xlv - O que se faz nos cafés
O que se fazia
e faz nos cafés

Atanur Dogan - Fumadores de narguilé em café turco.
Num café, além de se beber o dito, sempre se fizeram
inúmeras outras coisas. Não é obrigatório o consumo de
café e suas variantes: há as bebidas alcoólicas, o chá,
os refrescos. Nos cafés europeus, além disso, também
sempre se comeu. Mas o consumo é só parte da história.
Ao café vai-se principalmente, sempre se foi, para ver,
estar ou falar com alguém. E para saber notícias,ouvir
histórias, passar fofocas. Discutir política, literatura,
arte, futebol. Conspirar para deitar governos abaixo.
Espiar o que se diz na mesa ao lado. Fumar cigarros,
cachimbo ou narguilé. Ler jornais, livros e revistas.
Escrever. Desenhar. Estudar. Navegar na net. Fazer
negócios ou arranjar trabalho. Procurar companhia,
namorar e ver quem namora. Jogar damas, xadrez, bilhar,
dominó, cartas e gamão. Estender um pouco as pernas.
Fugir ao calor, à chuva ou ao frio. Dormir. Uff!

Leitura solitária no Café Florian de Veneza.

Leitura acompanhada. Arnold Hoffmann, Café, ca. 1935.
O LLoyd’s of London - o maior mercado mundial de
seguros - e a Bolsa de Londres nasceram ambos de
cafés. No primeiro caso, o Lloyd’s Coffee House,
fundado nos anos 80 do século XVII. No segundo caso, o
Jonathan’s Coffee House, da mesma época. Até há
pouco tempo, os corretores da bolsa londrina ainda eram
chamados criados (waiters), devido ao facto de a
actividade bolsista ter começado como um café. A Bolsa
de Nova Iorque também nasceu num café, o Tontine
Coffee House, numa esquina de Wall Street. Em baixo,
um desses cafés londrinos onde se falava de negócios
e política.

Politics and business. A London coffee house, ca. 1740.
Viena em revolução, com revolucionários de cartola.

“Em nome do governo constitucional…”
A revolução, iluminada a gás, num café de Viena, a 3 de Março de 1848.
Viena do final do séc. XIX. Os jornais eram fornecidos
pela casa.

Café Griensteidl, em Viena, 1896. Há quem durma. Pintura de R. Völkel.
112 anos depois, num café da mesma Viena,
ainda e sempre o jornal da casa.

Leitura do Neue Zürcher Zeitung no Café Bräunerhof, em Viena.
O xadrez era desporto de café em Paris.

Jogo de xadrez no Café de la Régence, Paris, 1874.
Os bilhares também. E as cartas.

Jean Béraud, Le billard, 1900-1910
Saltando um século, vamos encontrar, hoje em dia, esta
profusão de laptops numa sala do Think Coffee, café
nova-iorquino em Mercer St., perto da Broadway e do
campus universitário. Na primeira imagem as pessoas
aparecem iluminadas pelos monitores, o que faz um
efeito curioso…

Think Coffee, Mercer Street, West Village, NY.
A malta universitária alapa numa mesa com uma bebida
durante uma tarde inteira. O Think Coffee tem WiFi, de
modo que os penduras ficam por ali todo o dia, cada um
com o seu brinquedo. A convivialidade a que o local
apela não se concretiza, excepto para contactos entre
computadores… Em baixo conto sete laptops.

Think Coffee Coffeehouse, N.Y.
Novamente Paris, séc. XXI.

Navegando na net numa esplanada parisiense.