Sunday, September 14, 2008

xxxiii - Gente famosa


Gente famosa em cafés 

Verlaine passou os seus últimos anos a vegetar por cafés, bêbado
de absinto.


Dornac - Paul Verlaine com chapéu no Café François Ier, ca. 1890


Dornac - Verlaine sem chapéu no mesmo café. Foto Musée Carnavalet. Repare-se no
tinteiro em cima da mesa.

Edith Piaff com amigos num café parisiense.


Robert Doisneau, Edith Piaff num café cerca de 1955.

Simenon apaixonou-se por Josephine Baker e até largava a sua
mulher para sair com ela.


Georges Simenon e Josephine Baker no Café La Coupole, anos 20-30.


Isto não é uma cena de filme, mas parece. Os personagens são eles
próprios e a cena é real, para já não falar das fardas.


Hemingway e a jornalista americana Janet Flanner, fardados, no Café Les
Deux Magots, Paris libertada, 1944. Flanner era correspondente parisiense
de The New Yorker. Aqui devia estar a mostrar um texto seu ao escritor.

Picasso, novo ou velho, adorava cafés.


Duas fotos de Brian Brake com Picasso e sua gente, 1955.


Fellini pensativo num café da Via Veneto em Roma, anos 50-60 



John Minihan - Uma rara foto de Samuel Beckett, em Paris, em 1969.

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xxxii - O absinto e os cafés


O absinto e os cafés da Belle Époque

O absinto, a “fada verde”, tornou-se a bebida preferida de artistas e
boémios nos cafés de Paris e de outras metrópoles europeias nas
décadas finais do século XIX e princípio do século XX, até à sua
proibição em 1915.

Inúmeras pinturas e desenhos ilustram essa moda ou mania adictiva,
de que os defensores dos bons costumes, incluindo Emile Zola em
L’Assommoir, se encarregaram de propagandear os efeitos
destrutivos sobre a família e a sociedade. Já aqui expus a talvez mais
célebre pintura, “L’Absinthe”, de Degas, datada de 1876. Degas e
muitos outros artistas, como Toulouse-Lautrec, Van Gogh e Picasso,
também foram bebedores de absinto.

As várias “Bebedoras de absinto” de Picasso são famosas. Aqui vão 
quatro (há mais), todas de 1901. 

Um criativo qualquer fundiu esta última com a bebedora de
absinto de Degas na curiosa imagem heteróclita abaixo.


Degas-Picasso e Palamède - Les buveuses d’absinthe

Há muitas obras menos conhecidas, de que reproduzo aqui algumas.


Jean-Louis Forain - Au café, ca. 1872


Toulouse-Lautrec - Monsieur Boileau au café, 1893


Jean Béraud - La lettre, 1908

Os quadros de Béraud são muito ilustrativos do ambiente de café.
Repare-se no detalhe realista dos objectos em cima das mesas: o
tinteiro (fornecido, com papel, a quem quisesse escrever nos cafés),
as fosforeiras, a garrafa de água companheira do absinto, as colheres
para mexer, o sifão.


Jean Béraud - Les buveurs

Mais um café, mais um Béraud: homem, mulher, absinto e cigarros.


Jean Béraud - Au café, 1896


William Orpen - The Café Royal, London 1912


Gris - Homme au café, 1912. Este encartolado parece Afonso Costa e a bebida
dele uma espécie cubista de absinto.


Viktor Oliva - O bebedor de absinto. O mais famoso café de Praga, o Café Slavia, 
tem esta pintura na parede.

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Tuesday, July 22, 2008

xxxi - Cafés parisienses


Cafés parisiens en noir & blanc
Imagens da primeira metade do século XX


Uma imagem de fotógrafo amador, mas famoso. O retratado
também é célebre. A modelo sentada ao lado, sua namoradita
de então, nem tanto. 


Jean Cocteau - Picasso e Paquerette no Café de la Rotonde, 12 de Agosto de 1916

A foto de Cocteau é capa de um livro de Billy Klüver, A Day
with Picasso: Twenty-four Photographs by Jean Cocteau
,
MIT Press, 1997. Klüver reuniu vinte e quatro fotografias que
andavam dispersas, descobriu o seu autor, o nexo entre elas,
o local que lhes serviu de cenário e, num verdadeiro tour de
force, determinou o dia e as horas em que foram tiradas.
Identificou todos os personagens retratados e estudou as
relações entre eles, produzindo um livro de 109 páginas e
70 ilustrações que é um mimo. 

Klüver é também co-autor de Kiki’s Paris: Artists and Lovers
1900-1930
, um espantoso álbum sobre o meio artístico
parisiense, com capa e título de homenagem a Kiki, rainha
dos cafés e da noite de Montparnasse, de quem já aqui falei. 

 

Um dos maiores fotógrafos da noite parisiense foi um
húngaro chamado Gyula Juhász, conhecido por Brassaï,
por ser natural da cidade de Brassó, então húngara, hoje
romena (Brasov). A foto seguinte, que é capa de um livro
recente, tem o pormenor das imagens espelhadas do par
de namorados.


Brassaï - Couple d’amoureux dans un petit café, quartier Italie, ca. 1932

O livro recente sobre o autor, edição Taschen

E esta curiosidade


Brassaï - mesmo café, mesmos amantes, lugares trocados.
As imagens no espelho desapareceram.

Outra foto de um par de namorados, também com imagens
espelhadas


Brassaï - Couple au bal musette des Quatre-Saisons, 1932


Robert Doisneau também fotografou cafés e os personagens
deles.


Robert Doisneau - Café de Flore, 1947


Robert Doisneau - Simone de Beauvoir aux Deux Magots, 1944


La mème, par le même, au même endroit. Simone escrevia, talvez,
Le sang des autres (1945).

Outro húngaro, este de Budapest, também andou por Paris
nos anos 20 e 30. Chamava-se Andor, mas depois
afrancesou para André. O apelido era Kertész. A foto
parisiense abaixo, com a mulher Elizabeth, é de 1931.


André Kertész - Autoportrait avec Elizabeth dans un café de Montparnasse, 1931


Uma mesa de café em Paris e um poema em húngaro: assim
poderia ter começado um poema de Endre Ady (1877-1919).


Kertész - Mesa de café em Paris com um poema de Ady - 1928

Serge Jacques, fotógrafo de mulheres nuas para revistas de
adultos que os rapazes viam à socapa (Paris-Hollywood,
etc). Foi dos primeiros a publicar nessas revistas francesas
fotos de mulheres com pelos púbicos à vista. Fotografou a
BB nua nos anos 50. Esta foto aqui, bastante fora do baralho,
é já dos anos 70.


Serge Jacques - Femme au Café de Flore

Edouard Boubat (1923-1999) - um grande fotógrafo francês,
reconhecível pelas suas imagens ternas e intimistas - fez
belas fotos de Portugal, especialmente Nazaré, nos anos 50.
Esta esplanada parisiense era muito bem frequentada, gente
de monóculo e canídeos com pedigree. O cão não lê o jornal
porque o dono lhe explica as notícias.



Edouard Boubat - A la terrasse des Deux Magots, 1953.

Boris Vian disse que “se não houvesse cafés, não teria
havido Jean-Paul Sartre”.
Em baixo, mais três fotos de
Brassaï, no Café de Flore. Dois retratos de Sartre e um
de Beauvoir em ‘grande pose’ de escritores na Paris
recém-libertada (em francês, Paris é masculino, em
português é feminina, vá-se lá saber porquê). Duas
grandes figuras da intelectualidade da época, a cairem
hoje no esquecimento - talvez mais Jean-Paul, apesar
de nobelizado, do que Simone.
O mais lembrado dos
três, actualmente, deve ser o fotógrafo. A cultura do
visual a avançar. Sic transit gloria…


Brassaï - Jean Paul Sartre au Café de Flore, 1944. Sartre escrevia, então, as
Réflexions sur la question juive ou a trilogia romanesca Les Chemins de la liberté.


Idem, idem, aspas, aspas.


Brassaï - Simone de Beauvoir au Café de Flore, 1944

No fim da vida de Sartre, o famoso par intello apoiou as
causas mais díspares, algumas delas um bocado idiotas,
como o movimento maoista francês, os terroristas do bando
anarca Baader-Meinhof e o ayatollah Khomeiny. Antes de
morrer,  em 1980, Sartre ainda pareceu renegar o ateísmo,
numa célebre entrevista ao seu secretário Benny Lévy em
que manifestou interesse pelo judaísmo messiânico. O
velho escritor já estava meio demente, como alguns amigos
próximos testemunharam, e deixou-se enrolar na conversa
do Lévy.

Post Scriptum

Em 2008, o que mais tem feito falar sobre a intelectual
Simone de Beauvoir são as suas nádegas. A cultura do
visual sempre a avançar…

Em 3 de Janeiro deste ano, a revista Nouvel Observateur
publicou na capa uma fotografia de Simone nua, de costas, 
tirada em 1952, em Chicago. O seu autor foi um jovem
fotógrafo da revista Life, rapaz atrevido que tinha
acompanhado Simone, a pedido do amante americano
dela, a uma casa para tomar banho. A porta do quarto de
banho não fechava. O rapaz, oportunista, aproveitou. Agora
Art Shay, o fotógrafo, conta que ela ouviu o clic da Leica e
só lhe terá dito: “You are a nasty boy!” Acredite quem quiser.

Eis a foto que fez escândalo entre feministas e outras beatas,
mas sem os retoques feitos para a capa do Nouvel
Observateur
.


Photo Art Shay/Courtesy Stephen Daiter Gallery

Vejam só a diferença que os retoques fazem.

© Texto de José Barreto

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Sunday, July 6, 2008

xxx - Brasileira


A Brasileira do Chiado

Há muito que era devido falar aqui um pouco mais da Brasileira, um
dos últimos cafés de Lisboa a parecer-se ainda, vagamente, com o
que era há 80 anos.
Até meados do século passado, havia duas
Brasileiras em Lisboa: a do Rossio e a do Chiado. Daí o chamar-se
por vezes a este café a “Brasileira do Chiado”.

Claro que também se mantém o nome pela circunstância de haver
várias outras Brasileiras pelo país, a mais bonita das quais se
encontra na Rua de Sá de Bandeira, no Porto. A mais recente
Brasileira apareceu, há pouco, na praceta central de Alvarenga,
uma freguesia rural do concelho de Arouca, nos confins do distrito de
Aveiro com o de Viseu. Tem uma explicação: Alvarenga é a terra de
origem do fundador e dos vários proprietários da Brasileira do Chiado
até à actualidade.

A Brasileira é o meu café preferido na capital. Ainda hoje, depois de
uma ronda pelos alfarrabistas, gosto de me sentar lá das 19h30 até
às 20h30. É a hora mágica, em que há pouca clientela, pouco barulho
e a luz do dia se vai imperceptivelmente transformando em luz
eléctrica, convocando, naquele estado semipenumbroso, os fantasmas
da ilustre clientela de outrora.


Foto de Pedro Vilela - flickr

Hoje, em qualquer época do ano, metade ou mais dos clientes do café 
são turistas. Chamo-lhes a legião estrangeira, porque vestem
fardamenta do deserto, andam armados até aos dentes de mapas e
guias de Lisboa e disparam furiosamente máquinas fotográficas em
todas as direcções.

O serviço da casa é mau, mas, como sou conhecido na casa, nem
preciso de pedir a cerveja à temperatura ambiente que sempre
ali bebo. Trazem-ma em menos de dez minutos! Só têm uma marca, e
logo a pior de todas. Mas, em compensação, o lugar é
smoker friendly.
Tudo ou quase tudo se pode ali  fumar, do cachimbo ao charuto,
passando pelos detestáveis cigarros que o mau gosto da maioria lhes 
faz fumar, coitados. 


Foto de Pedro Vilela - flickr

O café propriamente dito, a infusão que lá se bebe, já foi boa, mas
hoje não é. O eterno slogan “O melhor café é o da Brasileira” passou,
na realidade, a “foi”.

As mesas do café são incómodas para as pernas, que mal se ajeitam,
debaixo dos pequenos tampos hexagonais de mármore, entre uns
pés de ferro forjado absolutamente disfuncionais. As paredes são
forradas a espelhos enquadrados em madeira, com falsas colunas
dóricas de mármore negro a separá-los. A iluminação sobre as mesas
é boa, permitindo ler e escrever. O chão da Brasileira é maçónico, um
mosaico em xadrez de mármore preto e branco, mas a coisa parece
que se não pega aos clientes católicos.

Os tectos são pintados a cores de bordel de luxo e os candelabros
dele dependurados são a condizer.


Foto: Diário de Portugal

Ao fundo, sobre a parede, rodeado de uma pintura a óleo de Noronha
da Costa feita directamente sobre o reboco, está um velho relógio de
estação de caminhos de ferro, que geralmente não funciona.


Foto de Pedro Vilela - flickr

Pinturas de vários pintores dos anos 60 a 80 - Nery, Nikias, Rodrigo,
Hogan - decoram o alto das paredes, mostrando sinais de sujidade
e deterioração. O ambiente geral não é cuidado e o barulho dos pires,
chávenas, máquinas e moinhos de café é francamente desagradável.

Obras feitas nos anos 80 colocaram a escadaria para a cave logo à
entrada do café, o que faz com que os miasmas procedentes dos
sanitários seja muitas vezes a primeira sensação que se tem quando
ali se chega. Na cave há um pseudo-restaurante sem luz nem ar,
onde quase ninguém come. Por causa daquilo puseram as escadas à
entrada do café, suprimindo as mesas que lá estavam.

A velha Brazileira dos inícios era com z. De fora, não tinha ar de café.
Ao lado, já lá estava a retrozaria David & David, com a fachada que
ainda hoje se conserva.


A Brasileira por volta de 1911, foto de Joshua Benoliel. Em 1925 aquilo
levou uma volta e ficou como hoje está.

Em 1928, data da foto abaixo, havia verdadeiras tertúlias literárias
e artísticas na Brasileira do Chiado. Por acaso, Fernando Pessoa
não ficou nesta imagem, mas podia ter ficado - a não ser que seja
aquele no canto superior esquerdo, de pé, com chapéu e óculos, a
mão a tapar a boca e o nariz. O seu amigo Augusto Ferreira Gomes
está lá, sentado à direita, de chapéu na mão. Rodriguez Castañé,
autor de vários retratos de Pessoa, também lá está. Quatro dos
tertulianos estão de chapéu na cabeça, curioso costume dos cafés
de antigamente, mesmo em Paris. Hoje isso seria cómico…


1 - Teixeira de Pascoaes  2 - Gustavo de Matos Sequeira  3 - Pintor António Soares
4 - Joshua Benoliel  5 - Pintor Adolfo Rodríguez Castañé  6 - Augusto Ferreira Gomes
7 - Pintor Jorge Barradas  8 - Criado de mesa João Franco

Não podia faltar aqui o célebre quadro de Almada representando
uma cena da Brasileira, embora o café esteja praticamente
irreconhecível.
O artista está à esquerda com um desenho na
mão, para não enganar. A cabeça dele tem cerca do dobro do
volume cefálico dos seus acompanhantes, talvez por estar em
primeiro plano, talvez não. Já algures o disse aqui: Sarah Afonso,
sua futura mulher, conheceu-o neste café. Azar dela. O homem
devia ser um chato do caraças, com um ego insuportável.
 


Almada Negreiros - Auto-retrato num grupo, 1925.

CAM, Fundação Gulbenkian



No chão, o Z passou a S, mas fora da linha…

© Texto de José Barreto

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Monday, May 19, 2008

xxix - Café Hawelka


Café Hawelka



The Café Hawelka in the 1st District of Vienna represents one of the
last great Central European traditions, that of coffeehouses of writers
and artists, or cafés littéraires, as exemplified in Vienna by the Café
Central before the First World War and the Café Herrenhof before the
Second. It is still run by Leopold Hawelka, his son Günter, and his
grandsons Amir and Michael Hawelka.


Leopold Hawelka

Leopold Hawelka began his long career as Cafétier with the Café Alt
Wien in the Bäckerstrasse in 1936 but in May 1939 he and his wife
decided to take over the defunct Café Ludwig in the Dorotheergasse.
These premises had originally opened in 1906 as the “Chatam” Bar,
the first bar in the modern sense in Vienna, with a live band and a
chambre separée, now the store room. The interior decoration, by a
pupil of the renowned architect Adolf Loos, was intact when the
Hawelkas took over and has remained untouched ever since. The
panelled ceiling to the rear of the coffeehouse was only
rediscovered and opened up by Herr Hawelka in the 1960s.

The outbreak of war in September 1939 forced the new Café Hawelka
to close. When the Hawelkas returned to Vienna in 1945 they found
that, miraculously, in spite of the extensive damage suffered by the
most of the surrounding buildings, their coffeehouse had survived the
war without a single broken pane of glass. The house was also one of
the first to have been reconnected to the mains. Post-war has been
vividly depicted in Carol Reed’s famous film “The Third Man” (1949),
based on a Graham Greene novel. Indeed the Casanova bar, featured
in the film, is next door to the Hawelka. In spite of the shortages,
wrecked infrastructure and the perils of the black market, the
Hawelkas were able to acquire the necessary supplies and reopen
the coffeehouse in the autumn of 1945. Coffee was prepared on a
wood-burning stove and when the winter came Herr Hawelka
himself had to take a pushcart to the Vienna Woods to gather
firewood while Frau Hawelka looked after the guests. The coffeehouse
soon became a convenient central meeting place for the inhabitants of
an occupied and divided city and for those returning from the War or
from emigration, providing an ideal environment to escape from the
hardships of the times. The warm and peaceful atmosphere of the
coffeehouse proved particularly attractive to writers and intellectuals
for many of whom it soon became a second home.


Franz Hubmann - Café Hawelka 1956-57

By the time the Allies left Vienna in 1955, the Café Hawelka was
frequented by such writers as Friedrich Torberg, Heimito von
Doderer, Hilde Spiel and Hans Weigl. With the closure of the Café
Herrenhof in 1961, most of the remaining members of its influential
writers circle moved to the Hawelka and the little coffeehouse
reigned supreme as the literary café.

The late Fifties and early Sixties was a time not only of great literary
and artistic activity in Austria, but also of great economic growth. The
new Italian-style espresso bars that were opening up all over Vienna
at that time seemed to suit the faster pace of life far better then the
traditional coffeehouse and indeed many great coffeehouses were
closing down to make way for banks or car showrooms. Herr
Hawelka’s one concession to modernity was to install an espresso
machine, which irritated some guests with its noise, but the
coffeehouse survived as a timeless haven through the loyalty of its
regulars.

Artists too had been discovering the Hawelka and by the mid-Sixties
even some of the younger, wilder generation such as Friedensreich
Hundertwasser, Ernst Fuchs, Arik Brauer, Rudolf Hausner, Hubert
Aratym and Wolfgang Hutter could be found whiling away the time
into the early hours. The atmosphere of the quiet, smoky,
male-dominated reading-room became charged with the youthful
vigour of the decade, often to the consternation of the old
literati! One wall became covered with posters advertising the
latest exhibitions, concerts and lectures, an innovation of Herr
Hawelka now established in most cafés in Austria. On the other walls
grew Herr Hawelka’s collection of pictures by his more talented
costumers, always purchased at the market price!  

During the Sixties and Seventies the Café Hawelka represented all
that was fresh and energetic in the Viennese artistic scene. As well as
most of the members Fantastic Realists the regulars included the
poets, H.C. Artmann, Friedrich Achleitner and Gerhard Rühm, the
actor Oskar Werner and the cabaretist Helmut Qualtinger, the
conductor Nikolaus Harnoncourt, the singer Georg Danzer, André
Heller and the photographer Franz Hubmann , who has immortalised
the coffeehouse over the decades through his pictures. Famous names
from abroad never failed to visit the Café Hawelka when in Vienna:
Elias Canetti, Henry Miller, Arthur Miller and Andy Warhol to name
only a few. Politicians and journalists would flock to the coffeehouse to
discover the latest trends. The crowds came to see and be seen and
the Café Hawelka became an Institution with Herr and Frau Hawelka
becoming as famous as their guests.

The renown of the Café Hawelka spread into the guide books and as
the enfants terribles of the Sixties joined the Establishment and took
up their professorial seats, so their places in the coffeehouses were
taken by tourists and those hoping to bask in the limelight of the
remaining celebrities.

While the Glory Years may have passed, it is the outside world that
has changed and not the Café Hawelka. It still provides a refuge for
many artists, writers and musicians.

Three generations of Hawelkas now work in the coffeehouse, but
Herr Hawelka still presides over his domain by day, greeting each
guest personally. Late each evening, as every evening for over half
a century, the smell of Frau Hawelka’s legendary Buchteln wafts
through the room.

The text of this post is a somewhat improved (mainly corrected) version of that
which is displayed in the
official site of the coffeehouse.

The author of the two pictures below is Gilles Soubeyrand, whose Vienna photos 
are shown here.


The following photo comes from an anonymous source. I have no idea where did I 
pick it up from. On the table is my favourite beer, the real Budweiser, made in
Cesky Budejovice, Czech Republic. I wish they will never change the bottle design!

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Sunday, February 3, 2008

xxviii - Rudolph Lehnert


Os cafés mouros de

Rudolf Lehnert

Lehnert & Landrock: a sigla que melhor simboliza o esplendor do
exótico do Norte de África e Próximo Oriente nas primeiras décadas
do século XX. Já aqui trouxe postais com “cafés mouros” de Lehnert
& Landrock. Aqui vai mais um, pouco conhecido. Como sempre, o
narguilé ocupa um lugar central nestes locais a que se chama café.
Café mouro, em rigor.


Lehnert & Landrock, Café Mouro, Tunes, ca. 1910

Mulheres em cafés mouros é que não havia, nem na época nem, se
calhar, hoje. Para elas, a função convivial do café era encenada no
remanso do harém. Este postal marroquino com uma cena de interior
mostra como as raparigas e mulheres berberes tomavam o cafezito ou
o chá e sabiam as últimas fofocas através das amigas, que recebiam na
zona da casa que lhes estava reservada. A imagem é dum tal Rodolphe
Neuer, fotógrafo com loja em Tânger, mas que, segundo dizem, não é
outro senão o nosso Rudolf Lehnert.


Postal com a legenda ”No harém, Marrocos”

Rudolf Lehnert (1878-1948), nascido na Boémia austríaca foi um
fotógrafo orientalista baseado em Tunes, onde abriu estúdio em 1904.
Ele e o seu sócio alemão Ernst Landrock, o homem do laboratório e dos
aspectos comerciais, tiveram que trocar a Tunísia pelo exílio na Suiça
durante a Grande Guerra, mudando depois o seu poiso para o Cairo.
Publicaram, entre 1904 e o final dos anos 30, alguns milhares de
fotografias, postais ilustrados, fotogravuras e heliogravuras sobre as
terras e gentes do Magreb, Egipto e Próximo Oriente. Lehnert teve o
privilégio de fotografar no Cairo,
nos anos 20, o recém-descoberto
tesouro de Tutankhamon. Na Palestina, registaram para a História
imagens da coexistência pacífica e harmoniosa das comunidades árabe
e judaica. A revista National Geographic publicou imagens de Lehnert
nos anos 20-30. Uma loja do Cairo que usa
ainda hoje
o nome Lehnert
& Landrock continua a vender (algumas…) das suas fotografias e
gravuras feitas há oitenta ou cem anos. Em Lausanne (Suiça), o Musée
de l’Elysée guarda muitas centenas de negativos da antiga firma.

O Norte de África, especialmente a Tunísia e Argélia, o Egipto, a
Palestina, a Síria e o Líbano foram percorridos e fotografados por
estes apaixonados do mundo árabe, de que deixaram muitas vezes
uma imagem romântica, talvez idílica, mas respeitosa das tradições
árabes. 


Lehnert & Landrock - Mulher vendada

A sua obra é, também, interessantemente isenta dos pruridos
censórios que na actualidade imperam no mundo islâmico e também
em vastas manchas do mapa da cristandade. A obra de Lehnert &
Landrock é
hoje mal vista por alguns moralistas anti-imperialistas e
abominada por muçulmanos fundamentalistas, pudibundos cristãos de
várias estirpes e outros neuróticos moralmente correctos, mas
continua a fascinar um vasto público, não exclusivamente ocidental.
Irritam muita gente
algumas fotografias de rapazes, raparigas,
homens e mulheres, sobretudo as menos vestidas. Mas continuam a
ser muitos os que se deixam fascinar por essas imagens, a que se
podem acrescentar as fotografias do deserto, dos oásis, das kasbahs,
dos mercados, das mesquitas e das ruínas de interesse arqueológico.
Até os mendigos cegos, tema de numerosas gravuras e postais,
parecem vestidos duma luz especial nas suas djelabas esfarrapadas.
Imagens dum mundo perdido, impossíveis de repetir hoje, na sua
maioria.


Aqui vão algumas imagens de belas beduínas e berberes em reduzida
indumentária, para bem dos nossos olhos.


Lehnert & Landrock, Nu de rapariga tunisina, heliogravura ca. 1910


Lehnert & Landrock, Rapariga berbere tunisina, heliogravura


Lehnert & Landrock, A bela Fatma, da tribo dos Ouled Nail (Argélia)



Lehnert & Landrock, outra perspectiva da bela Fatma



Lehnert & Landrock, Duas amigas Ouled Nail


Lehnert & Landrock, Rapariga Ouled Nail

Não se pense que foi fácil, mesmo há cem anos, fazer fotografia
artística de nus nos países do Norte de África. Nas cidades, só
prostitutas se prestavam a fazer de modelo, o que conferia uma má
nota às fotografias.

Eis o que, a propósito das dificuldades experimentadas, escreveram
Lehnert e Landrock:
Malgré de grandes difficultés nous avons réussi
à compléter notre collection par des études artistiques de nues. C’est
surtout chez les Bédouins nomades, sous les tentes des campements,
que nous avons trouvé des modèles jeunes et convenant au but visé.
Des corps aux formes idéales, brunis par les chauds rayons du soleil,
photographiés dans des attitudes décentes et des poses d’abandon
gracieux ont fourni matière à des images qui eurent beaucoup de
succès dans les cercles d’artistes surtout. 
(Do prefácio do catálogo de
imagens da firma, em 1922)

Em despedida, este nu com ânfora, digno do ambiente mirífico das Mil
e Uma Noites:


Lehnert & Landrock, Rapariga tunisina ca. 1910

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Thursday, January 24, 2008

xxvii - Christian Schad

Christian Schad


Christian Schad, Café d’Italia, 1921

Christian Schad
(1894-1982) fez “schadografias” a partir de 1918,
antes de se virar para a pintura figurativa e retratar a vida de café
(acima) ou de pintar aquela Sonja no Café Românico de que já aqui
falei. Foi Tristan Tzara que deu o nome schadografias aos seus
fotogramas ou fotografias abstractas. Esta é das primeiras:



Christian Schad, Schadographie n.4 (Amourette), 1918. Museum of Modern Art, NY.


Nos anos 60 voltou a fazer schadografias, por sinal em muito
maior número. Eis duas:

Christian Schad, Schadographie n. 21, 1960


Christian Schad, Schadographie n. 23, 1960

Nos anos 70, ainda fez mais. Eis uma:


Christian Schad, Schadographie n. 102, 1975

Em 1923 tinha pintado estas duas irmãs, populares actrizes italianas
a actuarem no Teatro Rossini, em Nápoles, onde Schad então vivia
e tinha o seu estúdio. Na época, as actrizes do Sul da Europa ainda
não tinham a obsessão da linha. Vinte quilinhos a mais não
chateavam ninguém. As luzes da ribalta parecem realçar ainda mais
o natural roliço das duas manas.



Christian Schad, Maria e Annunziata del Puerto, Nápoles, 1923
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid


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Friday, January 18, 2008

xxvi - Livro do Desassossego


Meus queridos vegetais!

Pessoa psicadélico (sobre foto de Vitoriano Braga, ca. 1920)



FIGURAS DOS CAFÉS

Trecho do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, segundo livro (Bernardo
Soares), n
ova edição de Teresa Sobral Cunha, Relógio d’Água, 2008, no prelo.



Sempre que podem, sentam‑se defronte do espelho. Falam
connosco e namoram‑se de olhos a si mesmos. Por vezes, como
é natural nos namoros
, distraem‑se da conversa. Fui‑lhes sempre
simpático, porque a minha aversão adulta pelo meu aspecto me
compeliu sempre a escolher o espelho como coisa para onde
virasse as costas. Assim, e eles de instinto o reconheciam
tratando‑me sempre bem, eu era o rapaz escutador que lhes
deixava sempre livres a vaidade e a tribuna.

Em conjunto não eram maus rapazes; particularmente eram melhores
e piores. Tinham generosidades e ternuras insuspeitáveis a um
tirador de médias, baixezas e sordidezes difíceis de adivinhar por
qualquer ente humano normal. Miséria, inveja e ilusão - assim os
resumo, e nisso resumiria aquela parte desse ambiente que se infiltra
na obra dos homens de valor que alguma vez fizeram dessa estância
de ressaca um pousio de enganados. (É, na obra de Fialho, a inveja
flagrante, a grosseria reles, a deselegância nauseante…)
Uns têm graça, outros têm só graça, outros ainda, não existem. A
graça dos cafés divide‑se em ditos de espírito sobre os ausentes e
ditos de insolência aos presentes. A este género de espírito
chama‑se ordinariamente apenas grosseria. Nada há mais
indicador da pobreza da mente do que não saber fazer espírito senão
com pessoas.

Passei, vi, e, ao contrário deles, venci. Porque a minha vitória
consistiu em ver. Reconheci a identidade de todos os aglomerados
inferiores: vim encontrar aqui, na casa onde tenho um quarto, a
mesma alma sórdida que os cafés me revelaram, salvo, graças aos
deuses todos, a noção de vencer em Paris. A dona desta casa ousa
Avenidas Novas em alguns dos seus momentos de ilusão, mas do
estrangeiro está salva, e o meu coração enternece‑se.
Conservo dessa passagem pelo túmulo da vontade a memória de um
tédio nauseado e de algumas anedotas com espírito.

e a posteridade nunca saberá deles, escondidos dela para sempre
sob a mole podre
dos pendões ganhados nas suas vitórias por vencer
.
 

Tudo ali é quebrado, anónimo e impertencente.
Vi ali grandes movimentos de ternura, que me pareceram revelar o
fundo de pobres almas tristes; descobri que esses movimentos não
duravam mais que a hora em que eram palavras, e que tinham raiz -
quantas vezes o notei com a sagacidade dos silenciosos - na analogia
de qualquer coisa com o piedoso, perdida com a rapidez da novidade
da notação, e, outras vezes, no vinho do jantar do enternecido. Havia
sempre uma relação sistematizada entre os humanitarismos e a
aguardente de bagaço e foram muitos os grandes gestos que sofreram
do copo supérfluo ou do pleonasmo da sede.

Essas criaturas tinham todas vendido a alma a um diabo da plebe
infernal, avarento de sordidezas e de relaxamentos. Viviam a
intoxicação da vaidade e do ócio, e morriam molemente, entre coxins
de palavras, num amarfanhamento de lacraus de cuspo.
O mais extraordinário de toda essa gente era a nenhuma importancia,
em nenhum sentido, de toda ela. Uns eram redactores dos principais
jornais, e conseguiam não existir; outros tinham lugares públicos em
vista do anuário, e conseguiam não figurar em nada da vida; outros
eram poetas até consagrados, mas uma mesma poeira de cinza lhes
tornava lívidas as faces párvuas, e tudo era um túmulo de
embalsamados hirtos, postos com a mão nas costas em posturas
de vidas.
Neles se intercalavam, como espaços, uns homens de mais idade,
alguns com ditos de espírito pregresso, que diziam mal como os
outros, e das mesmas pessoas.

Guardo do pouco tempo que me estagnei nesse exílio de esperteza
mental uma recordação de bons momentos de graça franca, de
muitos momentos monótonos e tristes, de alguns perfis recortados
no nada, de alguns gestos dados às serventes do acaso, e, em
resumo, um tédio de náusea física e a memória de algumas anedotas
com espírito.
Nunca senti tanta simpatia pelos inferiores da glória pública como
quando os vi malsinar por estes inferiores sem sequer essa pobre
glória. Reconheci a razão do triunfo porque os párias do Grande
triunfavam em relação a estes, e não em relação à humanidade.

Pobres semideuses marçanos que ganham impérios com a palavra
e a intenção nobre e têm necessidade de dinheiro com o quarto e
a comida!
Parecem as tropas de um exército desertado cujos chefes houvessem
um sonho de glória, de que a estes, perdidos entre os limos de pauis,
fica só a noção de grandeza, a consciência de ter sido do exército, e
o vácuo de nem ter sabido o que fazia o chefe que nunca viram.
Assim cada um se sonha, um momento, o chefe do exército de cuja
cauda descaiu. Assim cada um, entre a lama dos ribeiros, saúda a
vitória que ninguém pôde ter, e de que ficaram como migalhas entre
nódoas na toalha que se esqueceram de sacudir.
Enchem os interstícios da acção quotidiana como o pó os interstícios
dos móveis quando não são limpos com cuidado. Na luz vulgar do
dia comum vêem-se a luzir como vermes cinzentos contra o mogno
avermelhado ou entre o mogno e o dedo velho. Podem tirar-se com
um prego velho. Mas ninguém tem paciência para os tirar.
Meus pobres companheiros que sonham alto, como os invejo com
vergonha!
Comigo estão os outros - os mais pobres, os que não têm senão a
si mesmos a quem contar os sonhos e fazer o que seriam versos
se eles os escrevessem - os pobres diabos sem mais literatura que
a própria alma, sem ouvirem louvores da crítica, que morrem
asfixiados pelo facto de existirem sem terem feito aquele
desconhecido exame transcendente que habilita a viver.
Uns são heróis e prostram cinco homens a uma esquina de ontem.
Outros são sedutores e até as mulheres que nunca viram lhes não
ousaram resistir. Crêem isto quando o dizem, talvez o digam para
que o creiam. Outros, sonhando mais reles, ouvem e acreditam.
Para todos eles os vencidos do mundo, quaisquer que sejam, são
gente.
E todos como eirós num alguidar, se enrolam entre eles e se cruzam
uns acima dos outros e nem saem do alguidar. As vezes falam deles
os jornais. Os jornais falam d’alguns mais do que algumas vezes -
mas a fama nunca.
Esses são os felizes porque lhes é dado o sonho mentido da estupidez.
Mas aos que, como eu, têm sonhos sem ilusões (…)

Pobres diabos sempre com fome - ou com fome de almoço, ou com
fome de celebridade, ou com fome das sobremesas da vida. Quem
os ouve, e os não conhece, julga estar escutando os mestres de
Napoleão e os instrutores de Shakespeare .
Há os que vencem no amor, há os que vencem na política, há os que
vencem na arte. Os primeiros têm a vantagem da narrativa, pois se
pode vencer largamente no amor sem haver conhecimento célebre
do que sucedeu. É certo que, ao ouvir contar a qualquer desses
indivíduos as suas Maratonas sexuais, uma vaga suspeita nos
invade, pela altura do sétimo desfloramento. Os que são amantes
de senhoras de título, ou muito conhecidas (são, aliás, quase todos),
fazem um tal gasto de condessas que uma estatística das suas
conquistas não deixaria sérias e comedidas nem as bisavós dos
títulos presentes.
Outros especializam no conflito físico, e mataram os campeões de
boxe da Europa numa noite de pândega, à esquina do Chiado. Uns
são influentes junto de todos os ministros de todos os ministérios, e
estes são aqueles de que menos há que duvidar, pois não repugna (_)
Uns são grandes sádicos, outros são grandes pederastas, outros
confessam, com uma tristeza de voz alta, que são brutais com mulheres.
Trouxeram‑as ali, a chicote, pelos caminhos da vida. No fim ficam a
dever o café.
Há os poetas, há os (…)

Não conheço melhor cura para toda esta enxurrada de sombras que
o conhecimento direito da vida humana corrente, na sua realidade
comercial, por exemplo, como a que me surge no escritório da Rua
dos Douradores. Com que alívio eu volvia daquele manicómio de
títeres para a presença real do Moreira, meu chefe, guarda‑livros
autêntico e sabedor, mal vestido e mal tratado, mas, o que nenhum
dos outros conseguia ser, o que se chama um homem…
simples e autênticos, que passam pelas ruas da vida, com um destino
natural e calhado, essas figuras dos


Comparados com os homens  cafés assumem um aspecto que não
sei definir senão comparando‑as a certos duendes de sonhos -

figuras que não são de pesadelo nem de mágoa, mas cuja recordação,
quando acordamos, nos deixa, sem que saibamos porquê, um
sabor a um
nojo passado, um desgosto de qualquer coisa que está
com eles mas que se não pode definir como sendo deles.

Vejo os vultos dos génios e dos vencedores reais, mesmo pequenos,
singrar na noite das coisas, rasgando com proas desdenhosas,
sem
dificuldade,
nem sequer conhecimento, nesse mar de sargaço de
palha de garrafas e aparas de cortiça;
ali se resume tudo, como no
chão do saguão do prédio do escritório, que, visto através das
grades da janela do armazém, parece uma cela para prender lixo.

Irrita‑me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são
infelizes. A sua vida humana é cheia de tudo quanto constituiria uma
série de angústias para uma sensibilidade verdadeira. Mas, como a
sua verdadeira vida é vegetativa, o que sofrem passa por eles sem
Ihes tocar na alma, e vivem uma vida que se pode comparar somente
à de um homem rico com dor de dentes que houvesse recebido uma
fortuna—a fortuna autêntica de estar vivendo sem dar por isso, o maior
dom que os deuses concedem, porque é o dom de lhes ser
semelhante, superior como eles (ainda que de outro modo) aos
incidentes que chamamos alegria e dor
.

Por isto, contudo, os amo a todos. Meus queridos vegetais!


©
Teresa Sobral Cunha

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Saturday, October 27, 2007

xxv - Romanisches Café

O Café da República de Weimar


Mulher anónima a solo no Café Românico, 1924

O Café des Westens, Café do Oeste (Oeste de Berlim, entenda-se)
aberto em 1898 e encerrado em 1915, tinha sido o café literário mais
em voga da capital alemã durante uma breve geração, na chamada
Belle époque. Pouco antes da I Guerra Mundial, a imprensa
nacionalista e conservadora berlinense começou a atacar a sua
clientela de artistas e literatos. Alcunharam-no de Café Megalomania
(Café Grössenwahn), copiando a alcunha dada trinta anos antes em
Viena a outro café literário, o Griensteidl. O Café des Westens foi
encerrado pelo seu proprietário em 1915 por razões não totalmente
esclarecidas. O dono foi abrir um estabelecimento homónimo noutro
local de Berlim, mas com perfil de café concerto. A antiga clientela
“megalómana” não gostou da nova fórmula e procurou outro sítio
para assentar arraiais. Não longe do Megalomania, também no
bairro de Charlottenburg, descobriram o local ideal.


Romanisches Café por volta de 1920

O Romanisches Café, Café Românico, assumiu gradualmente o
papel do Café Megalomania como lugar de encontro favorito dos
intelectuais, artistas e boémios durante os anos da República de
Weimar (1919-1933), período dourado das artes e letras alemãs
no século XX. Uma velha maldição devia pesar sobre esta linhagem
de locais conviviais, pois o Românico não sobreviveu, como café
literário, ao triunfo do nazismo e o prórpio edifício em que se
encontrava também não sobreviveu a um bombardeamento da cidade
pela força aérea britânica, em 1943. Já lá iremos.

O nome do Café Românico devia-se simplesmente ao nome do
edifício em que estava instalado, a Romanisches Haus, construída
em estilo neo-românico em 1900-1901. O edifício situava-se por
sua vez em frente da Igreja Memorial do Imperador Guilherme,
construída igualmente em estilo neo-românico em 1891-1895,
também destruída pela aviação britânica. Toda a praça Augusta
Vitória (do nome da imperatriz),
em cujo centro se situava a igreja,
era em estilo neo-românico e toda ela foi destruída em 1943. Havia
outro Edifício Românico do lado oposto da praça, construído em
1896, onde funcionou nos anos 1920-30 o Café Trumpf e o cinema
Gloria-Palast, no qual foram estreados os mais famosos filmes
alemães da época, como “O Anjo Azul” (1930) com Marlene Dietrich.
Tudo seria arrasado pela guerra. Quase nada restou do que se vê
nas fotografias.


A Praça Augusta Vitória em 1935, com a igreja e os dois edifícios românicos


O cinema Gloria-Palast e o Café Trumpf em 1936

O Café Românico começou por ser pastelaria antes de, por volta
de 1916, se tornar num verdadeiro café. Até 1933, seria o poiso
obrigatório de numerosas celebridades do mundo da cultura. Para
só citar os nomes mais conhecidos fora da Alemanha: Otto Dix,
George Grosz, John Heartfield, Emil Orlik, Max Beckman, Christian
Schad (veja-se abaixo a sua Sonja sentada no Café Românico),
Max Herrmann-Neisse (escritor e boémio retratado por todos os
artistas da época), Bertolt Brecht, Kurt Weill, Erich Maria Remarque,
Franz Werfel, Kurt Tucholsky, Alfred Döblin, Heinrich Mann,
Vladimir Nabokov, Erich Kästener (o autor de Emílio e os
Detectives
), Joseph Roth, Oskar Kokoschka ou os cineastas Fritz
Lang, Ernst Lubitsch  e Samuel Wilder - o futuro Billy Wilder.


Esplanada coberta do Café Românico, 1925


Café Românico, 1930

O pintor Christian Schad, um dos cavaleiros da Nova Objectividade,
retratou a sua amiga Sónia fumando Camel por boquilha, sentada
no Café Românico, em 1928, de costas voltadas para o calvo
escritor Max Herrmann-Neisse, verdadeira peça de mobília do café,
de que o pintor apenas permitiu que se visse a orelha e uma nesga
do crânio. Sónia (Sonja), amiga de Schad, secretária de profissão
e modelo nas horas vagas, foi declarada pelo pintor rainha de
beleza do Café Românico.


Christian Schad, Sónia no Café Românico, 1928


Lesser Ury, Rapariga no Café Românico, 1911

Outra mulher sentada num café berlinense pelo mesmo Ury


Lesser Ury, Rapariga sentada num café, 1924

Tal como a clientela do Café Megalomania (alcunha importada,
recorde-se, de um célebre café de Viena), os habitués do Café
Românico também tinham uma grande ideia de si próprios. Veja-se
esta composição gráfica da época.



“Romanisches Café: sala de espera do génio e bolsa do artista.”

O café era também muito frequentado por intelectuais e artistas
judeus, entre os quais alguns dos acima já mencionados. Num
ambiente tendencialmente progressista, não podiam também faltar
os salonkommunisten, os comunistas de salão, que elegeram o
Café Românico como seu quartel general, a um pulo dos grandes
armazéns KaDeWe, Kaufhaus des Westens (inaugurado em 1907),
onde os revolucionários compravam as boas camisas e melhores
papillons com que combatiam nas fileiras anti-capitalistas.

Em Março de 1927, seis anos antes do triunfo de Hitler, o café foi
alvo de uma multidão de caceteiros nazis amotinados que
percorreram a avenida Kurfürstendamm lançando ataques e
provocações. Ao chegarem junto do Romanisches Café, um bando
de “camisas castanhas” entrou no estabelecimento e agrediu os
supostos judeus e comunistas que lá se encontravam.

Sob o regime de Hitler, o café entrou rapidamente em decadência,
perdendo a sua cientela de artistas e escritores e o clima de
liberdade que ali sempre se vivera. Muitos tiveram de emigrar e,
quando não o fizeram - caso de Otto Dix, Karl Hubbuch e Erich
Kästener - foram perseguidos, vendo as suas obras queimadas
em autos da fé ou incluídas em listas de “arte degenerada”.

Um bombardeamento britânico em 1943 deixou o edifício do café
em ruínas, bem como a igreja fronteira e toda a Praça Augusta
Victória, como foi acima dito. Foi a paga, diz-se, pela destruição do
bairro e Catedral de Coventry pelos alemães, num ataque aéreo que
ficou para a história como o
Coventry blitz.



Deutsche Fotothek
Ruínas do Romanisches Café em 1946, vistas das ruínas da igreja fronteira

Um ano antes da tomada de poder por Hitler e onze anos antes de ser
destruída pela aviação inglesa, era assim a imponente igreja que se
situava em frente do Café Românico (repare-se no último prédio do
lado direito da rua, com um torreão mais baixo, que é o edifício do
café).


Kaiser Wilhelm Gedächtniskirche (Igreja Memorial do Imperador Guilherme) em 1932

Depois da guerra, a igreja destruída ainda tinha muita parede de pé.

Veja-se abaixo o seu estado em 1953, sob um manto de neve.


Kaiser Wilhelm Kirche, 1953

Depois optaram por conservar só a torre principal, demolindo o resto
e construindo umas modernices dos lados, obtendo-se desse modo
um conjunto horrendo, mas muito fotografado pelos turistas. Dois
poliedros de cimento, o mais baixo parecendo um galinheiro e o
mais alto um pombal. No meio, o “dente furado”, como a gíria
berlinense baptizou aquele resto de torre.


Arquitectura modernista a cavalo sobre neo-românico em ruínas

Curiosamente, estes pombais de betão só têm mais 60 anos do que
a igreja em ruína! A minha modesta proposta era que deitassem
tudo abaixo e fizessem uma nova igreja. Ou um jardim e um lago 
com cisnes no meio.

Porque não deixaram antes ficar as ruínas como estavam em 1953?
A reconstrução teria sido possível a prazo, como aconteceu com a
Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora) de Dresden, que foi
reinaugurada solenemente em 30 de Outubro de 2005.


Frauenkirche, Dresden, 2005

Abaixo, como esta igreja era em 1935:


Frauenkirche, Dresden, 1935

E como ficou em 1945, depois de destruída pelos bombardeiros
ingleses:


Frauenkirche (primeiro plano), Dresden, 1945

© Texto de José Barreto

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Sunday, October 14, 2007

xxiv - Karl Hubbuch


Os cafés de
Karl Hubbuch


Karl Hubbuch - Auto-retrato


Karl Hubbuch, Berliner Kaffeehaus, 1924


Karl Hubbuch - Café Au Départ, ca.1960


Karl Hubbuch (1891-1979), natural de Karlsruhe, foi um pintor,
desenhador, aguarelista e gráfico alemão associado à Neue
Sachlichkeit,
Nova Objectividade, movimento artístico nascido
nos anos 20 do expressionismo, mas em ruptura com ele.


Karl Hubbuch, A nadadora de Colónia, 1925

Hubbuch estudou em Karlsruhe (1908-12), onde fez amizade com
o pintor Rudolf Schlichter, e em Berlim (1912-14), debaixo da
orientação de Emil Orlik, na Academia do Museu de Artes e Ofícios,
onde conheceu George Grosz. Prestou serviço militar durante a
Grande Guerra (1914-18), contraindo malária. Em 1922 e 1924
trabalhou em Berlim. Em 1925, participou com George Grosz,
Otto Dix e Rudolf Schlichter na primeira exposição da Neue
Sachlichkeit
, na cidade de Mannheim. Esta sala de aula optimista
e arejada, quase idílica, é desse mesmo ano.


Karl Hubbuch, Sala de aula, 1925

Nas vésperas do nazismo, Hubbuch pinta num registo muito diferente.
No “Vendedor de violetas”, aqui em baixo, a realidade é angustiante,
esmagadora e a esperança desapareceu. Nem as violetas se vêem
(pode ser da foto).


Karl Hubbuch, Vendedor de violetas, 1930-32

Hubbuch era, como Grosz, Dix e Schlichter, muito crítico da ordem
social, económica e política da República de Weimar. Embora
menos abertamente do que o primeiro, a sua arte reflecte igualmente
a total oposição ao nazismo. Nos anos 20 e princípio de 30 publica
desenhos satíricos em várias revistas, sendo um dos fundadores da
revista Zapko. Em 1932 publica uma colecção de 40 desenhos sob
o título Deutsche Belange, “Preocupações alemãs”. A essa colecção
pertence o desenho seguinte, intitulado “Nem para uma chega”,
pertencente a uma série de “Dificuldades pecuniárias”. O homem
com falta de liquidez é o poeta expressionista, dramaturgo e crítico
Max Herrmann-Neisse, figura boémia cimeira da Berlim e um habitué
dos cafés literários nos anos de Weimar.


Karl Hubbuch, Nem para uma chega, 1925-27 (desenho à pena original)

Em baixo, o mesmo Max Herrmann-Neisse numa pose mais selecta,
por George Grosz, 1927

Em 1933 Hubbuch perde o emprego de professor na Academia de
Arte de Karlsruhe e a Gestapo proibe-lhe de pintar, tal como aos seus
amigos Grosz e a Dix. Sob o regime de Hitler pinta cerâmica e relógios
de cuco para sobreviver. Regressa à Academia de Karlsruhe como
professor em 1947. É redescoberto como desenhador e gravurista nos
anos 60-70 e morre em 1979.

Nas cenas de café aqui em baixo, temos três facetas de Hubbuch: o
excelente desenhador a pender para a caricatura no retrato de Lissy,
o pintor crítico social e, enfim, o autor de sketches ultra-rápidos em
qualquer lugar onde se encontrasse.


Karl Hubbuch, Lissy im Café, 1930-32

A cena do Romanisches Café (Café Românico), com os proletas de
nariz encostado à vidraça e um interior a lembrar obras de Grosz,
não necessita de comentário, a não ser sobre o próprio café
berlinense que, juntamente com o Café des Westens (ou
Megalomania), foram os mais frequentados nas primeiras décadas
do século XX por jornalistas, literatos, artistas e pessoas do teatro
e cinema, vulgo boémios. As pessoas de caras sórdidas, simiescas
e alvares que Hubbuch representa nesta pintura nada têm a ver com
a clientela que realmente caracterizou e celebrizou o mais importante
café literário e artístico durante a República de Weimar.


Karl Hubbuch, Im Romanischen Café, 1925-30


Karl Hubbuch, Pessoas em café, s.d.

As obras directamente políticas de Hubbuch são mais raras e menos
directas do que as de George Grosz. A pintura Aufmarsch II, de
1933-35, representa o desfile vitorioso dos nazis numa cidade
muralhada, perante todos os sectores da sociedade, que assistem
estáticos ao cortejo, numa atitude de fascínio, perplexidade ou
indiferença. A incompreensão e o desgosto do artista pelo triunfo
do nazismo levam-no a não representar qualquer manifestação de
entusiasmo popular.


Karl Hubbuch, Aufmarsch II, 1933-35

Abaixo, uma anterior litografia do autor, de 1925-1927, também
intitulada Aufmarsch (Desfile), com um tema algo semelhante,
representando, no centro, os nazis juntamente com os militaristas,
num rumo hostensivamente diferente tanto das classes populares,
em baixo, como das classes conservadoras e burguesas guiadas
pela Igreja, em cima. Esta obra antecede de meia dúzia de anos o
advento do nazismo.


Karl Hubbuch, Aufmarsch, litografia, 1925-1927

Para que não se fique com a ideia de que Hubbuch só se dedicava
à crítica social e política, veja-se esta obra muito avançada de 1927,
intitulada “Trigémeas”, feita com uma só modelo em três posições.
O quadro foi vendido em 2002 pela Sotheby’s por 150.000 libras,
soma de dinheiro que Hubbuch possivelmente não ganhou com o
trabalho de toda a sua vida. Se eu tivesse essa massa,
comprava-o eu!


Karl Hubbuch, Drillinge, 1927

Na pintura seguinte, Hubbuch usa também uma só modelo - a sua
mulher Hilde Hubbuch (1905-1971), fotógrafa aluna da Bauhaus - para
um retrato duplo. Hilde, Isai de nascimento, judia, teve de
fugir ao nazismo em 1933. Foi para Nova Iorque, onde continuou a
fazer fotografia, mas de onde já não regressou.


Kar Hubbuch, Retrato duplo de Hilde, ca. 1929, Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid

Karl Hubbuch retratou-a também com objectos de design moderno
nos dois desenhos seguintes. No primeiro Hilde está sentada na
cadeira tubular do designer húngaro Marcel Breuer, colega e amigo
dela na Bauhaus (a cadeira da pintura anterior também é de Breuer,
por sinal). A bicicleta no chão, ao lado da cama, está lá só para ficar
na foto, mas não entendo porquê. Por coincidência, a estrutura tubular
desta cadeira de Breuer, desenhada em 1925-26, foi inspirada nos
guiadores da famosa bicicleta Adler. As cadeiras tubulares de Breuer
são anteriores às de Mies van der Rohe.

.
Karl Hubbuch, Hilde com secador, bicicleta e cadeira Breuer, 1928-29

No segundo desenho, temos Hilde a limpar o pó a um candeeiro
Bauhaus, junto da cadeira Breuer, novamente. Ou a casa era pequena
ou Hilde tinha uma panca pela cadeira. Ou pelo autor dela. Ou ambas
as três coisas.


Karl Hubbuch, Hilde com candeeiro Bauhaus, 1926

© Texto de José Barreto

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