liv - Edward Hopper
Cafés do Realismo Americano
Detalhe de uma pintura que se tornou ícone de uma
época. Foi pintada nas semanas que se seguiram
a Pearl Harbor. Quem diria?

Outro detalhe.

É a mais célebre obra de Edward Hopper, Nighthawks.
O pintor tinha então exactamente 60 anos e ainda mais
25 para viver. O tema seria a solidão dos predadores da
noite nova-iorquina, dizem os interpretadores. A tradução
portuguesa correcta é “Noctívagos”. Em inglês poderia
ser também night birds ou night owls. Mas Hopper quis
chamar-lhes assim: nem pássaros nem corujas, mas
águias. É diferente.

Edward Hopper, Nighthawks, 1942. Art Institute of Chicago.
É uma das imagens mais conhecidas da arte americana
do século XX. Muito se escreveu já sobre ela, bem ou
mal. Há uma data de aspectos sobre que se pode falar,
de facto. Os mais terra a terra destacam, por exemplo, a
iluminção fluorescente, que começou a ser utilizada
precisamente naqueles primeiros anos da década de 40.
O quadro marcaria a chegada do fluorescente à pintura
de cenas nocturnas. Tudo bem, mas é pouco. Nem
sequer há a certeza de que fosse luz fluorescente…

Ficar a Pé até Muito Tarde, de Gordon Theisen
Um tipo chamado Gordon Theisen produziu em 2006 a
obra acima, um livro de 256 págs. a propósito desta
pintura, Staying Up Much Too Late: Edward Hopper’s
Nighthawks and the Dark Side of the American Psyche.
É um trampolim para o autor falar de mil outras coisas,
por vezes interessantes e inteligentes, por vezes idiotas,
como a presidência de George W. Bush, o qual ainda
não tinha nascido quando o quadro foi pintado. Theisen
chega a imaginar uma cena de group sex entre os quatro
personagens da cena de café. Cabotinice! Mas o livro
tem êxito, por isso deve ter algum mérito.
É costume apontar no quadro a ausência de porta no
café ou diner (portuguesmente diríamos snack-bar),
pormenor que aumentaria a sugestão de redoma
produzida pela imensa vitrine e reforçaria a sensação de
incomunicabilidade. Há quem sustente que o barman
está fechado no balcão triangular e que isso teria um
significado qualquer. O pintor negou que tivesse tido
essa ou outras intenções similares. Há sempre quem
queira ver mais do que aquilo que o artista realmente
põe numa obra de arte. Isso é legítimo, defendem
alguns. As obras de arte tornam-se um património
colectivo. E o que muitos vêem nelas, é porque está lá.
O pior é que muitos outros vêem outra coisa ou o
contrário… Ajudaria talvez saber o que o artista quis
dizer ou provocar com esta imagem. Mas Hopper
era muito lacónico. E quereria ele “dizer” alguma coisa
para além do que lá está?
Muitos discorrem, a propósito de Nighthawks como
do resto da obra de Hopper, sobre a solidão. A solidão
solitária e a solidão acompanhada. É uma leitura facial
e algo rasteira. Onde está uma pessoa só, haveria solidão,
concluem. Vista do remanso do lar, a noite é para os
solitários. Será mesmo assim? E não há solidão em casa?
Responde a isso o mesmo Hopper, com uma pintura de
dez anos antes, que me parece um bom contraponto a
Nighthawks. O detalhe essencial neste quadro, para
mim, é a posição da mulher em relação ao piano, em que
experimenta tirar umas notas só com um dedo. Não há
em Nighthawks uma tão forte sugestão de solidão como
aqui. Lar, doce lar…

Edward Hopper, Room in New York, 1932
A recusa de narrativa é uma marca distintiva de
Hopper, que prefere criar ambientes e suscitar enredos
possíveis na cabeça de quem contempla. A ausência
de narrativa explícita cria um ambiente de mistério
que fascina o observador e pode deliciar o artista,
encantado com o poder que a obra conquista por si
só. Hopper cria ambientes, mas rejeita o drama. Nada
acontece em Nighthawks ou em qualquer outro quadro
dele, nem se prevê que venha a acontecer. “What could
be happening? Nothing. Isn’t that enough?” - perguntou
alguém a propósito das pinturas de Hopper. Bom, de
facto, não chega. O mistério é que é suficiente, mas
para haver mistério, é preciso criá-lo. Hopper criava-o
com sugestões minimalistas.
A famosa Irmã Wendy, narradora de várias séries
televisivas e autora de uma dúzia de excelentes livros
sobre arte, preferiu chamar a atenção, em Nighthawks,
para o facto de o modelo de ambos os clientes
masculinos do café ter sido o próprio Hopper e de
o modelo da cliente feminina ter sido a sua mulher, Jo,
com quem o pintor teria uma relação difícil. Jo (de
Josephine) gostaria muito mais de Hopper do que ele
dela, assegura Sister Wendy, a qual, para meu espanto,
leu o diário de Jo, no qual se baseia. Não sei como é
que uma freira reclusa e contemplativa, mesmo
chamando-se Wendy Beckett, sabe tanto (e quis saber
tanto!) sobre artistas, ligações difíceis e noctívagos.
Há curiosidades e afinidades surpreendentes, good
Lord!
A última vez que lá passei, o café estava fechado…

Estou a brincar. Aquilo já foi demolido, claro. O
metro quadrado em Greenwich Avenue está caro.
Os pastiches, citações, paródias e homenagens a
Nighthawks contam-se por centenas.
Passemos adiante. Mais cafés, mais solidão. Repare-se
no título do quadro abaixo: Automat. Não se refere a
nenhum autómato, mas ao local, ao café, certamente
da cadeia Horn & Hardart, equipado com máquinas
distribuidoras de comidas e bebidas que funcionavam
com moedas. A primeira cadeia de cafés “automáticos”
chegou a Nova Iorque em 1912. Foram um sucesso,
porque serviam comida pronta, fresca e apetitosa. Café
com mais de 20 minutos era deitado fora e feito novo.
O moderno fast food (McDonald’s, Burger King, etc)
ganhou a corrida e os Automats desapareceram. São hoje
apenas máquinas de parede em pequenos espaços sem
cadeiras, onde se bebe qualquer coisa de pé e à pressa e
se foge.

Edward Hopper, Automat, 1927.
O título do quadro serve a Hopper de muleta,
pois aqui só o reflexo da luzes do tecto pode sugerir que
se trata de um Automat. O carácter impessoal do
Automat reforçaria a sensação de solidão. Mas quem nos
diz a nós que a garota não está à espera do namorado?
“Meet me at the Automat”… Lá se vai a teoria da solidão!
Outra visão de um Automat:

Diane Arbus, Two Ladies at the Automat, 1965
Da pintura seguinte Hopper gostava em especial. O
tema seria a incomunicabilidade. Terá mesmo sido?
O título limita-se a destacar um aspecto da imagem,
ignorando o possível drama: “Sol num café”. Hopper
disse uma vez que, como artista, a sua única
aspiração era a de pintar o lado ensolarado de uma
casa. Acredite quem quiser.

Edward Hopper, Sunlight in a cafeteria, 1958.
Uma casa de chá chinesa. Hopper baniu aqui a solidão,
mas não o mistério. Que dirão os interpretadores?

Edward Hopper, Chop Suey, 1929.
© Texto de José Barreto