Wednesday, February 11, 2009

lvi - Caffè Greco


Antico Caffè Greco, Roma


Antico Caffè Greco, Via Condotti, 86, Roma, a dois passos da
Escadaria Espanhola e da Fontana della Barcaccia.

«Dentro Roma c’è un caffè…

Un caffè tutto speciale.

Non lo fo per dirne male;

dico solo… quel che è.

Qui ci trovi americani,

gran milordi, signoroni,

grandi artisti, artisti cani.» *


Mesa do Caffè Greco


Sala Omnibus do Caffè Greco, Roma. DK images

Segundo uma inscrição que se lê na sua entrada, o
Antico Caffè Greco teria sido fundado em 1760, o que
faz dele o segundo café mais antigo de Itália, a seguir ao
Florian de Veneza. Mas alguns historiadores pagos
pela casa insinuam que o Greco (Grego) é mais antigo.
Por lá teria andado Giacomo Casanova já em 1744, 
quando estava ao serviço do cardeal Acquaviva (e da
sobrinha dele, dizem). O português Abade Gama,
diplomata que trabalhava em Roma para o embaixador
espanhol, foi quem levou Casanova, então com dezoito
anos, ao café da Via Condotti e aí o apresentou a uma
súcia de padres maledicentes e debochados. É o
próprio Casanova quem o conta nas suas Memórias,
embora não dê nome ao café e o nome da rua seja só
parecido - Strada Condotta.
Casanova 

O tal Abade Gama era um exímio traficante de
influências, alcoviteiro e libertino. Fazendo-se amigo
do verde Casanovinho, ensinou-lhe várias malandrices.
O mais famoso libertino do século XVIII aprendeu
bastante com esses padres de Roma no Caffè Greco!
Como é sabido, Casanova desistiu cedo da vida
eclesiástica a favor da ‘carreira’ de aventureiro. Mais
tarde, no final dos anos 1760, o Abade Gama, já a
trabalhar para o embaixador português em Roma,
Francisco de Almada e Mendonça, chegou a
prometer a Casanova emprego e fortuna em Lisboa 
se aceitasse trabalhar para o Marquês de Pombal.
Casanova ficou interessado, mas a sua vida acidentada
(foi por essa altura expulso de Florença) não lho
permitiu.

Em baixo, o interior do Café Grego numa bela
aguarela de 1856, obra de um pintor austríaco de
nome meio alemão, meio italiano, Ludwig Passini.


Ludwig Pasini, Das Caffè Greco in Rom, 1856, Hamburger Kunsthalle

Hector Berlioz tinha passado pelo Caffè Greco em
1832, vinte e poucos anos antes da aguarela acima. Era
ali que o músico francês se encontrava com os artistas
italianos e estrangeiros que visitavam ou residiam em
Roma. Deixou nas suas memórias uma descrição
arrasadora do café: «
C’est bien la plus détestable
taverne qu’on puisse trouver : sale, obscure et
humide, rien ne peut justifier la préférence que lui
accordent les artistes de toutes les nations fixés à
Rome. (…) On y tue le temps à fumer d’exécrables
cigares, en buvant du café qui n’est guère meilleur,
qu’on vous sert, non point sur des tables de marbre
comme partout ailleurs, mais sur de petits guéridons
de bois, larges comme la calotte d’un chapeau, et
noirs et gluants comme les murs de cet aimable lieu.
Le Café Greco, cependant, est tellement fréquenté
par les artistes étrangers, que la plupart s’y font
adresser leurs lettres, et que les nouveaux débarqués
n’ont rien de mieux à faire que de s’y rendre pour
trouver des compatriotes. »


“Sujo, escuro e húmido”, assim desdenhava do Greco
o janota parisiense. Mas talvez nenhum outro café do
mundo tenha tido tantos visitantes ilustres como esse
ao longo dos séculos.


Berlioz                                 Liszt  

Não vos vou maçar com a lista interminável dos artistas
e celebridades mundiais que frequentaram o café. Digo
só alguns nomes: Goethe, Byron, Shelley, Keats,
Stendhal, Baudelaire, Berlioz, Wagner, Schopenhauer,
Hans Christian Andersen (que viveu no andar superior
do prédio), Franz Liszt, Bizet, Gounod, Chateaubriand,
Ingres, Gioacchino Pecci (o futuro papa
Leão XIII,
que ali conheceu Liszt), Nicolau Gogol (que ali
escreveu Almas Mortas), Mendelssohn, Charles
Dickens, Mark Twain, H. G. Wells, Rossini (que ali
compunha a sua música), Mickiewicz, Giorgio De
Chirico, Leopardi, D’Annunzio, Benedetto Croce e
os mais que direi abaixo.


Gogol                                      Schopenhauer       
         
A Sala Omnibus, que já mostrei acima, é a menor das
quatro salas do Greco. Chamam-lhe assim pela sua
configuração a lembrar um autocarro, dois metros
de largo por oito de comprido.

Na foto abaixo, com o espelho do fundo tapado por
um pano, estão na Sala Omnibus uma dúzia ou mais
de artistas e ecritores. Entre eles, Orson Welles
(quarto a contar da direita) e Carlo Levi (quarto a
contar da esquerda, sentado). O jeitoso de bigode
sentado ao meio é um artista muito livre chamado,
por isso, Libero de Libero.


Caffè Greco, 1948. Sala Omnibus. 

Na Sala Roma há pinturas sobre a cidade. Uma foi
roubada há tempos, numa passagem de ano. O chão
de todo o café é muito bonito.


Caffè Greco. Sala Roma. Foto flickr.

Ângulo levemente diferente, a cores.


Foto scalleja, flickr.

Outra saleta. Quando o criado vinha com o café,
parou, posou, foto! 

Esta é a Sala Rossa, a mais espaçosa e luxuosa.

Em baixo, uma pintura do café da autoria de Renato
Guttuso, pintor nascido na Sicília, partigiano nos
anos da guerra e senador comunista a partir de 1976.
O quadro representa alguns dos clientes mais
célebres do Greco, incluindo Giorgio De Chirico, ao
qual este quadro presta especial homenagem, e Buffalo
Bill (sim, leram bem, o próprio William Cody também
passou por lá, em 1890, quando levou a Roma o seu
inacreditável Wild West Show). De Chirico é aquele
velhote sentado à esquerda. Lá estão também André
Gide (o careca sentado na mesa do meio), o escritor
Appolinaire e, na parede, uma estatueta de Picasso.
A figura de óculos escuros é Appolinaire, uma
“citação” de um quadro de De Chirico, “A Nostalgia
do Poeta”, de 1914, do mesmo ano de outro
parecido, o “Retrato Premonitório de Guillaume
Appolinaire”. Quem reconhecem mais na pintura?
Aquela mulher à esquerda, ao pé da janela, não é a
Anna Magnani?


Renato Guttuso, Caffè Greco, 1976. Acrílico sobre cartão,
186×243 cm. Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid.

Em baixo, temos a obra final, óleo sobre tela, cujo
estudo tinha sido o acrílico acima. Vamos achar as
diferenças? Buffalo Bill está agora no canto inferior
direito, as lésbicas já se beijam descaradamente, a
estatueta de Picasso está diferente, por baixo dela
aparece Sophia Loren a fumar, o turista japonês
está sozinho, há quem leia jornal, não há Coca-Cola
na mesa e a Magnani (?) apanhou o cabelo ou foi
trocada por outra. No canto superior esquerdo
aparece um torso masculino, parece o Torso di
Belvedere, mas pintado de memória. Aquele homem
meio tapado atrás de De Chirico é o próprio autor
do quadro, Renato Guttuso, creio eu. As pinturas de
monumentos de Roma desapareceram das paredes,
trocadas por paisagens. Mais detalhes? Procurem.


Renato Guttuso, Caffè Greco, 1976. Óleo sobre tela.
282×333 cm. Colónia, Museu Ludwig.


De Chirico, Portrait prémonitoire de Guillaume Apollinaire,
1914.Centre Pompidou, Paris.


De Chirico, A Nostalgia do Poeta, 1914.
Peggy Guggenheim Collection, Veneza.


Um recanto bonito do Caffè Greco. Esta era uma das
mesas de De Chirico.


Caffè Greco. Foto Lluis de Zamora, flickr.

E uma cara portuguesa, com certeza:


José Saramago no Caffè Greco. Foto: cultphoto, flickr.

* Tradução livre:

Há em Roma um café…
Um café bem especial.
Dele não vou dizer mal;
descrevo-o… tal qual é.
Visitam-no americanas,
milordes, grandes senhores,
artistas grandes e sacanas.

Posted by J.B. at 01:43:04
Comments

6 Responses to “lvi - Caffè Greco”

  1. Anonymous says:

    Uma amiga recomendou-me o blog. E é fabuloso. Viajar desta forma pelo mundo dos Cafés é ir de encontro à alma de cada Café. E surge o inevitável ímpeto de viajar e ir obrigatoriamente. Estar. Observar. Conhecer. Falar.
    Parabéns. E Obrigado. Já tenho leitura obrigatória.
    JM

  2. Acabo de chegar, dun xeito casual, ó seu blog, verdadeira enciclopedia dos cafés. Estou completamente abraiada!!!! Moitas grazas polo seu traballo que vou degustar a partir de hoxe, sorbo a sorbo, co mesmo pracer co que bebería unha taza de café.
    Isabel Gómez Rivas

  3. Anonymous says:

    Obrigado JM, moitas grazas Isabel.
    JB

  4. Francisco Dias says:

    Ontem, por noventa cêntimos, tomei um belo “caffe macchiato” ao balcão do Antico Caffè Greco, na via dei Condotti. Admirado por ver, na sala de entrada, amplas imagens decorativas com cenas de Veneza, inquiri a empregada, que me deu uma lição de história: Greco era o apelido do fundador, que era de origem veneziana - daí as imagens. Ontem soube deste blog e abrindo-o vi a notícia… grande sincronismo!
    Um abraço do
    Francisco

  5. Anonymous says:

    Olá Francisco. A minha viagem pelos cafés do mundo é puramente virtual, nunca estive em Roma sequer. Sou um nostálgico dos cafés de outrora, onde passei muitas centenas de horas a ler, excrever e conversar.

  6. Edu says:

    Parabéns, belo blog e muito util para os interessados por café. estou desenhando uma serie de cafes antigos baseados em fotos de epoca e me foi de muita valia este blog.

    Uma boa noite e bons cafés !!!!

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