Saturday, December 20, 2008

xlvi - Alfred Polgar

Alfred Polgar

«Melhor seria nunca ter nascido. Mas quantos de nós têm
essa sorte? Um num milhão, talvez.»  (Alfred Polgar)



O navio Nea Hellas que até 1940 fez a carreira Lisboa-Nova Iorque.


Quando a 4 de Outubro de 1940 o vapor grego Nea Hellas
deixou Lisboa rumo a Nova Iorque, entre os passageiros
encontrava-se um grupo de amigos, velhos conhecidos de
Viena, Praga e Berlim: Heinrich e Golo Mann (irmão e filho
de Thomas Mann), Franz e Alma Werfel e Alfred Polgar.
Todos eles tinham conseguido escapar aos nazis de forma
muito arriscada, se não milagrosa, alcançando por fim a
América via Lisboa.

Alfred Polgar, escritor e crítico teatral austríaco - de que
revelei aqui, em primeira mão, o texto “Teoria do Café Central”
em português - já tinha escapado da Alemanha, em 1933, na
véspera de ser preso pelos nazis. Tinha fugido de Viena e da
Áustria na véspera da entrada das tropas de Hitler no seu país,
em 1938. Viveu até 1940 em Paris, de onde novamente teve de
fugir aos nazis, percorrendo a pé o caminho até Espanha e
Portugal.


Alfred Polgar (1873-1955)

Nascido em Viena numa família judaica, Alfred Polgar viveu
os anos de nazismo exilado na América, onde tentou
trabalhar como argumentista para os estúdios da MGM, sem
êxito. Depois da guerra regressou à Europa. Não suportando
voltar a viver na Áustria que tão bem havia recebido Hitler, 
assentou arraiais em Zurique, onde morreu em 1955.

É reconhecido como um dos mais originais prosadores
de língua alemã do século XX, famoso pela sua maestria da
língua, poder de observação, ironia e crítica acerada. Kafka
disse sobre ele: “As frases de Alfred Polgar são tão fluidas e
agradáveis que acolhemos os seus textos como uma espécie
de entretenimento social inofensivo, sem nos darmos conta
de como influem sobre nós e nos educam. Sob a luva fria da
forma esconde-se uma vontade essencial forte e intrépida.”
Entre os seus admiradores estavam também Robert Musil,
Kurt Tucholsky ou Walter Benjamin.

Um belo texto de Clive James sobre Alfred Polgar,
publicado no Slate, pode ler-se aqui. É adaptado do livro
Cultural Amnesia: Necessary Memories from History and
the Arts, 
do mesmo Clive James, sobre o qual podem
informar-se aqui.

Reproduzo abaixo novamente, com pequenas alterações, o
texto de Polgar sobre o microcosmos social do Café Central
de Viena, de que ele próprio fez parte durante dezenas de anos.
É uma das melhores prosas que já li sobre a vida de café e um 
retrato ironicamente cáustico da elite cultural da Viena de entre
as duas guerras. Claro, não tem um nome, é tudo dito em
abstracto, para não ofender ninguém.

“Teoria do Café Central” (1926),

de Alfred Polgar


Café Central, Viena, circa 1900


O Café Central é, realmente, um café diferente de todos os outros.
É mais uma visão do mundo, cuja verdadeira essência, todavia,
reside em absolutamente não observar o mundo. O que é que ali
se vê, então? Sobre isso, falarei mais adiante. O que está
experimentalmente assente é que não há ninguém no Café Central
que não seja parte dele, isto é, em cujo espectro do ego não
apareça a cor Central, que é uma mistura de cinza e verde ultra-
enjoado. Se foi o local que se adaptou ao indivíduo ou o indivíduo
ao local, é ponto controvertido. Admito que tenha havido uma
acção recíproca. “Tu não estás no lugar, é antes o lugar que está
em ti”, diz o Peregrino Angélico.(1)

Se todas as histórias relacionadas com este café fossem moídas,
colocadas numa cuba de destilação e gaseificadas, formar-se-ia um
gás pesado, iridescente, cheirando vagamente a amónia: é o
chamado ar do Café Central. Isso define o clima espiritual deste
espaço, um clima bem particular em que a inaptidão para a vida, e
só esta, floresce na plena manutenção da sua inaptidão. Aqui
desenvolve a impotência as potencialidades que lhe são intrínsecas,
aqui amadurecem os frutos da infecundidade e cobra renda toda a
impropriedade. Tudo isto só está ao alcance de um verdadeiro
Centralista, alguém que, se o seu café está fechado, tem o
sentimento de ter sido lançado às duras penas da vida, abandonado
às mais imprevisíveis consequências, anomalias e crueldades do
desconhecido.

O Café Central situa-se à latitude vienense do meridiano da solidão.
Os seus habitantes são, na maioria, pessoas cuja repulsa pelos seres
humanos seus semelhantes é tão viva quanto a necessidade de estar
com gente que queira estar só, mas que precise de companhia para
isso. O seu mundo interior requer uma camada de mundo exterior
como material isolante; as suas frouxas vozes solistas não
prescindem do suporte do coro. São naturezas inseguras, que ficam
um tanto perdidas sem as certezas que tiram do sentimento de
constituírem uma pequena parte de um todo, para cujo tom e cor
contribuem.

O Centralista é uma pessoa a quem a família, a profissão e o partido
político não dão este sentimento de pertença. O café apresenta-se,
solicitamente, como uma totalidade sucedânea, convidando à
imersão e à dissolução. É assim compreensível que, sobretudo as
mulheres, que nunca conseguem estar sós e precisam de, pelo
menos, uma pessoa por perto, tenham um fraco pelo Café Central.
É o lugar para gente que sabe abandonar e ser abandonada para
bem do seu destino, mas a quem falta ousadia para cumprir esse
destino. É um verdadeiro asilo para quem tem que matar o tempo
antes que o tempo o mate. É o doce lar daqueles que abominam o
doce lar, o refúgio seguro de casais e amantes diante da ameaça de
uma vida conjunta sem problemas, o posto de primeiros socorros
das mentes confusas que, toda a vida em busca de si próprias e toda
a vida em fuga de si próprias, escondem o seu ego fugitivo atrás de
um jornal, conversas enfadonhas ou jogos de cartas, e empurram o
ego perseguidor para o papel de maçador que tem que calar a boca.

O Café Central representa, pois, algo como uma organização de
desorganizados.

Neste espaço venerado, cada indivíduo semi-indeterminado é
creditado com uma personalidade plena. Enquanto se mantenha
dentro dos limites do café, pode cobrir todas as suas despesas
morais com este crédito. Àquele que mostre desdém pelo dinheiro
dos outros está reservada a coroa anti-burguesa.

O Centralista vive parasitariamente da história que circula a seu
respeito. Aí está o principal, o essencial. O resto, os factos da sua
existência, tudo isso são notas de rodapé, adendas e
embelezamentos que podem ser dispensados.

Os fregueses do Café Central conhecem-se, amam-se e detestam-se
mutuamente. Até aqueles que não estão vinculados a nenhuma
associação consideram esta não associação como uma associação.
A própria aversão mútua tem força associativa no Café Central; ela
cumpre e põe em prática uma espécie de solidariedade maçónica.
Toda a gente sabe da vida de toda a gente. O Café é um ninho de
província no ventre da metrópole, a fervilhar de boatos, inveja e
maledicência. Penso que os peixes no aquário devem viver como os
habitués deste café, sempre em círculos apertados à volta uns dos
outros, sempre atarefados sem propósito, usando a refracção
inclinada da luz ambiente como um divertimento diferente, sempre
expectantes, mas também cheios de ansiedade, não vá alguma vez
algo novo, brincando ao “mar” com ar sério, cair dentro da tina
de vidro, no fundo minúsculo do seu mar artificial. Se amanhã,
Deus não permita, o aquário fosse transformado num banco, eles
sentir-se-iam completamente perdidos.

Naturalmente, o peixe-Central, habituado a partilhar com outros
aquele exíguo espaço respirável durante tantas horas da sua vida,
perdeu toda a timidez e cerimónia. O Centralista que se preza
conduz a vida privada dos outros e não joga às escondidas com a
sua própria. Isto, reforçado pela acostumada tendência do local
para a auto-ironia e a serena confissão das fraquezas próprias, cria
uma esfera de sociabilidade suspensa na qual toda a reserva púdica
se esbate e extingue. Há fregueses do Central que andam por ali
psiquicamente nus, sem receio que a sua nudez pueril e inocente
seja interpretada como falta de vergonha. Aqui há uns anos, o
proprietário do Café Central tentou acomodar o espaço a esta
propensão paradisíaca dos seus clientes regulares colocando lá
uma palmeira. Mas aquela donzela do Oriente não suportou o clima
do local, apesar da dominante oriental do dito. Foi cortada em
pedacinhos e os seus restos mortais encontraram utilização na
cozinha − ou como combustível ou como grãos de café, os
investigadores não chegaram a um consenso nesta matéria.

Só está habilitado a desfrutar do charme essencial desse esplêndido
café aquele que nada mais quer dali do que estar lá. A ausência de
propósito santifica a estadia. No fundo, talvez o habitué não goste
do local nem da gente que ruidosamente o povoa, mas o seu
sistema nervoso exige imperiosamente uma dose diária de
Centralina. Dificilmente se pode explicar isto apenas pelo hábito.
Nem pelo facto de a gente do Central se sentir sempre atraída,
como o assassino pelo local do crime, por um lugar onde tanto
tempo mataram, onde já dizimaram anos inteiros. Então qual é a
explicação? A atmosfera! Só posso dizer isto: a atmosfera! Há
escritores, por exemplo, que são incapazes de cumprir as suas
tarefas literárias noutro lugar que não o Café Central. Só ali,
naquelas mesas da indolência, está a mesa de trabalho posta para
eles, só ali, envolvidos naquela atmosfera ociosa, é que a sua
inércia se torna fecundidade. Certos tipos criativos só no Central
conseguem não ter ideia nenhuma − noutro lugar, na verdade,
ainda menos. Há poetas e outros industriais aos quais só no Café
Central surgem ideias rendosas; pessoas com prisão de ventre a
quem só ali se abre a porta do alívio; gente que há muito perdeu
o apetite pelo erótico e que só ali sente fome; calados que só no
Central reencontram a sua língua ou a de outra pessoa; e
gananciosos cuja glândula monetária só ali secreta.

Esse enigmático café tem o poder de serenar na inquieta gente que
o visita aquilo a que chamo o seu desassossego cósmico. Neste
lugar de relações descontraídas, a relação com Deus e com as
estrelas também se descontrai. O indivíduo escapa às suas relações
obrigatórias com o universo entrando num relacionamento casual,
irresponsável e sensual com coisa nenhuma. As intimidações da
eternidade não atravessam as paredes do Café Central, ao abrigo
das quais se pode gozar a doce despreocupação do momento.

Sobre a vida amorosa do Café Central, sobre o equilíbrio das
distinções sociais que nele vigoram, sobre as correntes políticas e
literárias que banham as suas margens escalavradas, sobre os
enterrados vivos no mausoléu-Central que há muito aguardam a
sua exumação embora esperando que tal nunca venha a acontecer,
sobre a comédia de máscaras plena de espírito e desvario que,
naquelas salas, faz de todas as noites um Carnaval - sobre estas e
outras coisas muito haveria ainda que dizer. Mas quem se interessa
pelo Café Central já sabe tudo isso e quem não se interessa pelo
Café Central não nos interessa a nós.

É apenas um café, mas que café! Nunca encontrarão outro lugar
assim. Aplica-se a ele o que Knut Hamsun diz da cidade de
Christiania na primeira frase do seu imortal Fome: “Quem lá passa
fica marcado por ela”.


Nota:

(1) Uma referência ao escritor místico seiscentista alemão Johann
Schefler (1624-77), mais conhecido sob o pseudónimo de Angelus
Silesius (Anjo da Silésia). A sua obra maior foi Das Cherubinische
Wandersmann
(O Peregrino Angélico), basicamente uma colecção
de apotegmas morais. [Nota de Harold Segel, vd. abaixo.] 


Título original: “Theorie des Café Central”, 1926.
Vd. Alfred
Polgar, Kleine Schriften, vol. 4 (Reinbeck bei Hamburg, 2004,
págs. 254-59).
Versão inglesa incluída na antologia de Harold
Segel, The Vienna Coffeehouse Wits, 1890-1938 (Purdue, 1993).
 


©
Tradução de José Barreto a partir do inglês.

Posted by J.B. in 23:37:16
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