Sunday, May 31, 2009

lxi - Drug cafés

Drogaria Café


O Bulldog Coffeeshop, o mais antigo ‘cannabis coffeeshop’
de Amesterdão, à beira do canal.  

A Holanda tem a legislação mais liberal da Europa relativamente
ao consumo de marijuana. Isso torna o país, situado no coração
da Europa mais desenvolvida, num destino privilegiado do
chamado
‘turismo da droga’. Os turistas em causa vêm de todo
lado, inclusive da América, mas a Bélgica, a Alemanha e a
França fornecem o grosso dos visitantes.
A droga vende-se em
cafés, ou lojas parecidas com cafés, chamadas “coffeeshops”.
O Bulldog Coffeeshop foi o primeiro a abrir, em 1975


Entrada e micro-esplanada do Bulldog Coffeeshop,
fundado em 1975.


Outra vista do mesmo

Em toda a Holanda contam-se cerca de 700 “coffeeshops”,
onde se pode consumir ou comprar até cinco gramas de
canabis. Amesterdão é a cidade mais famosa por estes
cafés ou pseudo-cafés, mas Maastricht, no Sul da
Holanda, tem a particularidade de ficar numa ponta do
território holandês encravada entre a Bélgica e a Alemanha,
a minutos das respectivas fronteiras. É como se Badajoz
ficasse no concelho de Loures e os lisboetas fossem
danadinhos por caramelos…


Os ’coffeeshops’ City Hall e Green House, em Amesterdão.

Segundo um funcionário municipal de Maastricht, cerca de quatro
milhões de estrangeiros visitam por ano a província holandesa de
Limburg com o fim de comprarem erva ou haxe nos coffeeshops.
Se é permitida a comparação, trata-se de um número idêntico
ao de peregrinos nacionais ou estrangeiros que anualmente
demandam o Santuário de Fátima. O objecto da devoção é que é 
um pouco diferente.


Os americanos não adoram ser fotografados nos coffeeshops de
Amesterdão.


O Coffeeshop flutuante Mississippi, em Maastrischt, também
conhecido por ‘Smoky Boat’


A coisa atingiu tais proporções, que o presidente do município
de Maastricht quer limitar a partir de 1 de Janeiro de 2010
o consumo a 3 gramas por pessoa/dia e transformar os 30
‘cafés canabis’ da cidade em clubes abertos só a membros,
para manter os estrangeiros à distância. Só com cartão do
clube é que os clientes vão poder comprar passa e será
obrigatório o pagamento com cartão bancário.

A legalidade da coisa foi logo posta em causa, sob pretexto
que se trata de uma medida discriminatória dos estrangeiros,
mas o Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias, a que
o governo holandês dirigiu uma consulta, só se deve pronunciar
lá para o fim de 2010. Não é só a justiça portuguesa que é lenta…


Em Roosendaal, o município quer fechar estes três cafés

Outros municípios holandeses estão a projectar o encerramento
de parte dos ‘cannabis coffeeshops’ que proliferaram nas últimas
décadas, como modo de combater o crime e evitar o turismo
indesejável. O problema é se os outros comerciantes vão gostar
de tais medidas. Estamos a falar de milhões de pessoas e de
muitas centenas de milhões de euros deixados na Holanda!

Posted by J.B. at 18:16:51 | Permalink | No Comments »

Saturday, May 9, 2009

lx - A Brasileira em 1915


De pataco a meio tostão


A Brasileira em 1911, por Joshua Benoliel - Arq. Municipal de Lisboa

A 8 de Maio de 1915, o diário lisboeta O Jornal trazia na primeira
página uma notícia de sensação: o preço da chávena de café na
Brasileira - nome de dois cafés do mesmo dono, um no Chiado, outro
no Rossio - aumentara dez réis, passando de pataco (40 réis)
para meio tostão (50 réis). O aumento de 25% no preço da chávena
era denunciado em título, a brincar, como “O grande crime!”
Comparando, a bica servida à mesa da Brasileira custa hoje 1 euro,
ou seja, 200.000 réis, mas na esplanada vai para os 300.000 réis…

Diga-se que, em consequência da Guerra de 1914-1918, o preço do
café no mercado internacional tinha entrado em queda e o governo
brasileiro, dominado pelos grandes fazendeiros de café, ordenou a
queima de três milhões de sacas para defender o preço. Assim, a
subida da chávena de café na Brasileira, em Maio de 1915, não
reflectia o encarecimento da matéria prima, mas apenas o início da
alta geral dos preços devida à guerra.

A notícia a duas colunas de O Jornal era ilustrada por um desenho de
António Soares, então na sua fase paúlica (modernista), e por uma
invulgar fotografia, tirada do interior da Brasileira para a porta da rua,
com as silhuetas dos clientes em contra-luz. A Brasileira do Chiado,
fundada em 1905 por Adriano Teles (que aparece na notícia como
o “Teles”), tinha ainda a sua fachada original, anterior à remodelação de
1925, com uma vitrine de cada lado da porta, como na foto acima.
Numa das montras podia ver-se um grande moinho de café - que foi
pena ter desaparecido dali, pois seria agora uma bela peça decorativa.
Quando o café abriu ao público, Adriano Teles ofereceu a bebida
gratuitamente durante algum tempo, para atrair a clientela - facto a que
o jornal se refere também.

O artigo, que abaixo transcrevo integralmente, está escrito em tom
de chalaça, mas é uma rara fonte de informação sobre o Café
da Brasileira naquele período, especialmente sobre o microcosmos
social composto pela variada clientela. Faz um inventário das famílias
políticas dos habitués, dos talassas (monárquicos) aos avançados,
passando pelo errático Machado Santos - chefe do 5 de Outubro e
de várias outras revoluções, até que morreu numa feita por outros,
em 1921. Nos grupos profissionais enumera os médicos, os actores, 
os artistas, os jornalistas, os intelectuais, o pessoal da legação do
Brasil, etc. Nas escolas artísticas salienta os paúlicos (designação
dos modernistas, a partir do título de um famoso poema de Fernando
Pessoa, “Paúis”, publicado em 1914) e os futuristas. Inclui uma
série de ditos e de instantâneos de celebridades da época, algumas
das quais não resistiram ao tempo.

Nada entre as notícias de O Jornal daquele dia permite prever que
dali a menos de uma semana, a 14 de Maio de 1915, rebentaria uma
sangrenta revolução que derrubaria o governo de Pimenta de Castro.

Transcrevo o artigo com ortografia actualizada, com algumas precisões
[entre parênteses] e recolocando os parágrafos finais no lugar em que
logicamente deveriam estar. Algumas frases dúbias deixei-as tal qual.  

    O grande Crime!

    UM PATACO DE CAFÉ NA “BRASILEIRA”
    PASSA A CUSTAR MEIO TOSTÃO!

    Indignações, frases célebres, silêncios, protestos

    Abriu a meio da tarde, quando ontem o lisboeta vinha à rua tomar,
na piscina do Chiado, o seu banho diário de sol, uma notícia se ergueu,
de repente, que alvoroçou os corações, e irritou, no ânimo do
transeunte, uma dolorosa picada de emoção:
    - O café da Brasileira aumentou 10 réis em chávena! 
    A primeira impressão foi de espanto - e o espanto prende, gela,
imobiliza. Por um momento, o Chiado fica boquiaberto, não fala, é
mudo; não vê, é cego.
    Depois, subitamente, veio a revolta, veio a cólera, veio a indignação
- e aparecem os grandes gestos, as grandes dores, as grandes frases,
os grandes silêncios!
    Açodadamente, de todos os lados, os habitués da Brasileira
chegam, estacam, de cara ao balcão! Vêm de tropel, os olhos
coléricos, os lábios trémulos; alguns trazem ainda a gravata desatada;
o cabelo em desalinho…
    - Dize-me: é verdade?
    E os recém-chegados abanam pelos ombros os empregados que, lá
ao fundo, de dentro do balcão, com o caixeiro Viana, vêem com terror
a onda de revolta avançar, em torvelinho, num refluxo de maré cheia…
A notícia chegara-lhes a casa de manhã e, posta a correr mundo,
passou a todas as ruas, chegou a todos os lares, entrou pelas
redacções, pelos cafés, pelas secretarias…
    Há frases que ferem lume, mãos que se enclavinham. É o tumulto, é
a desordem.
    - Não pode ser! Não pode ser!
    A assembleia, de resto, é imponente. Está lá tudo quanto de bom,
na arte, no teatro, no jornalismo, tem o hábito de tomar café… Estão
António Costa, Feio Terenas, dr. Alfredo [da] Costa, Álvaro de
Almeida, Boavida Portugal, Stuart Torrie, Augusto Gil. Estão
Almeida e Sousa, Alfredo Soares, D. José Barahona, Jorge
Saavedra, Eduardo Segurado.
    Na mesa da porta, entestando à rua, o dr. António Aurélio [da
Costa Ferreira] discursa, debate, agita - preside! A sua voz soa,
formidável, como grito de reivindicação.
    Entretanto, sala fora, formam-se grupos célebres: o visconde de
Almeida Vasconcelos, Jorge Colaço, o padre Araújo, Manuel Santos.
É o grupo dos talassas. E Emílio Costa, António Albuquerque, etc.
É o grupo dos avançados.
    Há ainda os grupos por profissões: os médicos, os actores, os
artistas - Eduardo de Sousa, João Gonçalves, Moura Pinto; Chaby,
Mendonça de Carvalho, João Lopes, Araújo Pereira; Alberto de
Sousa, Jorge Barradas.
    E estes, ainda, por escolas: os paúlicos, como António Soares, e
os futuristas, como Santa Rita.
    Depois, pelas mesas fora, abancando sem distinção, Eduardo Graça,
Anahory, Mário Duarte, Alberto Bessa, Amélio de Barros, Juca de
Carvalho, o pessoal da legação do Brasil, José Pacheco, Machado
Santos - a fina flor do tom e da arte, do pensamento e do jornalismo
que todos os dias, desde o meio-dia à meia noite, ali abancam para a
libação e para a má língua, Para a palestra, para o vício, para o sonho…

                                            *
    
    - Meio tostão, por isto? - clama [alguém].
    E aponta, entre indignado e desdenhoso, a sua chávena.
    - Pois dize lá ao patrão, ouviste, que daqui em diante, com o meio
tostão do café, deixarei também - a camisa!
    A frase é de efeito: emociona, revolta, sacode. Lá do fundo, Pedro
Muralha, de braços no ar, clama:
    - Abaixo o capital!
    O tumulto cresce, ameaça degenerar em revolução…
    Há juras de ódio; o Chico Redondo chega, com os seus discípulos
dilectos, o António Caldeira e o Vitoriano Braga, dirige-se
impetuosamente ao balcão.
    Há um momento de ansiedade. Que irá fazer o ilustre cantor?
Cantar dois compassos de música - ou dar dois murros no caixeiro?
    Mas já a sua voz esplêndida, a sua voz de oiro soa pela sala:
    - Diga lá ao Teles, ó seu coiso, que a mim não prega ele partida
nenhuma: eu só bebo água!
    Aí pelas 3 horas, a Brasileira está à cunha. Aquela hora é para os
apreciadores de café - a hora da iniciação.
    Eduardo Peres, Estefanina, tenente Moniz Ribeiro, Pires Avelanoso,
Eduardo Graça chegam, abancam, batem palmas…
    - Olhem que o café aumentou de preço - gritam-lhes.
    - Hein?!
    E a vozearia aumenta, e há novos punhos no ar.
    Os criados vão e vêm, dão explicações.
    - De quem eu tenho pena - diz um deles, lamuriento - é do sr.
Arnaldo Pereira. Imaginem: toma vinte cafés por dia!
    O João Correia de Oliveira, quando lhe dão a má nova, meneia a
cabeça, diz, para o lado:
    - Começo a acreditar que há a guerra europeia…
    O Torres de Abreu é dos mais bulhentos.
    Em pé, clama, para a porta, para a rua, para a publicidade:
    - Aumentar o preço do pão, concebe-se, aumentar o preço do
veneno, nunca!
    Há palmas, apoiados.
    - É claro! Precisamos do envenenamento a preços baratos!
    Esculápio [Eduardo Fernandes] pede o seu café do costume, entra
já remexendo no bolso do colete o meio tostão da praxe.
    - Sr. Eduardo Fernandes, são mais dez reizinhos…
    - Como?! Então não quero o café!
    E, guardando o dinheiro, sai, alto, imponente, assombroso na sua
revolta!
    Vagamente começa a correr que o [deputado] Camilo Rodrigues
vai desafiar o Teles…
    O sr. [Mário] Sá Carneiro, em cabelo, as mãos à altura dos peitos,
anda pela sala, exclamando:
    - Eu zebro-me, eu upo-me, eu engenho-me! Isto é rodopiante de
roubo, zigzagueante de escândalo!
    O actor Chaby manda telegrama - e não aparece por estar fora
de Lisboa.
    - O caso é que isto não pode ser!
    Há os que se indignam, os que entristecem, os que ficam na
expectativa.
    Albertino da Silva, sorumbático, encolhe os ombros - e manda
manda vir segundo café.
    O sr. Brito Camacho, recebe serenamente a notícia e põe em cima
da mesa, como na forma do costume, três vinténs [60 réis].
    - Nunca dei menos - diz - mas também não dou mais. 
    Grita-se, aqui e ali:
    - Não se dá gorjeta! Não se dá gorjeta!
    A ideia parece excelente. E alguns vão pelas mesas, patentear a
abstenção de gorjeta - enquanto, às escondidas, metem na mão dos
criados o vintém habitual.
    Há, entanto, quem bote cálculos ao lucro que, no fim do ano,
representa para o proprietário aquele pequeno aumento de 10 réis
em cada chávena.
    - Cousa aí pra 9 contos, nas duas Brasileiras!
    Há ohs! de assombro, dúvidas, quando o sr. Ramiro Leão, risonho,
informa com autoridade:
    - Cada chávena de café, já com o respectivo açúcar, fica ao dono
da casa por 6 réis!
    - Imagine-se, hein?!

                                              *

    A tarde passou assim, sem lances. À noite, passámos pelo Chiado
e metemos o nariz na Brasileira. Esperávamos ver mesas partidas,
copos quebrados - e encontrámos, na acalmia do costume, os habitués
de sempre.
    - Mas então, a coisa ficou assim?!
    E dirijo-me ao criado, que, num sorriso de tranquilidade, senhor de
si, me diz:
    - Qual! Tudo como dantes! Vendeu-se o mesmo café e… nunca tive
tantas gorjetas!
    E num gesto que abrange toda a sala, repõe:
    - É que esta sociedade é da boa! É da fina! É… da liró!
    … E aí está como o sr. Teles, já contando com a passividade dos
homens de letras, dos artistas, dos poetas, dos actores que lhe
frequentam a casa, arranjou meio de lhes apanhar mais dez réis em
cada meio decilitro de um café, que principiou por nos dar de graça
e acaba a custar-nos os olhos da cara…
    Sr. Teles - bolas!

© José Barreto

Posted by J.B. at 16:51:04 | Permalink | Comments (1) »

Saturday, May 2, 2009

lix - António Ferro e o Café Martinho

 
 
Café de perdição

 

Já aqui referi, a propósito de Fialho de Almeida,
do Café Martinho ou de Fernando Pessoa, como os
cafés eram alvo de opiniões depreciativas por parte
de quem não prezava a liberdade de expressão e de
reunião e de quem via neles antros de ociosidade,
decadência e intriga, quando não de conspiração
contra o poder. Também havia disso, é certo, entre
muitas outras coisas. A mais célebre conspiração
envolvendo um café foi o regicídio de 1908. Manuel
Buiça e Alfredo Costa partiram do Café Gelo para
matar o rei e o príncipe herdeiro. 


Café Martinho 1909-1910. Foto: Joshua Benoliel - Arq. Municipal de Lisboa

Os três polícias à porta do Martinho, na foto acima, não 
devem estar lá por acaso. Em 1907, o café fora apedrejado.
Nesse ano, durante a greve estudantil que fez tremer o
governo de João Franco, os cafés lisboetas e portuenses
foram centros de reunião e agitação. O jornalista Pinto
Quartin contou como o governo respondeu com medidas
proibitivas ridículas a essa efervescência de café:
 
E porque, suspenso o direito de reunião, os estudantes se
juntassem no Gelo e no Martinho, em Lisboa, e no Central
no Porto, foram dadas ordens aos proprietários dos cafés
para não consentirem que nos seus estabelecimentos se
falasse de política, nos assuntos académicos ou «em tudo
o que saísse do simples e usual exercício da sua indústria».

Pinto Quartin, “A Greve Académica de Coimbra em 1907“,
Ver e Crer, Lisboa, nº 45, 1949, p. 3-9.

O Martinho, a Brasileira e o Gelo eram temidos por todos
os governos. Havia quem os colocasse acima do
Parlamento em influência política. Já durante a República,
sob a ditadura de Pimenta de Castro (1915), um jornal
amigo do ditador chamou ao Café Martinho “foco de
infecção política”. 


Outra vista do Café Martinho por Benoliel - Arq. Municipal de Lisboa 

 

Interior do Café Martinho, por Benoliel, 1909-1910 - Arq. Municipal de Lisboa

Quero aqui evocar alguém que, tendo começado a sua
carreira de escritor à mesa dos cafés, acabou a
figurá-los como locais de perdição. Um jornalista que
escreveu as suas três primeiras crónicas à mesa do
Café Martinho, tendo como tema o próprio Café Martinho,
e acabou a dizer mal dele. Um escritor que começou por
protestar contra a censura e acabou a defendê-la e a
justificá-la. Alguém para quem, aos 60 anos de idade, os
cafés e a vida de café simbolizavam, nessa evolução
pessoal, o passado repudiado. O Café Martinho muito
especialmente. 

Trata-se deste rotundo senhor aqui  em baixo, António
Ferro de seu nome.


Ferro foi precursor das ideias autoritárias em Portugal,
admirador declarado do fascismo e de Mussolini e
responsável pela propaganda salazarista desde 1933

Antes de trair a sua missão de jornalista, defendendo
a censura, e de se tornar numa espécie de ministro
da Propaganda de Salazar, o “poeta” António Ferro
coçou muitos fundilhos de calças pelas cadeiras
dos cafés de Lisboa - mais do que pelos bancos da
universidade, pois nunca completou o curso de
Direito. O pseudo-modernista António Ferro, que
apenas tinha em comum com os verdadeiros
modernistas (Pessoa, Almada, Sá Carneiro e outros)
uma dose generosa de narcisismo e megalomania,
deixou-nos um naco de prosa autobiográfica
a estigmatizar a vida de café da sua juventude.

Os trechos abaixo transcritos da última obra que
Ferro publicou, D. Manuel II, o Desventurado (1954),
datam da fase final da sua vida (morreu em 1956),
quando por Berna e Roma cobrava os dividendos de
dezassete anos de bom e efectivo serviço à cultura
e a propaganda do salazarismo. Os trechos provêm 
do prefácio de 79 páginas que Ferro escreveu para
esse livro em que reune entrevistas de 1930-1932
com o rei exilado em Londres e com sua mãe,
D. Amélia de Orleães. O longo prefácio assume um 
tom memorialístico que o recomenda para quem se
interessa pela biografia de Ferro. Como sempre, o
autor aproveita a ocasião e o pretexto para falar
sobretudo de si próprio. O livro de poemas que
preparava quando morreu intitula-se, narcisicamente,
Saudades de mim (Bertrand, 1957), título copiado,
aliás, de um verso de Mário de Sá Carneiro de 1913.
 

Note-se o berrante “modernismo” da capa

O Café Martinho - que ficava no largo fronteiro à
estação do Rossio e por onde passaram, até ao seu
encerramento nos anos 60, gerações de intelectuais
e artistas, incluindo o grupo de poetas e artistas que
fizeram o Orpheu - ocupa um curioso lugar central,
física e simbolicamente, nesta evocação em que
António Ferro relata o seu percurso pessoal e na
qual justifica, pouco antes de morrer prematuramente, 
o repúdio dos ideais de liberdade e modernidade da
sua geração, se não os da sua própria juventude. 
O homem que Salazar supostamente “exilou” como
embaixador na República Italiana pós-fascismo fala
aqui do seu passado de jovem intelectual republicano e 
de poeta habitué do Café Martinho com um desdém que
causa arrepios. Eis: 

Se bem que já desperto, nessa altura [1930-1932], pela voz da
consciência nacional, republicano, sim, mas republicano português,
nacionalista, antidemagógico desde os meus vinte e dois anos [1917],
eu pertencia, no entanto, àquela geração de rapazes que fora educada
na atmosfera poeirenta dos comícios dos subúrbios, no culto dos
atrevidos propagandistas da sonhada república, que teve o seu
encanto, principalmente, nos “quatro mosqueteiros” que faziam de
S. Bento o campo das suas aventuras e das suas audácias, geração
que foi, sem dúvida, arrastada pelas acrobacias verbais dos nossos
Girondinos, arrastada, sobretudo, pela voz empolgante, musical,
desse bom mas excessivo António José de Almeida, verdadeiro
“canto de sereia” das multidões do tempo.

Alguns anos passaram em que pouco mais fiz do que arrastar a
minha indolência, o meu vistoso mas oco baudelairianismo pelas
mesas do Martinho, onde perorava, todas as tardes, rodeado pelos
meus companheiros de tertúlia, à volta de uma ritual chávena de café
com leite. Foi aquela época mole, dissolvente, mas talvez necessária,
dos estetas (1912-1918), da Arte pela Arte, a época do wildismo
desdenhoso, em que os trocadilhos apareciam mascarados de
paradoxos, consequência, sem dúvida, da nossa decadência política,
seu reflexo literário, mas também reacção contra certos excessos do
materialismo desenfreado dos partidos e clientelas, contra os abusos
da vida pela vida, ou antes da vida pela vidinha, se bem que não
tenha dúvidas sobre o idealismo e a honestidade pessoal da grande
maioria dos chefes políticos de então.

 Foi Sidónio Pais, a figura esbelta de Sidónio, o nosso primeiro
republicano sem barrete frígio, que me arrancou a este
adormecimento, a esta modorra. A primeira vez que o vi -
lembro-me bem! - encontrava-me precisamente no Martinho,
no quartel general da minha indolência. Sidónio regressava da
sua viagem triunfal ao Porto. Grande multidão o aguardava
diante da estação do Rossio e suas imediações. Como sempre,
diante do meu deslavado café com leite, insípida água benta dos
meus paradoxos e trocadilhos, falsamente irónico, indiferente,
julgava-me bastante céptico para me defender daquela onda de
entusiasmo que já transpusera as portas do Martinho, que
pretendia molhar-me. Vencido, primeiro, pela simples curiosidade,
acabei por subir ao primeiro andar e instalar-me na varanda do
Café apenas para ver, gozar o espectáculo. Mas quando Sidónio
Pais assomou à porta da estação, com o seu perfil já lendário,
com aquela máscara de traços finos mas nítidos onde se espelhava
a nossa própria vontade, rodeado pelos seus ajudantes, impecáveis
e juvenis nas suas fardas novas, algo de magnético se passou,
algo de misterioso aconteceu - asa de anjo que me sacudiu, de anjo
viril… - que me obrigou a subir para uma cadeira e a dar palmas, a
dar vivas, freneticamente, como todos os outros.

 [...] E foi então que senti, pela primeira vez, a beleza, o sentido
poético da palavra chefe, quando este não é um tirano; foi então
que percebi o erro, a doença da minha poesia ao compreender
definitivamente que as nações só se prestigiam através da
grandeza das suas figuras e nunca, nunca, através da pequenez dos
seus figurantes. A imagem de Sidónio Pais, “viva estátua equestre”, como alguém lhe chamou, ainda me deslumbrou, me fascinou em diversas paradas e desfiles onde o seu perfil magnetizava sempre as multidões. E a ele devo esta certeza que nunca mais me abandonou: a poesia das nações, a sua poesia heróica, não está nas alfurjas, nas associações secretas, ou até nos parlamentos, mas nos seus chefes ou nos seus reis, naqueles que podem ser derrubados, mortos, mas deixam as suas pátrias bem erguidas, mais altas, nos próprios pedestais donde foram apeados, violentamente, pelas paixões dos homens.
Sidónio, no entanto, podia ter sido a enganadora miragem, a vistosa alegoria, a apoteose sem fundo, a simples visão lírica do chefe. A minha partida para Angola, alguns meses depois da aparição de Sidónio, o meu encontro com Filomeno da Câmara, outro republicano português sem barrete frígio, que fora nomeado governador da nossa maior colónia, foi a prova dos nove, a realidade depois do possível sonho, a lição prática depois da teoria…

 

Filomeno da Câmara, comandante da Armada e
colaborador próximo de Sidónio Pais em 1917-1918,
foi um admirador de Mussolini e do fascismo. Seria um
dos chefes da intentona de 18 de Abril de 1925, 
sendo por isso considerado como um dos principais
precursores do 28 de Maio de 1926 e da ditadura que
se lhe seguiu.
 

 
Em 1927 foi um dos protagonistas do ridículo golpe
dos Fifis (dos nomes de Filomeno da Câmara
e Fidelino de Figueiredo), que pretendia empurrar a
Ditadura Militar ainda mais para a direita. António
Ferro chegou então a ser detido, por via da sua
ligação a Filomeno. Essa relação começara em 1918,
quando Filomeno foi enviado para Angola como
governador-geral. António Ferro, oficial às ordens
de Filomeno, seria a breve trecho escolhido pelo
governador para o cargo de secretário-geral interino
do governo da colónia. Foi, durante alguns meses, a
iniciação de Ferro como mordomo de um autocrata.

Respigo do livro citado mais estas passagens sobre
a experiência angolana de 1918, nas quais volta a
aparecer o Café Martinho
:
“Poucos meses durou a aventura” - escrevia, alguns anos depois, o
próprio Filomeno, no prefácio da minha Viagem à Volta das
Ditaduras
- “os bastantes, ainda assim, para cimentarem a nossa
amizade e para exercerem uma influência na carreira literária do moço
poeta que, até ali, não encontrara saída do labirinto das mesas do Café
Martinho, onde bebia, com um café detestável,  uma inspiração ainda
mais detestável. Um belo dia, em Luanda, surprendi-o com a nomeação
de secretário-geral interino do governo, cargo que o levou à intimidade
e colaboração diária do trabalho de orientar, organizar e fazer progredir
uma grande colónia muito desarrumada e anormalmente agitada por
interesses e paixões individuais que a situação política, ao tempo,
exarcebara. Início da carreira de um funcionário colonial? Nada disso:
início, apenas, do contacto com a vida, com a energia, com o
movimento. Secretário-geral de uma província ultramarina veio a
significar, neste caso, o aparecimento de um jornalista. A administração
é um dos grandes dramas, uma das grandes comédias da vida. Ao
perscrutá-la, António Ferro encontrou um vasto campo onde exercer
o seu entusiasmo e a sua ironia, a sua curiosidade de impressiondor de
filmes. Descoberto o caminho da sua vocação literária, António
Ferro começou a prodigalizar a sua verve em vários jornais. Dirigiu,
algum tempo, o [diário lisboeta] O Jornal, combateu pelo sidonismo,
sendo um dos precursores na defesa do princípio da autoridade.”

Cumpri, portanto, a ordem de Filomeno da Câmara e, durante sete
ou oito meses, exerci, não sei bem como, mas creio que sofrivelmente,
sujeito a todas as intrigas e rasteiras das curibecas de Angola, o
cargo dificílimo de secretário-geral da província. [...] E foi também aí,
durante a minha escola de África, que a palavra chefe começou a
perder a sua expressão individual, policial, tirânica, para ganhar,
pouco a pouco, a consistência de uma ideia.

 Grande e saudoso Amigo!… Foi ele quem me sacudiu, me rasgou os
olhos, me arrancou a mim próprio. Se o não tivesse conhecido, eu
continuaria, talvez - ai de mim! - sem encontrar saída no labirinto das
mesas do Café Martinho, “a beber, com um café detestável, uma
inspiração ainda mais detestável”. E quantos, quantos não se perdem,
quantos não ficaram lá, por não terem encontrado o seu Filomeno da
Câmara, o seu comandante…

 Excertos de António Ferro, D. Manuel II, o Desventurado, Livraria
Bertrand, 1954, p. 23-33.

 

De facto, quantos não ficaram por lá, pelo Café
Martinho ou pela Brasileira do Chiado! Quantos
não falharam o encontro com um Chefe, um
comandante, um tirano fardado de salvador.
Quantos não se “perderam”… Por exemplo, 
Fernando Pessoa. Dez vezes mais qualificado do
que António Ferro, mas sem um comandante para
lhe “rasgar os olhos”, lá continuou, até morrer, a
ganhar o seu pão traduzindo correspondência
comercial, não conseguindo abichar sequer um
modesto emprego na biblioteca municipal de
Cascais, a que concorreu em 1932, porque os
Antónios Ferros lho negaram.
 

 

Ao classificar as suas próprias obras de juventude
como “ingenuamente cépticas ou orgulhosamente
frívolas”, fruto de um “decadentismo vistoso,
aparatoso, para Martinho ver” (pp. 34-35 do mesmo
livro de 1954), Ferro visava também, forçosamente,
os seus antigos “colegas” do Orpheu. Não escrevera
ele já em 1918, visando claramente a Ode Triunfal de
Álvaro de Campos:

“E os que posam de futuristas, que cantam a força,
as máquinas, o Progresso, e andam para aí a
apodrecer pelas esquinas?!” (“População”, na coluna
“Cartas do Martinho”, O Século, 3 de Março de 1918).

Bem tentou o António Ferro director da Propaganda,
numa aplicação prática da sua ‘Política do Espírito’, 
recrutar para o Estado Novo esses “sonhadores
nostálgicos do abatimento e da decadência” (como
lhes chamou Salazar). Por isso premiou a Mensagem
de Pessoa, de quem quis fazer profeta e bardo do
Estado Novo. Mas a política da cenoura não
funcionou, nesse caso, e a “inspiração detestável”
do Café Martinho continuou, felizmente, a iluminar a
obra de Pessoa até ao fim.

E assim ficou Pessoa para a Arte e a História, 
palácios onde Ferro habita uma cave sombria,
rumo ao justo esquecimento.

© Texto de José Barreto

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 

 

 

 

 

 


Ilustração de Afonso Cruz para O Dia em que Mataram o Rei, Texto Editora.

Em Lisboa, a Brasileira do Chiado e os desaparecidos
cafés Gelo, Martinho, Brasileira do Rossio, Martinho da
Arcada (hoje restaurante), Chiado e Portugal foram alguns
desses antros de “crítica irresponsável” ao longo do
século XX, em particular sob o Estado Novo. Mas havia
muito quem visse neles redutos de convivialidade, tertúlia
cultural e debate livre - verdadeiras ilhas na tacanhez 
opressiva do panorama nacional. Grandes páginas de
literatura saíram das mesas de mármore desses cafés.
Muita boataria também. Até revoluções.

Posted by J.B. at 20:43:25 | Permalink | No Comments »