Saturday, May 2, 2009

lix - António Ferro e o Café Martinho

 
 
Café de perdição

 

Já aqui referi, a propósito de Fialho de Almeida,
do Café Martinho ou de Fernando Pessoa, como os
cafés eram alvo de opiniões depreciativas por parte
de quem não prezava a liberdade de expressão e de
reunião e de quem via neles antros de ociosidade,
decadência e intriga, quando não de conspiração
contra o poder. Também havia disso, é certo, entre
muitas outras coisas. A mais célebre conspiração
envolvendo um café foi o regicídio de 1908. Manuel
Buiça e Alfredo Costa partiram do Café Gelo para
matar o rei e o príncipe herdeiro. 


Café Martinho 1909-1910. Foto: Joshua Benoliel - Arq. Municipal de Lisboa

Os três polícias à porta do Martinho, na foto acima, não 
devem estar lá por acaso. Em 1907, o café fora apedrejado.
Nesse ano, durante a greve estudantil que fez tremer o
governo de João Franco, os cafés lisboetas e portuenses
foram centros de reunião e agitação. O jornalista Pinto
Quartin contou como o governo respondeu com medidas
proibitivas ridículas a essa efervescência de café:
 
E porque, suspenso o direito de reunião, os estudantes se
juntassem no Gelo e no Martinho, em Lisboa, e no Central
no Porto, foram dadas ordens aos proprietários dos cafés
para não consentirem que nos seus estabelecimentos se
falasse de política, nos assuntos académicos ou «em tudo
o que saísse do simples e usual exercício da sua indústria».

Pinto Quartin, “A Greve Académica de Coimbra em 1907“,
Ver e Crer, Lisboa, nº 45, 1949, p. 3-9.

O Martinho, a Brasileira e o Gelo eram temidos por todos
os governos. Havia quem os colocasse acima do
Parlamento em influência política. Já durante a República,
sob a ditadura de Pimenta de Castro (1915), um jornal
amigo do ditador chamou ao Café Martinho “foco de
infecção política”. 


Outra vista do Café Martinho por Benoliel - Arq. Municipal de Lisboa 

 

Interior do Café Martinho, por Benoliel, 1909-1910 - Arq. Municipal de Lisboa

Quero aqui evocar alguém que, tendo começado a sua
carreira de escritor à mesa dos cafés, acabou a
figurá-los como locais de perdição. Um jornalista que
escreveu as suas três primeiras crónicas à mesa do
Café Martinho, tendo como tema o próprio Café Martinho,
e acabou a dizer mal dele. Um escritor que começou por
protestar contra a censura e acabou a defendê-la e a
justificá-la. Alguém para quem, aos 60 anos de idade, os
cafés e a vida de café simbolizavam, nessa evolução
pessoal, o passado repudiado. O Café Martinho muito
especialmente. 

Trata-se deste rotundo senhor aqui  em baixo, António
Ferro de seu nome.


Ferro foi precursor das ideias autoritárias em Portugal,
admirador declarado do fascismo e de Mussolini e
responsável pela propaganda salazarista desde 1933

Antes de trair a sua missão de jornalista, defendendo
a censura, e de se tornar numa espécie de ministro
da Propaganda de Salazar, o “poeta” António Ferro
coçou muitos fundilhos de calças pelas cadeiras
dos cafés de Lisboa - mais do que pelos bancos da
universidade, pois nunca completou o curso de
Direito. O pseudo-modernista António Ferro, que
apenas tinha em comum com os verdadeiros
modernistas (Pessoa, Almada, Sá Carneiro e outros)
uma dose generosa de narcisismo e megalomania,
deixou-nos um naco de prosa autobiográfica
a estigmatizar a vida de café da sua juventude.

Os trechos abaixo transcritos da última obra que
Ferro publicou, D. Manuel II, o Desventurado (1954),
datam da fase final da sua vida (morreu em 1956),
quando por Berna e Roma cobrava os dividendos de
dezassete anos de bom e efectivo serviço à cultura
e a propaganda do salazarismo. Os trechos provêm 
do prefácio de 79 páginas que Ferro escreveu para
esse livro em que reune entrevistas de 1930-1932
com o rei exilado em Londres e com sua mãe,
D. Amélia de Orleães. O longo prefácio assume um 
tom memorialístico que o recomenda para quem se
interessa pela biografia de Ferro. Como sempre, o
autor aproveita a ocasião e o pretexto para falar
sobretudo de si próprio. O livro de poemas que
preparava quando morreu intitula-se, narcisicamente,
Saudades de mim (Bertrand, 1957), título copiado,
aliás, de um verso de Mário de Sá Carneiro de 1913.
 

Note-se o berrante “modernismo” da capa

O Café Martinho - que ficava no largo fronteiro à
estação do Rossio e por onde passaram, até ao seu
encerramento nos anos 60, gerações de intelectuais
e artistas, incluindo o grupo de poetas e artistas que
fizeram o Orpheu - ocupa um curioso lugar central,
física e simbolicamente, nesta evocação em que
António Ferro relata o seu percurso pessoal e na
qual justifica, pouco antes de morrer prematuramente, 
o repúdio dos ideais de liberdade e modernidade da
sua geração, se não os da sua própria juventude. 
O homem que Salazar supostamente “exilou” como
embaixador na República Italiana pós-fascismo fala
aqui do seu passado de jovem intelectual republicano e 
de poeta habitué do Café Martinho com um desdém que
causa arrepios. Eis: 

Se bem que já desperto, nessa altura [1930-1932], pela voz da
consciência nacional, republicano, sim, mas republicano português,
nacionalista, antidemagógico desde os meus vinte e dois anos [1917],
eu pertencia, no entanto, àquela geração de rapazes que fora educada
na atmosfera poeirenta dos comícios dos subúrbios, no culto dos
atrevidos propagandistas da sonhada república, que teve o seu
encanto, principalmente, nos “quatro mosqueteiros” que faziam de
S. Bento o campo das suas aventuras e das suas audácias, geração
que foi, sem dúvida, arrastada pelas acrobacias verbais dos nossos
Girondinos, arrastada, sobretudo, pela voz empolgante, musical,
desse bom mas excessivo António José de Almeida, verdadeiro
“canto de sereia” das multidões do tempo.

Alguns anos passaram em que pouco mais fiz do que arrastar a
minha indolência, o meu vistoso mas oco baudelairianismo pelas
mesas do Martinho, onde perorava, todas as tardes, rodeado pelos
meus companheiros de tertúlia, à volta de uma ritual chávena de café
com leite. Foi aquela época mole, dissolvente, mas talvez necessária,
dos estetas (1912-1918), da Arte pela Arte, a época do wildismo
desdenhoso, em que os trocadilhos apareciam mascarados de
paradoxos, consequência, sem dúvida, da nossa decadência política,
seu reflexo literário, mas também reacção contra certos excessos do
materialismo desenfreado dos partidos e clientelas, contra os abusos
da vida pela vida, ou antes da vida pela vidinha, se bem que não
tenha dúvidas sobre o idealismo e a honestidade pessoal da grande
maioria dos chefes políticos de então.

 Foi Sidónio Pais, a figura esbelta de Sidónio, o nosso primeiro
republicano sem barrete frígio, que me arrancou a este
adormecimento, a esta modorra. A primeira vez que o vi -
lembro-me bem! - encontrava-me precisamente no Martinho,
no quartel general da minha indolência. Sidónio regressava da
sua viagem triunfal ao Porto. Grande multidão o aguardava
diante da estação do Rossio e suas imediações. Como sempre,
diante do meu deslavado café com leite, insípida água benta dos
meus paradoxos e trocadilhos, falsamente irónico, indiferente,
julgava-me bastante céptico para me defender daquela onda de
entusiasmo que já transpusera as portas do Martinho, que
pretendia molhar-me. Vencido, primeiro, pela simples curiosidade,
acabei por subir ao primeiro andar e instalar-me na varanda do
Café apenas para ver, gozar o espectáculo. Mas quando Sidónio
Pais assomou à porta da estação, com o seu perfil já lendário,
com aquela máscara de traços finos mas nítidos onde se espelhava
a nossa própria vontade, rodeado pelos seus ajudantes, impecáveis
e juvenis nas suas fardas novas, algo de magnético se passou,
algo de misterioso aconteceu - asa de anjo que me sacudiu, de anjo
viril… - que me obrigou a subir para uma cadeira e a dar palmas, a
dar vivas, freneticamente, como todos os outros.

 [...] E foi então que senti, pela primeira vez, a beleza, o sentido
poético da palavra chefe, quando este não é um tirano; foi então
que percebi o erro, a doença da minha poesia ao compreender
definitivamente que as nações só se prestigiam através da
grandeza das suas figuras e nunca, nunca, através da pequenez dos
seus figurantes. A imagem de Sidónio Pais, “viva estátua equestre”, como alguém lhe chamou, ainda me deslumbrou, me fascinou em diversas paradas e desfiles onde o seu perfil magnetizava sempre as multidões. E a ele devo esta certeza que nunca mais me abandonou: a poesia das nações, a sua poesia heróica, não está nas alfurjas, nas associações secretas, ou até nos parlamentos, mas nos seus chefes ou nos seus reis, naqueles que podem ser derrubados, mortos, mas deixam as suas pátrias bem erguidas, mais altas, nos próprios pedestais donde foram apeados, violentamente, pelas paixões dos homens.
Sidónio, no entanto, podia ter sido a enganadora miragem, a vistosa alegoria, a apoteose sem fundo, a simples visão lírica do chefe. A minha partida para Angola, alguns meses depois da aparição de Sidónio, o meu encontro com Filomeno da Câmara, outro republicano português sem barrete frígio, que fora nomeado governador da nossa maior colónia, foi a prova dos nove, a realidade depois do possível sonho, a lição prática depois da teoria…

 

Filomeno da Câmara, comandante da Armada e
colaborador próximo de Sidónio Pais em 1917-1918,
foi um admirador de Mussolini e do fascismo. Seria um
dos chefes da intentona de 18 de Abril de 1925, 
sendo por isso considerado como um dos principais
precursores do 28 de Maio de 1926 e da ditadura que
se lhe seguiu.
 

 
Em 1927 foi um dos protagonistas do ridículo golpe
dos Fifis (dos nomes de Filomeno da Câmara
e Fidelino de Figueiredo), que pretendia empurrar a
Ditadura Militar ainda mais para a direita. António
Ferro chegou então a ser detido, por via da sua
ligação a Filomeno. Essa relação começara em 1918,
quando Filomeno foi enviado para Angola como
governador-geral. António Ferro, oficial às ordens
de Filomeno, seria a breve trecho escolhido pelo
governador para o cargo de secretário-geral interino
do governo da colónia. Foi, durante alguns meses, a
iniciação de Ferro como mordomo de um autocrata.

Respigo do livro citado mais estas passagens sobre
a experiência angolana de 1918, nas quais volta a
aparecer o Café Martinho
:
“Poucos meses durou a aventura” - escrevia, alguns anos depois, o
próprio Filomeno, no prefácio da minha Viagem à Volta das
Ditaduras
- “os bastantes, ainda assim, para cimentarem a nossa
amizade e para exercerem uma influência na carreira literária do moço
poeta que, até ali, não encontrara saída do labirinto das mesas do Café
Martinho, onde bebia, com um café detestável,  uma inspiração ainda
mais detestável. Um belo dia, em Luanda, surprendi-o com a nomeação
de secretário-geral interino do governo, cargo que o levou à intimidade
e colaboração diária do trabalho de orientar, organizar e fazer progredir
uma grande colónia muito desarrumada e anormalmente agitada por
interesses e paixões individuais que a situação política, ao tempo,
exarcebara. Início da carreira de um funcionário colonial? Nada disso:
início, apenas, do contacto com a vida, com a energia, com o
movimento. Secretário-geral de uma província ultramarina veio a
significar, neste caso, o aparecimento de um jornalista. A administração
é um dos grandes dramas, uma das grandes comédias da vida. Ao
perscrutá-la, António Ferro encontrou um vasto campo onde exercer
o seu entusiasmo e a sua ironia, a sua curiosidade de impressiondor de
filmes. Descoberto o caminho da sua vocação literária, António
Ferro começou a prodigalizar a sua verve em vários jornais. Dirigiu,
algum tempo, o [diário lisboeta] O Jornal, combateu pelo sidonismo,
sendo um dos precursores na defesa do princípio da autoridade.”

Cumpri, portanto, a ordem de Filomeno da Câmara e, durante sete
ou oito meses, exerci, não sei bem como, mas creio que sofrivelmente,
sujeito a todas as intrigas e rasteiras das curibecas de Angola, o
cargo dificílimo de secretário-geral da província. [...] E foi também aí,
durante a minha escola de África, que a palavra chefe começou a
perder a sua expressão individual, policial, tirânica, para ganhar,
pouco a pouco, a consistência de uma ideia.

 Grande e saudoso Amigo!… Foi ele quem me sacudiu, me rasgou os
olhos, me arrancou a mim próprio. Se o não tivesse conhecido, eu
continuaria, talvez - ai de mim! - sem encontrar saída no labirinto das
mesas do Café Martinho, “a beber, com um café detestável, uma
inspiração ainda mais detestável”. E quantos, quantos não se perdem,
quantos não ficaram lá, por não terem encontrado o seu Filomeno da
Câmara, o seu comandante…

 Excertos de António Ferro, D. Manuel II, o Desventurado, Livraria
Bertrand, 1954, p. 23-33.

 

De facto, quantos não ficaram por lá, pelo Café
Martinho ou pela Brasileira do Chiado! Quantos
não falharam o encontro com um Chefe, um
comandante, um tirano fardado de salvador.
Quantos não se “perderam”… Por exemplo, 
Fernando Pessoa. Dez vezes mais qualificado do
que António Ferro, mas sem um comandante para
lhe “rasgar os olhos”, lá continuou, até morrer, a
ganhar o seu pão traduzindo correspondência
comercial, não conseguindo abichar sequer um
modesto emprego na biblioteca municipal de
Cascais, a que concorreu em 1932, porque os
Antónios Ferros lho negaram.
 

 

Ao classificar as suas próprias obras de juventude
como “ingenuamente cépticas ou orgulhosamente
frívolas”, fruto de um “decadentismo vistoso,
aparatoso, para Martinho ver” (pp. 34-35 do mesmo
livro de 1954), Ferro visava também, forçosamente,
os seus antigos “colegas” do Orpheu. Não escrevera
ele já em 1918, visando claramente a Ode Triunfal de
Álvaro de Campos:

“E os que posam de futuristas, que cantam a força,
as máquinas, o Progresso, e andam para aí a
apodrecer pelas esquinas?!” (“População”, na coluna
“Cartas do Martinho”, O Século, 3 de Março de 1918).

Bem tentou o António Ferro director da Propaganda,
numa aplicação prática da sua ‘Política do Espírito’, 
recrutar para o Estado Novo esses “sonhadores
nostálgicos do abatimento e da decadência” (como
lhes chamou Salazar). Por isso premiou a Mensagem
de Pessoa, de quem quis fazer profeta e bardo do
Estado Novo. Mas a política da cenoura não
funcionou, nesse caso, e a “inspiração detestável”
do Café Martinho continuou, felizmente, a iluminar a
obra de Pessoa até ao fim.

E assim ficou Pessoa para a Arte e a História, 
palácios onde Ferro habita uma cave sombria,
rumo ao justo esquecimento.

© Texto de José Barreto

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 

 

 

 

 

 


Ilustração de Afonso Cruz para O Dia em que Mataram o Rei, Texto Editora.

Em Lisboa, a Brasileira do Chiado e os desaparecidos
cafés Gelo, Martinho, Brasileira do Rossio, Martinho da
Arcada (hoje restaurante), Chiado e Portugal foram alguns
desses antros de “crítica irresponsável” ao longo do
século XX, em particular sob o Estado Novo. Mas havia
muito quem visse neles redutos de convivialidade, tertúlia
cultural e debate livre - verdadeiras ilhas na tacanhez 
opressiva do panorama nacional. Grandes páginas de
literatura saíram das mesas de mármore desses cafés.
Muita boataria também. Até revoluções.

Posted by J.B. in 20:43:25
Comments

Leave a Reply