Monday, April 6, 2009

lviii - Cristiano Cruz


Café modernista


Cristiano Cruz - Senhoras à mesa do café, 1919. Pintura a óleo sobre
cartão, Centro de Arte Moderna, FCG.


Cristiano Cruz (1892-1951) foi um artista autodidata,
iniciado na caricatura, de onde passou para uma pintura
de traço expressionista, que comparam hoje à dos seus
contemporâneos Egon Schiele e Kokoschka. Enquanto
se formava em Veterinária, publicou dezenas de
desenhos e participou nos Salões dos Humoristas,
ao lado de Almada Negreiros, Stuart e Jorge Barradas.
Declarou guerra à “bota-de-elástico” (expressão
cunhada por ele, referindo-se ao academismo), antes
de partir para França para a guerra verdadeira. São
conhecidos os seus desenhos de cenas da guerra,
publicados em 1989 pela Quetzal.

O meio socio-cultural português desgostava-o e não
o motivava a continuar a carreira artística. Depois da
Grande Guerra acabou por desistir de pintar, para se
dedicar à sua profissão de veterinário em Moçambique.
Na obra acima, uma das últimas que pintou, há quem
queira ver uma pistola na mão de senhora mundana da
direita, “tornando-a cúmplice de crimes premeditados,
que se festejam com sorrisos maliciosos”. Mas não
estará a dama simplesmente a chamar o criado?


Posted by J.B. in 18:18:33 | Permalink | No Comments »

lvii - Tehran


Os cafés de Teerão


Bairro rico de Teerão
 
A capital do Irão, uma das grandes metrópoles da Ásia,
tinha em 1900 uma população inferior à de Lis
boa. Cem
anos depois, o petróleo fez de Teerão uma cidade quinze
vezes mais populosa do que a capital portuguesa.

Depois da Revolução Islâmica de 1979, que colocou as
barbas brancas dos ayatollahs no poder, os antigos cafés
de tipo europeu de Teerão quase que desapareceram
da paisagem social urbana. A convivialidade refugiou-se
nas casas das pessoas, onde, ao abrigo das ditas barbas
brancas, se pode falar livremente, usar qualquer roupa,
mostrar os cabelos e até beber álcool de contrabando.
Como todos os outros regimes totalitários, religiosos ou
não, a teocracia iraniana também não tolerava os cafés
frequentados por intelectuais e artistas que gostam de
discutir política ou falar livremente. Apenas os cafés
populares se foram mantendo, espécies de tascas sem
álcool (à vista) onde se fuma narguilé e se bebe chá ou
café turco.


Café popular de Teerão.


Café popular de Teerão. Fotos: quixotic, flickr.


Na última década e meia, porém, recomeçaram a aparecer os
cafés ocidentais, sobretudo nos centros comerciais da
parte Norte de Teerão, a zona mais “afluente” e liberal da
cidade, semeada de torres de luxo. Nos últimos andares
destas torres há belos cafés ocidentalizados onde as famílias
“afluentes” vão beber o seu chocolate e os jovens iranianos
ricos podem ir namorar, fingindo fazer braço de ferro.


Café no topo da Torre Branca. Foto Fredrik Härenstam


Namoro em café de Teerão


Os cybercafés também fizeram a sua aparição, mas a net é
estritamente vigiada pelas barbas brancas dos mullahs.

Os novos cafés apareceram sobretudo em centros
comerciais. O Café Shouka (abaixo), situado num centro
comercial, é frequentado por artistas, intelectuais e
mulheres da classe média e alta.


Café Shouka. Foto: Bobby Model, National Geographic. 


Um café chic frequentado por mulheres. O hajib é obrigatório,
fumar é livre.


Os iranianos são fanáticos de literatura. Teerão tem
inúmeras livrarias e, geralmente, não estão às moscas.
A recente moda dos cafés-livrarias (ver foto abaixo)
estava a pegar muito bem entre a malta nova, que é a
maioria dos 12 milhões de habitantes de Teerão,
quando
os ayatollahs se lembraram que a coisa era perigosa
para os bons
costumes islâmicos. Em 2007 fizeram-se leis
para impedir que as livrarias pudessem
explorar cafetarias,
tratando-se, como é óbvio, de actividades total
mente
inconciliáveis. Misturar chá ou café com Tolstoi ou Orhan
Pamuk é
mesmo
explosivo, parece. Sobretudo se os jovens
aproveitarem a mesa do
café para falar de algo mais do que
de literatura. Por exemplo, para troçarem daqueles barbudos
que se acham com o direito de meter o nariz na vida de
cada um. As jovens em baixo parecem preferir os cabelos
compridos dos actores americanos às barbas dos
ayatollahs.


Brasas num café-livraria de Teerão (2007), fechado desde então..
Foto: Guardian Books Blog.

Na foto seguinte, temos uma ampla vista de um café
tradicional do Sul de Teerão. Nos estrados laterais, sobre
tapetes e almofadas, toma-se chá, café turco e fuma-se
narguilé. As mesas ao centro são mais destinadas a comer.
Repare-se na lareira de mármore, à esquerda. Os invernos
de Teerão, situada a mais de 1200 metros de altitude, são
muito rigorosos, e a cidade fica coberta de neve. 


Grupo no café tradicional Sangladj, em Fisherabad, Teerão.
Foto: Hamed Saber, flickr.


Café histórico

Um café de estilo europeu, o mais antigo de Teerão, é o
Café Naderi, aberto em 1927. Fica bem no centro da
cidade, por baixo do hotel do mesmo nome. Toma o
seu nome do Xá Nader, imperador contemporâneo de
Luís XV e de D. João V, grande chefe militar e imperador
da Pérsia, país que reunificou depois de expulsar os
invasores afegãos e russos.


Café Naderi. Na parede ao fundo, retratos dos ayatollahs Khomeiny
e Ali Khamenei sobre uma máquina de café La Cimbali.


O velho Café Nader é frequentado por variada clientela:
estudantes, artistas, intelectuais, velhos professores
universitários
com reumatismo e gente talvez saudosa do
regime do Xá Reza Pahlevi, deposto em 1979. É local
histórico, sala de leitura de jornais, atelier de literatura
e laboratório de opinião e conspiratas, como todos os
cafés importantes do mundo. Frequentaram-no, por
exemplo,
os partidários do partido Tudeh (comunistas),
antes de serem presos ou mortos. Os criados são velhos,
tratam muitos dos clientes pelo nome e as mulheres por
“minha filha”. 
Na parede, a assinalar quem hoje manda no
país, retratos dos mais famosos ayatollahs, alvos da
indiferença da clientela.
A mobília é antiquada e a decoração
é rascosa. Parece que o Café Naderi tem os dias contados:
há planos para deitar tudo abaixo e fazer mais um daqueles
hotéis modernos e incaracterísticos de vinte andares. Não

parece haver em Teerão quem defenda esta relíquia.



À esquerda vêem-se as portas que dão sobre o antigo jardim do café,
hoje meio abandonado. Foto: basheem, flickr.

A fachada numa foto dos anos 40:

Posted by J.B. in 00:34:20 | Permalink | No Comments »