lv - Cairo
Café El Fishawy, Cairo
É o café mais famoso da metrópolis que se gaba de ter
mais de 30.000 cafés. Fica no bazar Khan al-Khalili,
na zona mais antiga do Cairo. Reconhecível pelo seu
interior e esplanada cheios de espelhos, é também
recomendável pelo horário de abertura de 24/24 horas,
sem férias, há mais de 200 anos, diz-se.

Photo by madgrin, flickr


El café de los espejos, by fotografoloco, flickr
Há 240 anos, um homem chamado el-Fishawy (nothing
to do with fish) terá começado a servir café aos seus
amigos e convidados todas as noites, depois das orações
(sobre as implicações religiosas do consumo do café no
Egipto e Médio Oriente antigos, ver o post sobre
Antoine Galland). Assim nasceu Qahwah el-Fishawy, o
café do Fishawy, como já adivinharam. Depois foi
acrescentado ao menu da casa o infalível chá de menta,
bem como o inevitável narguilé, ou cachimbo de água,
localmente conhecido por shisha.
Como todos os cafés famosos do mundo, também
este conta entre os seus clientes passados ou
presentes escritores, artistas e outras celebridades.
O freguês mais conhecido do El Fishawy é, de longe,
o escritor Naguib Mahfouz (1911-2006), o primeiro
e até agora único prémio Nobel da literatura (1988)
de língua árabe, que tinha neste café o seu poiso
favorito.
Mahfouz
Um dos seus romances passa-se nas ruelas deste
bazar. Escritor “blasfemo” da estirpe de Salman
Rushdie, mas visado pelos fundamentalistas muito
antes dele, Naguib Mahfouz foi esfaqueado na rua,
aos 83 anos, por um fanático que cumpria uma
fatwa, ordem de um chefe religioso para o assassinar.
O tal “religioso” terá sido Omar Abdel-Rahman, o
egípcio cego amigo de Bin Laden e inspirador de
várias carnificinas, que foi preso nos Estados
Unidos a seguir ao primeiro atentado contra
as Torres Gémeas (1993) e que, merecidamente, lá
continua atrás das grades. Claro que nega todas as
acusações de que é alvo.
Apesar do corte no pescoço, que o deixou às portas
da morte, Mahfouz viveu até aos 94 anos. Nunca
mais pôde escrever, porque o braço direito ficou
paralizado. Os seus últimos livros tiveram que
ser ditados. Metade da obra de Mahfouz está proibida
nos países de religião islâmica. O romance Awlâd
hâratinâ (Os filhos do nosso bairro), de 1959,
não traduzido para português, foi o que lhe valeu a
condenação por parte dos ulemas, porque punha
em jogo personagens egípcios reais, gente comum,
mas representando alegoricamente Deus, Maomé,
Moisés, Jesus, Caim e Abel. Claro que não foi só
isso que esteve na origem da fatwa: Mahfouz tinha
entretanto chamado ‘terrorista’ ao Ayatollah
Khomeiny e defendido Salman Rushdie contra os
fanáticos que, segundo ele, desprestigiavam o
Islão. Daí que a ordem para matar tenha servido
várias entidades e múltiplos propósitos.
Que ele era muito corajoso, até demasiado, disso
não restam dúvidas. Aqui o vemos em baixo, no seu
passeio diário a pé, sozinho, tal como quando foi
atacado, seis anos depois, por um jagunço religioso.

Mahfouz nobelizado, Cairo, 1988,
Foto Aladin - Reuters

Clientes do café, by dwightfriesen, flickr.

El Fishawy, foto panorâmica by Mark (LP), flickr
Uma das características dos cafés do Cairo, é que
geralmente não têm portas nem janelas ou, se têm, não
são precisas para nada. O café continua na rua e esta,
com o seu bulício, entra pelo café dentro. Não há
fronteira precisa entre a rua e o café. Se estiverem
calmamente sentados numa mesa de fora e levarem um
encontrão dum transeunte, não se espantem, é normal.
Se levarem uma facada é que já não é muito normal.

El Fishawy. Photo by Zbigniew Kosc (vejam o site dele!)
Um café modesto do Cairo apenas precisa de algumas
cadeiras, narguilés e um sítio para pousar o copo de…
chá. Veja-se abaixo este ‘café de rua’ cairense, em foto
do mesmo Zbigniew Kosc, fotógrafo polaco-holandês
com atracção pelo Egipto e Médio Oriente. Tem um
bom site com centenas de fotos.

A street coffeeshop, Cairo, by Zbigniew Kosc
Em baixo, outro café popular do Cairo, Midan
Tahrir, pelo mesmo fotógrafo.

Café Midan Tahrir, by Zbigniew Kosc
O café El Fishawy tornou-se visita obrigatória dos
turistas, com prioridade até sobre uma ida às
pirâmides, já demasiado vistas. Apesar disso, mantém
um ambiente tradicional e uma freguesia local
que lhe dá todo o carácter. Também se vêem por lá
mulheres, inclusive egípcias, como na imagem abaixo,
a falar no telemóvel.

El-Fishawy Cafe by iDip, flickr
Ou estas aqui em baixo, a fumar shisha de sabor a
maçã ou alperce.

Photo: ToyBaroness, flickr
Belas mulheres, sempre bem guardadas por mânfios
de barba rija.

Photo: ToyBaroness, flickr
Misteriosas.

Como devem ter reparado, as mesinhas dos cafés
do Cairo em geral são mínimas, apenas permitem
pousar nelas a bandeja com as bebidas. Não se
escreve nos cafés, em geral. Os cafés são para
conversar ou fumar.

Café turco e chá de menta
Curiosamente, as cadeiras do café (ver baixo) são de
tipo vienense, certamente de fabrico local. Todos os
cafés do Cairo as têm, mesmo os mais modestos. Na
foto seguinte, repare-se nos majestosos espelhos
emoldurados em talha de madeira, bem como nas
portas de gelosia e nos candeeiros e candelabros de
latão. Ventoínhas asseguram a saída do fumo do café
para a rua. É o ar condicionado do bazar.

Café El Fishawy. Photo by anktonio, flickr
E para fechar o El Fishawy, que nunca fecha, uma foto
piramidal, já que estamos perto das ditas.

Turkish coffee and mint tea, El Fishawy. Photo: **Elle**, flickr
Parabéns pelo seu blogue que descobri hoje e que irei acompanhar regularmente… como bom apreciador de café. Café bebida e café espaço.
Alberto Velez Grilo