xli - New York Kávéház
New York Kávéház
- Café New York,
Budapest, Hungria

Café New York, Budapest, hoje.
No rés-do-chão do Palácio New York, situado no centro de
Budapeste, existe há mais de cem anos um café do mesmo
nome. Pelas suas mesas de mármore passaram gerações
de escritores, jornalistas, artistas e políticos. A nata dos
escritores do século XX tinha lá a sua segunda casa:
Kálmán Mikszáth, Sándor Bródy, Endre Ady, Zsigmond
Móricz, Gyula Krúdy, Lajos Nagy, Frigyes Karinthy,
Dezsö Kosztolányi e muitos outros. O dono, cultivando o
estilo de café literário à moda de Viena, abastecia os
seus clientes de linguados de papel (lá diz-se línguas de
cão) e tinta para escreverem, imprensa diária e até
dicionários e livros de referência. Ali nasceram jornais,
revistas, poemas, romances e contos célebres, parte da
história cultural do país no séc. XX. Nota curiosa: o café
tinha uma sala para as senhoras.

Palácio New York, Budapeste, circa 1900. O café e a esplanada já lá estão.
Foto: Biblioteca Municipal Szabó Ervin.
Milagrosamente, o edifício quase nada sofreu durante a
batalha travada em Budapeste entre alemães e soviéticos,
em 1945. A guerra destruiu perto de 80% da habitação da
capital húngara, mas poupou este símbolo da força
económica e financeira da burguesia judaica húngara.
Durante o regime comunista, o palácio e o café foram
rebaptizados Hungária, mas ninguém esqueceu
o nome original. Em 2006, após o investimento de muitos
milhões de euros, o palácio e o café reabriram sob a
denominação primitiva. O resto do edifício é agora um
hotel de luxo da cadeia italiana Boscolo.

Hoje é assim.
O pior é que estragaram o velho ambiente do café com um
mobiliário de luxo piroso e com preços para afastar as bolsas
magras e as médias. As mesas de mármore sobre pés de
ferro forjado cederam o lugar a mesas de vidro encaixilhado
em aço dourado e outras pinderiquices. Podia ser o melhor
café do mundo, mas não é. O que os comunistas não
conseguiram, conseguiram estes capitalistas italianos:
acabar com a ambiance do Café New York.

Uma das salas do café actual. Já não tem ambiente de café, mas de
lobby de hotel de luxo.
Na cave do café, o restaurante é sumptuoso, em ambiente
de Monarquia Austro-Húngara. Aqui nada mudou, apenas foi
restaurado. Por se encontrar afundado em relação ao piso do
café, o restaurante é conhecido na gíria budapestense por
Mélyvíz, isto é, “águas profundas”.

Naquelas varandinhas do café que dão sobre o restaurante
podia-se encomendar um csontvelő para barrar em pão
torrado, acompanhando com vinho branco olasz riesling.
Foi isso mesmo que eu ali fiz nos anos 70, quando os
preços eram certamente muito mais baixos do que hoje.
Csontvelő é o tutano do osso da perna da vaca - de que
se vê também um pouquinho no osso bucco, mas com a
carne à volta do osso. Os húngaros apreciam muito o
tutano, um pitéu a que chamam “o foie gras dos pobres”.
De facto, o sabor é diferente, o preço também, mas a
quantidade de gordura é muito semelhante… Para mim,
entre os dois, a escolha é difícil. Depende da matéria
prima e da qualidade da confecção.
Aposto que já não há tutano no Café New York, já só
devem servir foie gras…

Quatro dos catorze faunos de bronze que ornamentam e iluminam a
fachada do Palácio New York. Aqui ainda faltavam os globos das tochas.