Sunday, January 11, 2009

lii - O café redondo


The round coffee house

Trivandrum, Kerala, India



The Indian Coffee House, Trivandrum.

The Indian Coffee House é o nome de uma cadeia de cafés
com cerca de 50 filiais por toda a Índia. Cada um dos cafés
é gerido por uma cooperativa de trabalhadores. Não há, pois, 
a uniformização típica das cadeias de cafés ocidentais tipo
Starbucks - embora estas já tenham chegado em força à Índia
(Barista, Costa Coffee, Coffee World, Café Coffee Day, etc).
Cada café da cadeia ICH, como o aqui figurado, da cidade
de Trivandrum, tem a sua fisionomia e clientela próprias.
Os primeiros datam de 1957 e deveram-se à iniciativa de
um líder operário comunista, A. K. Gopalan, que, recusando
o anunciado encerramento dos cafés do India Coffee Board,
do tempo do domínio inglês, promoveu a sua transformação
numa associação de cafés geridos pelos trabalhadores,
mudando-lhe o nome para The Indian Coffee House.
Curioso facto este, de a primeira cadeia de cafés
indianos resultar de uma rede comercial da administração
colonial recuperada por uma iniciativa
comunista.
 

O ICH da cidade de Trivandrum, no estado de Kerala, foi
fundado em 1958 pelo referido A. K. Gopalan. É notável, se
não mesmo único no mundo, pela sua arquitectura arrojada
em espiral. É uma torre de tijolo redonda, com três andares
em rampa contínua e pequenas janelas triangulares sem vidro.
O ambiente interior é muito bem conseguido, com iluminação
natural, mesas de tampo de mármore esverdeado e bancos
em cimento pintado de preto. Pode tomar-se simplesmente
café ou chá, mas também se pode comer. Para o calor há os
tradicionais ventiladores de tecto, o ar condicionado indiano…


The Indian Coffee House, Trivandrum.


The Indian Coffee House, Trivandrum. 

Mais uma vista exterior (é pena aquela espécie de bairro de lata
à volta da torre, em baixo):


O café redondo rodeado de rickshaws.

Os criados de mesa têm fardas vistosas em todos os cafés
da cadeia IHC.
 Nem sempre estão muito alvas, pelos
nossos critérios ocidentais.
 Olhando para eles, não podemos
deixar de recordar imagens da velha Índia colonial, de que os
cafés ICH são, como vimos, uma remniscência indirecta.

 
The Indian Coffee House, Trivandrum. O criado leva sete pratos.


The Indian Coffee House, Trivandrum.



The Indian Coffee House, Alleppey



A esta meia de leite clara chamam os indianos filter coffee.


Na parede, uma foto de Nehru a beber café. A ortografia do menu é
bastante curiosa.



The Indian Coffee House, Bangalore

Fotos: flickr


©
 Texto de José Barreto

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Thursday, January 8, 2009

li - Saul Leiter


Café Les Deux Magots
by Saul Leiter, Paris, 1959

Les Deux Magots é um célebre café parisiense, a dois
passos do Café de Flore. Foi fotografado há 50 anos
pelo americano Saul Leiter, mestre do abstraccionismo
expressionista (chamam-lhe assim) e das imagens
urbanas de cores saturadas. O assunto principal de
Leiter foi sempre Nova Iorque, mas também andou
pelo mundo. 

 
Para saber mais sobre este fotógrafo que tem hoje 86
anos, ver no sítio do
 costume.


Saul Leiter, Café Les Deux Magots, 1959.


Saul Leiter, Café Les Deux Magots, 1959. As fotos foram tiradas
através da vidraça, vendo-se em ambas o reflexo do fotógrafo.

Saul Leiter é este senhor aqui abaixo. Sem peneiras, 
um grande fotógrafo que não se leva a sério. Para 
ganhar dinheiro, fez fotografia de moda para a Elle
a Vogue e outras revistas. 



Saul Leiter (2008) por Pierre Belhassen. Allez-y voir! Have a look!

A propósito de cafés, outra imagem deste fotógrafo
francês, Pierre Belhassen.


Pierre Belhassen - La lectrice, St Germain, 2007
source: flickr

Mais fotos célebres de Saul Leiter, em Nova Iorque.


Saul Leiter, Reflection, 1955. Parece uma colagem, mas não é..


Saul Leiter, Taxi, NY 1957


Saul Leiter, Snow, 1960. 


Saul Leiter, Haircut, 1956.

Curiosa fusão das cores com o preto e branco numa
única foto:


Saul Leiter, Newspaper Kiosk, 1955

E duas fotos mais antigas, a preto e branco, quando
Saul Leiter ainda não tinha começado a explorar a
fundo a cor. 


Saul Leiter, New York, 1948.


Saul Leiter, New York, 1950.

Outro belo retrato de Saul Leiter, por Sebastian Piras.


Sebastian Piras - Saul Leiter

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Wednesday, January 7, 2009

l - Paris again


Paris again

Para juntar ao meu dossier café parisienses a preto
e branco
, aqui vão mais algumas imagens. A abrir,
uma foto de Sieff, de 1975.


Jean-Loup Sieff, Café de Flore, 1975.

A próxima é de Kertész, tirada no Café du Dôme
por uma manhã fria de Inverno, em 1928.


André Kertész, Matin d’hiver, 1928

Tentando ver a foto um pouco melhor


Photo: Ministère de la Culture.

Em noites de Verão o Le Dôme estava bem mais animado,
como se pode ver por esta foto de Brassaï dos anos 30.

Outra vista da esplanada do Dôme, na mesma 
época da anterior.


Café Le Dôme, 1936. Foto: National Geographic.
  
  
E para terminar onde comecei, veja-se este fim de noite
no Café de Flore, anos 50.


Dennis Stock, Café de Flore,1958.

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Tuesday, December 30, 2008

xlix - Kiki, encore


Kiki, encore


Para juntar ao meu dossier Kiki mais esta foto,
que tem todo o ar de ser, e é mesmo, de Man Ray.
Para quem poderia ela olhar com olhos tão brilhantes,
senão ele?
  

Tenho mais umas fotos de Kiki por Man Ray, mas não as
posso pôr aqui, que este blog é visto por muitas famílias.

Posted by J.B. at 18:39:01 | Permalink | No Comments »

Sunday, December 28, 2008

xlviii - Café Tortoni


O café de Gardel e Borges

O Café Tortoni, na Avenida de Mayo de Buenos Aires, foi
fundado em 1858 por um francês que lhe deu o nome de
um café parisiense do Boulevard des Italiens. É um dos
cafés mais bonitos do mundo e sempre foi um lugar de
encontro de artistas, jornalistas, escritores, boémios. Tem
biblioteca, sala de exposições, sala de bilhares e, na cave,
uma sala de espectáculos de tango. A Academia Nacional
del Tango fica, adequadamente, por cima do Café Tortoni.
O café de Carlos Gardel e Jorge Luis Borges fez este ano
150 anos.
 


E tem sala de fumadores

Fotos: flickr

Posted by J.B. at 23:42:39 | Permalink | Comments (1) »

Monday, December 22, 2008

xlvii - Para o café!

Peter Altenberg 
  (1859-1919) 

Para o café!

 

Quando estás preocupado ou tens algum problema −
para o café!

Quando ela falta ao encontro, por uma razão ou por outra
− para o café!

Quando os teus sapatos estão velhos e rotos − café!

Quando o teu rendimento é de quatrocentas coroas e
gastas quinhentas − café!

Na repartição fazes cera, embora ambicionasses honras
profissionais − café!

Não conseguiste encontrar o teu par ideal − café!

Tens vontade de cometer suicídio − café!


Detestas e desprezas os seres humanos, mas ao mesmo
tempo não consegues passar sem eles − café!


Compões um poema que não consegues impingir aos
amigos que passam na rua − café!


Quando o teu carvão se acabou e a ração de gás se
esgotou − café!


Quando ficas fechado na rua e não tens dinheiro para
mandar abrir a porta − café!


Quando arranjas uma nova paixão e desejas provocar a
antiga, levas a nova ao − café da antiga!


Quando te queres esconder, mergulhas num − café!


Quando queres ser visto num fato novo − café!


Quando já não consegues nada fiado em qualquer outro
sítio − café!

 


©
Tradução de J.B. a partir da versão inglesa.

 


Peter Altenberg no Café Central,
Viena, 1907.


Peter Altenberg em papier mâché no Café Central, Viena, 2007

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Saturday, December 20, 2008

xlvi - Alfred Polgar

Alfred Polgar

«Melhor seria nunca ter nascido. Mas quantos de nós têm
essa sorte? Um num milhão, talvez.»  (Alfred Polgar)



O navio Nea Hellas que até 1940 fez a carreira Lisboa-Nova Iorque.


Quando a 4 de Outubro de 1940 o vapor grego Nea Hellas
deixou Lisboa rumo a Nova Iorque, entre os passageiros
encontrava-se um grupo de amigos, velhos conhecidos de
Viena, Praga e Berlim: Heinrich e Golo Mann (irmão e filho
de Thomas Mann), Franz e Alma Werfel e Alfred Polgar.
Todos eles tinham conseguido escapar aos nazis de forma
muito arriscada, se não milagrosa, alcançando por fim a
América via Lisboa.

Alfred Polgar, escritor e crítico teatral austríaco - de que
revelei aqui, em primeira mão, o texto “Teoria do Café Central”
em português - já tinha escapado da Alemanha, em 1933, na
véspera de ser preso pelos nazis. Tinha fugido de Viena e da
Áustria na véspera da entrada das tropas de Hitler no seu país,
em 1938. Viveu até 1940 em Paris, de onde novamente teve de
fugir aos nazis, percorrendo a pé o caminho até Espanha e
Portugal.


Alfred Polgar (1873-1955)

Nascido em Viena numa família judaica, Alfred Polgar viveu
os anos de nazismo exilado na América, onde tentou
trabalhar como argumentista para os estúdios da MGM, sem
êxito. Depois da guerra regressou à Europa. Não suportando
voltar a viver na Áustria que tão bem havia recebido Hitler, 
assentou arraiais em Zurique, onde morreu em 1955.

É reconhecido como um dos mais originais prosadores
de língua alemã do século XX, famoso pela sua maestria da
língua, poder de observação, ironia e crítica acerada. Kafka
disse sobre ele: “As frases de Alfred Polgar são tão fluidas e
agradáveis que acolhemos os seus textos como uma espécie
de entretenimento social inofensivo, sem nos darmos conta
de como influem sobre nós e nos educam. Sob a luva fria da
forma esconde-se uma vontade essencial forte e intrépida.”
Entre os seus admiradores estavam também Robert Musil,
Kurt Tucholsky ou Walter Benjamin.

Um belo texto de Clive James sobre Alfred Polgar,
publicado no Slate, pode ler-se aqui. É adaptado do livro
Cultural Amnesia: Necessary Memories from History and
the Arts, 
do mesmo Clive James, sobre o qual podem
informar-se aqui.

Reproduzo abaixo novamente, com pequenas alterações, o
texto de Polgar sobre o microcosmos social do Café Central
de Viena, de que ele próprio fez parte durante dezenas de anos.
É uma das melhores prosas que já li sobre a vida de café e um 
retrato ironicamente cáustico da elite cultural da Viena de entre
as duas guerras. Claro, não tem um nome, é tudo dito em
abstracto, para não ofender ninguém.

“Teoria do Café Central” (1926),

de Alfred Polgar


Café Central, Viena, circa 1900


O Café Central é, realmente, um café diferente de todos os outros.
É mais uma visão do mundo, cuja verdadeira essência, todavia,
reside em absolutamente não observar o mundo. O que é que ali
se vê, então? Sobre isso, falarei mais adiante. O que está
experimentalmente assente é que não há ninguém no Café Central
que não seja parte dele, isto é, em cujo espectro do ego não
apareça a cor Central, que é uma mistura de cinza e verde ultra-
enjoado. Se foi o local que se adaptou ao indivíduo ou o indivíduo
ao local, é ponto controvertido. Admito que tenha havido uma
acção recíproca. “Tu não estás no lugar, é antes o lugar que está
em ti”, diz o Peregrino Angélico.(1)

Se todas as histórias relacionadas com este café fossem moídas,
colocadas numa cuba de destilação e gaseificadas, formar-se-ia um
gás pesado, iridescente, cheirando vagamente a amónia: é o
chamado ar do Café Central. Isso define o clima espiritual deste
espaço, um clima bem particular em que a inaptidão para a vida, e
só esta, floresce na plena manutenção da sua inaptidão. Aqui
desenvolve a impotência as potencialidades que lhe são intrínsecas,
aqui amadurecem os frutos da infecundidade e cobra renda toda a
impropriedade. Tudo isto só está ao alcance de um verdadeiro
Centralista, alguém que, se o seu café está fechado, tem o
sentimento de ter sido lançado às duras penas da vida, abandonado
às mais imprevisíveis consequências, anomalias e crueldades do
desconhecido.

O Café Central situa-se à latitude vienense do meridiano da solidão.
Os seus habitantes são, na maioria, pessoas cuja repulsa pelos seres
humanos seus semelhantes é tão viva quanto a necessidade de estar
com gente que queira estar só, mas que precise de companhia para
isso. O seu mundo interior requer uma camada de mundo exterior
como material isolante; as suas frouxas vozes solistas não
prescindem do suporte do coro. São naturezas inseguras, que ficam
um tanto perdidas sem as certezas que tiram do sentimento de
constituírem uma pequena parte de um todo, para cujo tom e cor
contribuem.

O Centralista é uma pessoa a quem a família, a profissão e o partido
político não dão este sentimento de pertença. O café apresenta-se,
solicitamente, como uma totalidade sucedânea, convidando à
imersão e à dissolução. É assim compreensível que, sobretudo as
mulheres, que nunca conseguem estar sós e precisam de, pelo
menos, uma pessoa por perto, tenham um fraco pelo Café Central.
É o lugar para gente que sabe abandonar e ser abandonada para
bem do seu destino, mas a quem falta ousadia para cumprir esse
destino. É um verdadeiro asilo para quem tem que matar o tempo
antes que o tempo o mate. É o doce lar daqueles que abominam o
doce lar, o refúgio seguro de casais e amantes diante da ameaça de
uma vida conjunta sem problemas, o posto de primeiros socorros
das mentes confusas que, toda a vida em busca de si próprias e toda
a vida em fuga de si próprias, escondem o seu ego fugitivo atrás de
um jornal, conversas enfadonhas ou jogos de cartas, e empurram o
ego perseguidor para o papel de maçador que tem que calar a boca.

O Café Central representa, pois, algo como uma organização de
desorganizados.

Neste espaço venerado, cada indivíduo semi-indeterminado é
creditado com uma personalidade plena. Enquanto se mantenha
dentro dos limites do café, pode cobrir todas as suas despesas
morais com este crédito. Àquele que mostre desdém pelo dinheiro
dos outros está reservada a coroa anti-burguesa.

O Centralista vive parasitariamente da história que circula a seu
respeito. Aí está o principal, o essencial. O resto, os factos da sua
existência, tudo isso são notas de rodapé, adendas e
embelezamentos que podem ser dispensados.

Os fregueses do Café Central conhecem-se, amam-se e detestam-se
mutuamente. Até aqueles que não estão vinculados a nenhuma
associação consideram esta não associação como uma associação.
A própria aversão mútua tem força associativa no Café Central; ela
cumpre e põe em prática uma espécie de solidariedade maçónica.
Toda a gente sabe da vida de toda a gente. O Café é um ninho de
província no ventre da metrópole, a fervilhar de boatos, inveja e
maledicência. Penso que os peixes no aquário devem viver como os
habitués deste café, sempre em círculos apertados à volta uns dos
outros, sempre atarefados sem propósito, usando a refracção
inclinada da luz ambiente como um divertimento diferente, sempre
expectantes, mas também cheios de ansiedade, não vá alguma vez
algo novo, brincando ao “mar” com ar sério, cair dentro da tina
de vidro, no fundo minúsculo do seu mar artificial. Se amanhã,
Deus não permita, o aquário fosse transformado num banco, eles
sentir-se-iam completamente perdidos.

Naturalmente, o peixe-Central, habituado a partilhar com outros
aquele exíguo espaço respirável durante tantas horas da sua vida,
perdeu toda a timidez e cerimónia. O Centralista que se preza
conduz a vida privada dos outros e não joga às escondidas com a
sua própria. Isto, reforçado pela acostumada tendência do local
para a auto-ironia e a serena confissão das fraquezas próprias, cria
uma esfera de sociabilidade suspensa na qual toda a reserva púdica
se esbate e extingue. Há fregueses do Central que andam por ali
psiquicamente nus, sem receio que a sua nudez pueril e inocente
seja interpretada como falta de vergonha. Aqui há uns anos, o
proprietário do Café Central tentou acomodar o espaço a esta
propensão paradisíaca dos seus clientes regulares colocando lá
uma palmeira. Mas aquela donzela do Oriente não suportou o clima
do local, apesar da dominante oriental do dito. Foi cortada em
pedacinhos e os seus restos mortais encontraram utilização na
cozinha − ou como combustível ou como grãos de café, os
investigadores não chegaram a um consenso nesta matéria.

Só está habilitado a desfrutar do charme essencial desse esplêndido
café aquele que nada mais quer dali do que estar lá. A ausência de
propósito santifica a estadia. No fundo, talvez o habitué não goste
do local nem da gente que ruidosamente o povoa, mas o seu
sistema nervoso exige imperiosamente uma dose diária de
Centralina. Dificilmente se pode explicar isto apenas pelo hábito.
Nem pelo facto de a gente do Central se sentir sempre atraída,
como o assassino pelo local do crime, por um lugar onde tanto
tempo mataram, onde já dizimaram anos inteiros. Então qual é a
explicação? A atmosfera! Só posso dizer isto: a atmosfera! Há
escritores, por exemplo, que são incapazes de cumprir as suas
tarefas literárias noutro lugar que não o Café Central. Só ali,
naquelas mesas da indolência, está a mesa de trabalho posta para
eles, só ali, envolvidos naquela atmosfera ociosa, é que a sua
inércia se torna fecundidade. Certos tipos criativos só no Central
conseguem não ter ideia nenhuma − noutro lugar, na verdade,
ainda menos. Há poetas e outros industriais aos quais só no Café
Central surgem ideias rendosas; pessoas com prisão de ventre a
quem só ali se abre a porta do alívio; gente que há muito perdeu
o apetite pelo erótico e que só ali sente fome; calados que só no
Central reencontram a sua língua ou a de outra pessoa; e
gananciosos cuja glândula monetária só ali secreta.

Esse enigmático café tem o poder de serenar na inquieta gente que
o visita aquilo a que chamo o seu desassossego cósmico. Neste
lugar de relações descontraídas, a relação com Deus e com as
estrelas também se descontrai. O indivíduo escapa às suas relações
obrigatórias com o universo entrando num relacionamento casual,
irresponsável e sensual com coisa nenhuma. As intimidações da
eternidade não atravessam as paredes do Café Central, ao abrigo
das quais se pode gozar a doce despreocupação do momento.

Sobre a vida amorosa do Café Central, sobre o equilíbrio das
distinções sociais que nele vigoram, sobre as correntes políticas e
literárias que banham as suas margens escalavradas, sobre os
enterrados vivos no mausoléu-Central que há muito aguardam a
sua exumação embora esperando que tal nunca venha a acontecer,
sobre a comédia de máscaras plena de espírito e desvario que,
naquelas salas, faz de todas as noites um Carnaval - sobre estas e
outras coisas muito haveria ainda que dizer. Mas quem se interessa
pelo Café Central já sabe tudo isso e quem não se interessa pelo
Café Central não nos interessa a nós.

É apenas um café, mas que café! Nunca encontrarão outro lugar
assim. Aplica-se a ele o que Knut Hamsun diz da cidade de
Christiania na primeira frase do seu imortal Fome: “Quem lá passa
fica marcado por ela”.


Nota:

(1) Uma referência ao escritor místico seiscentista alemão Johann
Schefler (1624-77), mais conhecido sob o pseudónimo de Angelus
Silesius (Anjo da Silésia). A sua obra maior foi Das Cherubinische
Wandersmann
(O Peregrino Angélico), basicamente uma colecção
de apotegmas morais. [Nota de Harold Segel, vd. abaixo.] 


Título original: “Theorie des Café Central”, 1926.
Vd. Alfred
Polgar, Kleine Schriften, vol. 4 (Reinbeck bei Hamburg, 2004,
págs. 254-59).
Versão inglesa incluída na antologia de Harold
Segel, The Vienna Coffeehouse Wits, 1890-1938 (Purdue, 1993).
 


©
Tradução de José Barreto a partir do inglês.

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Monday, December 15, 2008

xlv - O que se faz nos cafés


O que se fazia
e faz nos cafés


Atanur Dogan - Fumadores de narguilé em café turco.


Num café, além de se beber o dito, sempre se fizeram
inúmeras outras coisas. Não é obrigatório o consumo de
café e suas variantes: há as bebidas alcoólicas, o chá, 
os refrescos. Nos cafés europeus, além disso, também
sempre se comeu. Mas o consumo é só parte da história.
Ao café vai-se principalmente, sempre se foi, para ver,
estar ou falar com alguém. E para saber notícias,ouvir
histórias, passar fofocas. Discutir política, literatura,
arte, futebol. Conspirar para deitar governos abaixo.
Espiar o que se diz na mesa ao lado. Fumar cigarros,
cachimbo ou narguilé. Ler jornais, livros e revistas.
Escrever. Desenhar. Estudar. Navegar na net. Fazer
negócios ou arranjar trabalho. Procurar companhia,
namorar e ver quem namora. Jogar damas, xadrez, bilhar,
dominó, cartas e gamão. Estender um pouco as pernas.
Fugir ao calor, à chuva ou ao frio. Dormir. Uff!


Leitura solitária no Café Florian de Veneza.


Leitura acompanhada. Arnold Hoffmann, Café, ca. 1935.

O LLoyd’s of London - o maior mercado mundial de
seguros - e a Bolsa de Londres nasceram ambos de
cafés. No primeiro caso, o Lloyd’s Coffee House,
fundado nos anos 80 do século XVII. No segundo caso, o
Jonathan’s Coffee House, da mesma época. Até há
pouco tempo, os corretores da bolsa londrina ainda eram
chamados criados (waiters), devido ao facto de a
actividade bolsista ter começado como um café. A Bolsa
de Nova Iorque também nasceu num café, o Tontine
Coffee House, numa esquina de Wall Street. Em baixo,
um desses cafés londrinos onde se falava de negócios
e política.


Politics and business. A London coffee house, ca. 1740.

Viena em revolução, com revolucionários de cartola.


“Em nome do governo constitucional…”
A revolução, iluminada a gás, num café de Viena, a 3 de Março de 1848.

Viena do final do séc. XIX. Os jornais eram fornecidos
pela casa.


Café Griensteidl, em Viena, 1896. Há quem durma. Pintura de R. Völkel.


112 anos depois, num café da mesma Viena,
ainda e sempre o jornal da casa.  


Leitura do Neue Zürcher Zeitung no Café Bräunerhof, em Viena.

O xadrez era desporto de café em Paris.  


Jogo de xadrez no Café de la Régence, Paris, 1874.


Os bilhares também. E as cartas.


Jean Béraud, Le billard, 1900-1910 

Saltando um século, vamos encontrar, hoje em dia, esta
profusão de laptops numa sala do Think Coffee, café
nova-iorquino em Mercer St., perto da Broadway e do
campus universitário. Na primeira imagem as pessoas
aparecem iluminadas pelos monitores, o que faz um
efeito curioso…


Think Coffee, Mercer Street, West Village, NY.

A malta universitária alapa numa mesa com uma bebida
durante uma tarde inteira. O Think Coffee tem WiFi, de
modo que os penduras ficam por ali todo o dia, cada um
com o seu brinquedo. A convivialidade a que o local 
apela não se concretiza, excepto para contactos entre
computadores…
Em baixo conto sete laptops.


Think Coffee Coffeehouse, N.Y.


Novamente Paris, séc. XXI.


Navegando na net numa esplanada parisiense.

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Saturday, December 13, 2008

xliv - Bettie Page


Bettie Page

Morreu ontem com 85 anos. Nos anos 50 foi
a rainha das pin ups.

O maluco do Edoardo Baraldi, grande manipulador de
imagens, gosta de pôr a Bettie muito pouco vestida a
posar em cafés históricos de Viena. Vale uma visita ao
site dele, onde tem expostas muitas das suas montagens. 
Agora está a pôr tudo no flickr.


Montagem de Edoardo Baraldi. Este é o Café Museum, desenhado
por Adolf Loos.


Montagem de Edoardo Baraldi. Bettie no Café Capua (inaugurado
em 1913), que já não existe. A arquitectura e a decoração eram de
Adolf Loos, que desenhou as cadeiras também. Não são só os
portugueses a destruir cafés… 
 


Uma imagem de marca de Bettie era a jungle woman.
Foi uma invenção da grande fotógrafa de mulheres
Bunny Yeager, ela própria modelo de fotos de charme.


Bettie mulher da selva, por Bunny Yeager


E como estamos na época, aqui vai este cartão de boas
festas com a Mãe Natal, tirada da revista Playboy de
Janeiro de 1955.

Um santo Natal! 

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Monday, December 1, 2008

xliii - Homenagem ao Leopold


Homenagem ao Leopold Café


Café Leopold, de Bombaim, em melhores dias


Café Leopold - bebida colorida


Café Leopold - Kebab de borrego enrolada em pão indiano.
Foto de Mark Wilson.


Café Leopold - Nan de queijo e alho e, à direita, tikka de frango.
Foto de Purple Lara.


Café Leopold - Dois B-52 flamejantes.


Café Leopold - Cliente solitária.
Foto de Debanjan Das Gupta, Outubro de 2008.


Café Leopold com fachada diferente da actual.
Foto de Dave Harvey.

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