Sunday, October 12, 2008

xxxvii - Fialho

A culpa foi do café 


Alfredo Cândido - Postal alusivo ao autor dos Gatos, 1906

Fialho de Almeida, grande boémio e talentoso escritor
contemporâneo de Eça, de quem invejava o êxito, passou
boa parte da sua vida em cafés. «Pontífice de café», assim
lhe chamaram. O Café Martinho e o Café Suiço, em frente à
Estação do Rossio, e a Brasileira eram o seu poiso diário

«Nos meus primeiros anos de escolar, não me lembro de sair
nunca do Martinho, com o pai Rosa e António Pedro e outros
noctâmbulos, senão depois de terem batido no Carmo as
quatro da alva» - confessa Fialho em Figuras de Destaque.

Avaliando como nefasto o efeito da mesa de café sobre Fialho
e a sua obra, Alfredo Gallis, um escritorzeco de que não reza
a história, escreveu em 1903 sobre o ‘Pontífice de café’, ainda
ele era vivo, este naco de prosa, talvez com a intenção de o
levar a arrepiar caminho:

   «Eu tenho como axioma que o café (não o líquido deste
nome, mas as casas onde ele se vende) tem feito mais mal
aos literatos do que toda a falta de estudo e de talento de
que é notada a maioria dos que assim se intitulam.
   O café é a bomba aspirante que sorve todas as ideias,
todos os estímulos, todo o desejo de trabalho, toda a boa
vontade em progredir e fazer alguma cousa. Dispendem-se
nele horas de estéril conversação que, melhor aplicadas,
dariam um resultado benéfico.
   Ponto de reunião dos rapazes que rabiscam na areia dos
jardins do palácio das letras, quando saem dele vão
completamente inutilizados para se sentarem à mesa do
trabalho e fazerem alguma coisa.
   Fialho, pela sua vida de estudante sem família em Lisboa,
não escapou à regra. À porta do Suiço tem ele desperdiçado
dezenas de magníficos artigos literários que, postos em livro,
seriam outros tantos documentos da sua brilhante inteligência.
   [...]
   Somando as horas que ele tem gasto no café a
comentar coisas e a alfinetar factos e pessoas, quase que
já tinha adquirido mais de metade do tempo que julga
necessário para a composição da sua obra primacial.»

Estará assim explicado porque não conseguiu nunca Fialho
escrever o romance que ombreasse com o
Crime do Padre
Amaro
ou Os Maias? Claro que não, o argumento de Gallis
é débil. 

Grandes escritores e artistas coçaram os cotovelos dos
casacos e os fundilhos das calças em cafés. Não consta que
Pessoa, Picasso, Toulouse Lautrec ou Sá Carneiro tenham
por isso perdido a ocasião de produzir obras primas. A avaliar
pela obra que Alfredo Gallis deixou, ele que nunca perdeu
tempo em cafés, a resposta é duas vezes não!


Posted by J.B. at 00:13:03
Comments

One Response to “xxxvii - Fialho”

  1. Nuno Pereira says:

    O que o arredou da “consagração” que outros menos inspirados atingiram, foi ser critico com o novo regímen e não um “artista oficial” da República…
    Cumps!

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