos, a fingir que lê um
livro. Sobre a mesa, o guião de um filme, talvez. Nesse ano,
1989, Pacino filmou Sea of Love.


Al Pacino no Caffe Reggio, Greenwich Village, NY, 1989. Reparar
no velho moinho de café exposto na montra.



Umberto Ecco no Caffe Reggio, 1994. Ainda se fumava lá dentro…


Caffe Reggio, foto publicada no New York Magazine, 1994


Esta foto do Caffe Reggio é dos anos 60.

A espantosa máquina do espresso, que se vê por trás, dizem
que é de 1902. Hoje está lá exposta, mas já não faz café.

Compare-se, abaixo, com esta outra maravilhosa máquina de
café italiana de um espresso coffee shop nova-iorquino, em
1943. Parecem absolutamente iguais.


Espresso coffee shop, N.Y., 1943. Photo: Library of Congress.

O Caffe Reggio tem menu online com sete páginas de bebidas
e comidas. Os preços são iguais aos de Lisboa ou mesmo mais
baixos!

Origem das fotografias, excepto a primeira e a última: www.cafereggio.com 

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Wednesday, October 22, 2008

xxxix - Cenas vienenses


Cenas de café vienenses


Cadeira de Café Vienense nº 14 (Wiener Kaffeehausstuhl Nr.14) ,
produzida pela firma Thonet desde meados do século XIX.


Cadeira de Café Vienense n.º 18


Já aqui falei do Café Central, do Café Hawelka, do Café
Griensteidl, do Café Museum e de vários outros cafés históricos 
de Viena.

Também já aqui falei das pessoas famosas que os frequentaram
entre finais do século XIX e o começo do nazismo.

Trago agora, além das cadeiras de café, estas fotos com
cenas de pessoas anónimas dessa mesma época dourada
da cultura vienense, antes que o fanatismo e a barbárie nazis
apagassem as luzes. 


Café Wien, Viena, ca.1900.

Café iluminado a gás, com bilhares, muitos clientes homens,
mas senhoras ao balcão.


Físicos austríacos em café de Viena cerca de 1910.

Os cafés perto do Instituto de Física e do Instituto de Rádio
eram local de reunião dos cientistas que ali trocavam ideias,
liam jornais e falavam de bagatelas.


Estudantes em café vienense por volta de 1930. Foto: col. Maria Rentetzi.

Os cafés de Viena dos anos 10, 20 ou 30 já não eram nada
misóginos, ao contrário de outras paragens, como, por
exemplo, Lisboa.


Mais uma cadeira de café vienense, esta desenhada pelo arquitecto 
Adolf Loos, em 1899, para o Café Museum, aberto nesse mesmo ano,
obra do mesmo Loos.


Do mesmo Loos, estas cadeiras para o Café Capua, de Viena (1913).


Mais quatro cadeiras do Café Capua. Só falta a mesa…

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Monday, October 13, 2008

xxxviii - Café Martinho

Café Martinho

O Café Martinho, não o da Arcada, mas o que se encontrava até
aos anos 60 na Praça D. João da Câmara, e que pertenceu ao
mesmo dono do outro, foi poiso de Fialho de Almeida, como atrás
vimos, e de muitos outros escritores, artistas e boémios da capital.
Consta que Pessoa e Sá-Carneiro ali se encontravam para rever
provas tipográficas do Orfeu
. No meio desta xaropada decorativa
de arte nova no seu pior, é para admirar que mantivessem a
inspiração.

Desde 1846, ano da sua fundação, é longa a lista das celebridades
que lá assentaram arraiais. «Alexandre Herculano ia lá sempre às
quintas-feiras à tarde. Almeida Garrett, Bulhão Pato, o actor Tasso,
o livreiro Zeferino Albuquerque, Pedro Lopes de Mendonça,
Zacarias d’Aça, Júlio de Castilho, Camilo Castelo Branco, Júlio
César Machado, José Estêvão, Mendes Leal e Guerra Junqueiro 
também figuram no leque da clientela assídua deste café»,
dizem 
uns. Outros acrescentam a esta lista Rafael Bordalo Pinheiro,
Marcelino Mesquita, Silva Gaio, D. João da Câmara, Gualdino
Gomes (vice-pontífice de café), Heliodoro Salgado, João Chagas,
Eugénio de Castro e Abel Botelho.
Mais modernamente, nos anos
50-60 do século XX, o Martinho serviu de segunda casa a Augusto
Abelaira, José Gomes Ferreira e outros.

Outra perspectiva da sua sala principal, que eu ainda conheci nos
ditos anos 60. A decoração
que se vê nas duas fotos é de 1909,
após profunda remodelação do espaço.
Se calhar, estragaram…

A fachada do café era esta abaixo, antes de lá porem um banco,
que agora por acaso se chama BPI. Um pouco mais à esquerda
ficava o Café Suiço, de que também se falou já aqui. O prédio do
Café Suiço (aliás: Suisso) foi abaixo, para construirem aquele que
lá está agora na esquina da Rua 1.º de Dezembro, tendo a Caixa
Geral de Depósitos no rés-do-chão.



A foto do postal é de Eduardo Portugal


A fachada do café com as vidraças partidas por manifestantes durante a I República

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Sunday, October 12, 2008

xxxvii - Fialho

A culpa foi do café 


Alfredo Cândido - Postal alusivo ao autor dos Gatos, 1906

Fialho de Almeida, grande boémio e talentoso escritor
contemporâneo de Eça, de quem invejava o êxito, passou
boa parte da sua vida em cafés. «Pontífice de café», assim
lhe chamaram. O Café Martinho e o Café Suiço, em frente à
Estação do Rossio, e a Brasileira eram o seu poiso diário

«Nos meus primeiros anos de escolar, não me lembro de sair
nunca do Martinho, com o pai Rosa e António Pedro e outros
noctâmbulos, senão depois de terem batido no Carmo as
quatro da alva» - confessa Fialho em Figuras de Destaque.

Avaliando como nefasto o efeito da mesa de café sobre Fialho
e a sua obra, Alfredo Gallis, um escritorzeco de que não reza
a história, escreveu em 1903 sobre o ‘Pontífice de café’, ainda
ele era vivo, este naco de prosa, talvez com a intenção de o
levar a arrepiar caminho:

   «Eu tenho como axioma que o café (não o líquido deste
nome, mas as casas onde ele se vende) tem feito mais mal
aos literatos do que toda a falta de estudo e de talento de
que é notada a maioria dos que assim se intitulam.
   O café é a bomba aspirante que sorve todas as ideias,
todos os estímulos, todo o desejo de trabalho, toda a boa
vontade em progredir e fazer alguma cousa. Dispendem-se
nele horas de estéril conversação que, melhor aplicadas,
dariam um resultado benéfico.
   Ponto de reunião dos rapazes que rabiscam na areia dos
jardins do palácio das letras, quando saem dele vão
completamente inutilizados para se sentarem à mesa do
trabalho e fazerem alguma coisa.
   Fialho, pela sua vida de estudante sem família em Lisboa,
não escapou à regra. À porta do Suiço tem ele desperdiçado
dezenas de magníficos artigos literários que, postos em livro,
seriam outros tantos documentos da sua brilhante inteligência.
   [...]
   Somando as horas que ele tem gasto no café a
comentar coisas e a alfinetar factos e pessoas, quase que
já tinha adquirido mais de metade do tempo que julga
necessário para a composição da sua obra primacial.»

Estará assim explicado porque não conseguiu nunca Fialho
escrever o romance que ombreasse com o
Crime do Padre
Amaro
ou Os Maias? Claro que não, o argumento de Gallis
é débil. 

Grandes escritores e artistas coçaram os cotovelos dos
casacos e os fundilhos das calças em cafés. Não consta que
Pessoa, Picasso, Toulouse Lautrec ou Sá Carneiro tenham
por isso perdido a ocasião de produzir obras primas. A avaliar
pela obra que Alfredo Gallis deixou, ele que nunca perdeu
tempo em cafés, a resposta é duas vezes não!


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Saturday, October 11, 2008

xxxvi - Meninas em cafés

Meninas em cafés


Maurice Brange - Au café, anos 20


Sonia Steinsapir - Au café, 1935


Louis Stettner - Pigalle, 1949


Georges Capon - Au café, 1927


Charles Réal - Café de Montparnasse, 1930


Café, século XXI

The times they are a-changin…

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Tuesday, October 7, 2008

xxxv - Cenas oitocentistas

Cenas de café oitocentistas


Alessandro Milesi - Al caffè, Venezia, 1890


Fernand Harvey Lungren (1857-1932) - Café Scene, 1882-1885


Degas - Au Café Châteaudun, ca 1870


Manet - Au café, 1878


Henri Gervex (1852–1929) - Cena de café em Paris, 1877. A tela está
inacabada em baixo e à direita.


O Café
Guerbois, em Batignolles, era poiso de Manet (autor
do desenho abaixo) e de uma grande tertúlia de artistas e 
escritores, entre os quais Zola, Bazille, Duranty, Fantin-
Latour, Degas, Monet, Renoir e Sisley. Por vezes também
apareciam Cézanne e Pissarro.



Manet - Tertúlia do Café Guerbois, 1869

O Andler-Keller era um café bem iluminado a gás, equipado 
com bilhares e frequentado por intelectuais como Baudelaire
e Proudhon, artistas como Courbet (autor da gravura abaixo),
Corot e Daumier. Era também meio cervejaria, meio bordel,
ao que consta.


Gustave Courbet - Café Andler-Keller (1848). Esta gravura ilustra o livro
Histoire anecdotique des cafés et cabarets de Paris, de Alfred Delvau (1862).


Vuillard - Scène de café, 1899


Vuillard - Au café, 1897-1899

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Sunday, October 5, 2008

xxxiv - Poema de café

O
mais
belo poema
de café



Mário de Sá Carneiro na Brasileira, por Almada Negreiros,
cores acrescentadas.



5 Horas

Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto… A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes teem côres
Mais vivas e mais brutais.)

Sôbre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber…

Sôbre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
— Pois ha um ano que fumo —
Imaginario presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beija-la, claramente…)

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nêle outro enredo concentra.

É o carmim daquela bôca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha idea persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades…

(Que história d’Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui heroi de novela
Que autor nenhum empregou…)

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não ha melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cubiça.

Mário de Sá Carneiro

Do livro de versos Poemas de Paris,
deixado inédito pelo autor.

Publicado postumamente na revista
Contemporânea, nº10.

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